A minha formatura está mais próxima do que nunca. E como era de se esperar, um convite foi dado para o nosso querido e amado vizinho Ryan. A barriga esfria só de imaginar que ele irá conhecer Caleb pessoalmente. Já estou escutando as piadas infames do meu amigo quando nos encontrarmos depois; ou até mesmo alguma fala que somente nós dois entendamos. Sinto que ficarei constrangido.
E claro, também não posso deixar de pensar no efeito que ele causará nas garotas lá presentes. E quem sabe, até mesmo nas mães solteiras — ou não; acalme-se, Nick. Não sofra por antecipação. Se é para ficar com ciúmes, fique quando for o momento. E tente disfarçar, pelo amor de Deus.
Além do já citado homem, apenas meus pais e padrinho, Leon, estarão presentes. Nunca fui o mais popular da família e, também, a maioria deles moram em outros estados. Lógico que não vão gastar dinheiro para vir até aqui e me ver pegando um canudo de papel em cima de um palco. Para mim, as congratulações que recebi via mensagem SMS e ligações são suficientes, obrigado.
O dia hoje está quente. É um daqueles em que o Ryan realmente curte ficar de roupas de banho no quintal de casa, sentando à beira da piscina enquanto tenta pegar uma corzinha. Tenta, porque está longe de conseguir. Desde que chegou, e o tanto de vezes que já o vi com o peitoral exposto, não vejo diferença em um tom abaixo do que era. Tenho certeza que qualquer marca em sua pele levará mais de uma semana para deixá-la. Ideias é o que não me faltam, pode acreditar.
Talvez eu devesse ir pegar um bronzeado também. Por que não?
Escolhi a roupa de baixo mais extravagante que pudesse encontrar na gaveta de cuecas. Arrumei os cabelos — não exatamente —, peguei uma toalha e desci em direção à piscina no nosso quintal.
— Bom dia, senhor Smith. — Acenei como quem não quer nada. Ele levantou o óculos de sol para me olhar, sentando na cadeira de praia para visualizar melhor por cima da baixa cerca que nos separa. A distância entre nós não é grande.
— Bom dia, Nick — me cumprimentou.
— Vejo que também decidiu pegar uma corzinha hoje.
— Ah, aparentemente estou tentando desde muito tempo — ria com graça.
— Tenho certeza que uma hora dará certo — acompanhei o riso. — E, bela sunga — elogiei.
— O quê? — Ele olhou para a minha própria peça, dando uma conferida. — Obrigado. Você deveria tomar sol mais vezes, pouca roupa lhe cai bem. — Havia levantado o óculos novamente sobre o nariz, e enquanto me encara, não consigo dizer para onde está olhando de fato.
— Ora, não seja assim, senhor Smith. — Tentei bancar o tímido. — É apenas uma cueca feita pra nadar. — O vi segurando o aro do óculos e abaixando um pouco, erguia uma sobrancelha. Seu olhar percorreu todo o meu corpo.
— Uma cueca feita para nadar ou não, gosto do que vejo. E se já foi à piscina ou à praia com aquele seu amigo, tenho mais do que motivos, agora, para entender aquele olhar predador de quando o vi saindo de sua casa. — Recostou novamente na cadeira. — Oh, se tenho. — Parecia falar consigo mesmo, mas eu sabia que não.
— Não sei de onde está tirando essas coisas — comentei de maneira simplória.
— Ou você é cego ou gosta muito de bancar o inocente.
— Tenha certeza de que não sou inocente, senhor Smith — enfatizei.
— Acho que nunca tive dúvidas sobre isso.
Estou tentando entender se o que acabou de sair de seus lábios é bom ou não. Dentro do tipo de relação que temos, provavelmente é. Porém, não vejo nenhum ângulo ao qual eu possa tirar proveito de sua frase.
— Não quer vir aqui? — Olhou para mim com seus óculos escuros.
— Okay, vou te dar o prazer da minha presença.
Entrei em casa para avisar à dona Marie que eu estava indo para a casa do vizinho. Ela pediu que eu estivesse de volta para o almoço; coloquei uma bermuda para passar pela calçada até sua porta. Ainda levei comigo uma toalha de banho.
Quando terminei de subir os degraus de sua varanda, percebi que a porta estava entreaberta. Segui pelo corredor até o quintal, encontrando um Ryan que nem mesmo moveu um músculo com a minha chegada.
— Precisava mesmo ter vestido suas calças para vir até a casa ao lado? — Sua voz estava revestida de chacota.
— Claro. Eu tenho que ter alguma vergonha na cara.
— O que está insinuando, garoto? — ainda havia diversão em seu tom.
— Qualquer interpretação que queira fazer. — Dei de ombros, indo me acomodar na cadeira ao lado da dele.
Havia algum tipo de timidez em mim quando comecei a tirar a peça que vesti. Porém, não era agora que eu iria dar para trás. Lógico que não.
Dei as costas a ele, desabotoando, descendo o zíper e finalmente pus os dedos na barra da cintura para descê-lo pelas pernas. Foi proposital que não dobrei os joelhos quando o pano já estava mais lá para baixo.
— Já passou protetor? — Escutei perguntar.
— Na verdade, não. Havia acabado de descer, planejava fazer isso quando me acomodasse.
— Venha, eu ajudo.
Ainda bem que estou de costas, porque, com certeza, meu olhar de “Isso é sério?” seria motivo de piada. Meu coração bate extremamente rápido no peito — e em outras áreas do corpo também.
Se eu tivesse escutado sua movimentação, talvez não tivesse levado tanto susto, todavia, consegui segurar bem na reação corporal, ao menos nada foi me dito quanto a isso.
Sou quase tão alto quanto ele e até gosto dessa pequena diferença de altura. Seu toque foi gentil, como seu massageasse toda a extensão posterior de meu corpo. Gostei de poder sentir a maciez da palma de suas mãos e a delicadeza da ponta de seus dedos. Deixei meus olhos se fecharem por um momento em que aproveitava seus leves apertos aqui e ali; um suspiro seria muito bem-vindo também.
— Devidamente protegido, senhor Nick — sussurrou em meu ouvido.
— Obrigado, senhor Smith.
— Disponha. E fique à vontade com a piscina.
— Obrigado.
Me acomodei na cadeira ao seu lado e alguns assuntos triviais vieram à tona. Não é de nosso costume conversar sobre coisas do dia-a-dia, mas cá estamos nós, em uma bela manhã diante da piscina, era óbvio que cedo ou tarde o rumo iria se desviar; afinal, é o nosso padrão. Em momento nenhum esperei a continuidade de uma conversa sobre seus desejos e aspirações na carreira. Tenho quase certeza de que, assim como eu, essa é a última coisa importante que deve passar em sua cabeça.
Apesar de todas essas provocações e alfinetadas, Ryan Smith é um homem fora de meu alcance.
— Estou ansioso para a sua formatura — comentou.
— É mesmo?
— Sim. Para conhecer seus amigos.
— Claro que seria sobre isso. Eu nem suspeitava. — Rolei os olhos.
— Somos vizinhos há tanto tempo e somente conheço um deles. Seu círculo social não é muito extenso ou o quê?
Soltei uma profunda lufada de ar, ignorando a questão. O escutei rindo, voltando para sua posição anterior de quando não me olhava.
Não muito tempo depois, o vi levantar e entrar pelas portas dos fundos, pouco depois, voltou com uma jarra de conteúdo vermelho com bastante gelo. Servindo dois copos, quando bebi, descobri ser suco de morango. Elogiei sua preparação, vi apenas um breve sorriso depois do agradecimento.
Quando o sol decidiu que era hora de esquentar um pouco mais, resolvi esticar as pernas dentro d’água. Smith ainda não havia movido um m****o além do braço para pegar o copo e levá-lo nos lábios. Quando foi até a cozinha, trouxe consigo também o jornal de hoje.
— Realmente está ficando velho. Ainda lê jornal impresso. — Ele me olhou por cima das folhas.
— Você não sabe da metade das coisas que faço, jovem.
— Não tenho problema nenhum em ficar sabendo — retruquei.
— Cuidado com o que deseja. — Cobriu o rosto novamente com as páginas.
— Pensei que escutaria um “seu desejo é uma ordem”. Estou decepcionado, senhor Smith. — Mordi o lábio, dando meia-volta e pulando na piscina.
— Quem brinca com fogo se queima, sabia, garoto?
— Ah... Mas depende de que tipo de fogo o senhor esteja falando, não é mesmo?! — Lhe enviei uma piscadela.
Lógico que ele não deixaria barato. Não é esse tipo de homem. E notei sua intenção quando deixou o jornal de lado de qualquer jeito. Havia tirado os óculos escuros e caminhava em minha direção com um andar mais do que determinado.
Quando entrou na piscina, mergulhou até chegar próximo a mim. Sua subida para a superfície deixou nossos p****s quase unidos. Seus fios colados e pingando em sua testa, além de pelo resto de seu rosto, suas mãos seguraram minhas bochechas para lhe dar melhor acesso aos meus lábios. E é lógico que concedi toda a permissão.
— Adoro moleques atrevidos como você. Espero que não se arrependa de ter cutucado a lareira com uma folha de papel.
Sua boca tomou a minha com urgência, me apeguei ao seu tronco, querendo sentir mais de seu corpo e—
— Nick! O almoço está servido! — De onde estou, vi minha mãe gritando da janela do meu quarto.
Sinto minhas bochechas coradas.
— Acho que o sol quente não te fez muito bem. Como se sente? — Estava agachado na beira da piscina, olhava bem para meu rosto, parecia preocupado.
— Estou bem. Só estava perdido em um devaneio — comentei baixo.
— Sonhando acordado, hãn?
— Algo assim. — Balancei a mão com desdém. — Bem, nos despedimos aqui. Obrigado pelo banho e pelo protetor. — Enrolei minha toalha na cintura.
— Venha sempre que quiser. E dê um beijo em sua mãe por mim. — Acenava para a dona ruiva que me observava ainda no mesmo lugar.
Quando entrei em casa, segui direto para um banho. Meu pai já estava na mesa, estavam todos apenas esperando pela minha presença.
O passar da semana foi tranquilo, apesar da empolgação da Marie com a formatura no dia de amanhã. O grande sábado chegou bem rápido. Mas as coisas têm passado bem depressa ultimamente, eu deveria saber que seria dessa maneira. Porém, não estou tão empolgado assim, não tanto quanto meus familiares parecem estar.
A minha mãe, inclusive, já convidou o Smith para jantar ainda ontem, disse que era para lembrá-lo do dia S — de sábado. Ryan soltou uma risada gostosa, dizendo que estava ciente do evento. Claro que está.
E como foi dito antes, a sexta-feira não se arrastou como deveria; a manhã de sábado foi bem prazerosa. O dia quente e claro. Poucas nuvens no céu e temperatura agradável.
Thiago e Marie estavam radiantes na cozinha, para tanto que fizeram meu café da manhã favorito em comemoração. Além de dizerem que o almoço também teria algo que gosto bastante. Eu deveria me formar mais vezes. Haha. De resto, tudo seguiu entre meu pai levar a esposa no salão de beleza, às duas horas, enquanto nós esperávamos até os últimos segundos para o momento de sair, para só então colocarmos nossos ternos; a beca está no carro.
Por volta das quatro da tarde, já estávamos todos prontos e quase preparados para sair. Da janela de meu quarto, ainda vi o moreno passar por nenhum ângulo da sua casa ao qual tenho visão. Ele irá conosco, mas eu gostaria muito de ter uma visão antecipada para preparar o coração ao vê-lo de roupas sociais.
Quando desci para a sala de estar, poucos minutos depois, a campainha soou. Me ofereci para abrir, sentindo as pernas bambas e o coração na mão.
Seja o que Deus quiser, amém.
E ao abrir a porta, tive a minha melhor surpresa da noite. Olhei o moreno ali, da cabeça aos pés, voltando bem devagar ao longo de suas pernas até encontrar seus olhos. Tenho certeza de que não disfarcei nem um pouco o olhar de desejo que brotou em minha íris. Talvez até meu lábio tenha sido brevemente mordido.
Senhoras e senhores, Ryan Smith de terno é o meu mais novo e maior fetiche a ser realizado.
— É o Smith, Nick querido? — Ouvi os saltos de minha mãe.
— Sim, é ele. — Lhe dei passagem.
— Ótimo, fique à vontade. — O acolheu pelos ombros quando nos encontrou na entrada. — Vamos apenas esperar o padrinho do Nick chegar.
Respirei fundo algumas dezenas de vezes enquanto fechava a porta e tomava fôlego para acompanhar os dois. Levarei alguns bons anos para superar essa.
E dentro do carro, ficar ao seu lado foi realmente outra tortura. A boa sorte é que dava para distrair-se com as histórias loucas contadas pelo Leon. Mas o perfume desse homem sempre fazia visita em meu olfato. Assim como alguma troca de olhar rápida, mas eficaz contra minha sanidade; encostei a cabeça no encosto e decidi fixar as vistas na rua. Estava calma, poucas pessoas passeavam pelas avenidas. Não havia muito o que ver, mas ajudava na estabilidade de meus batimentos. Pode parecer exagero, claro que pode, mas em algum momento da viagem senti uma gota de suor escorrer ao longo de minha coluna.
O estacionamento está quase lotado. Os alunos estão espalhados por todo o campus da escola, assim como há pais por toda a parte. Rolei os olhos pela multidão, procurando alguém conhecido. Sinceramente, não sei qual o sentimento que me aflige ao ter descoberto primeiramente ele. Olhando para o lado, vi o sorriso infame de Ryan. Eu pretendia desviar o caminho e nos levar direto para o auditório, mas minha mãe — que é amiga dos Jones — também os localizou, começando a nos guiar até lá. Ainda tentei levá-la para longe, reclamando sobre encontrar melhores lugares... Tudo em vão.
O quanto não fiquei tenso quando vi o Caleb correndo em minha direção, com os braços bem abertos para uma recepção mais do que calorosa.
Socorro, Deus.