Friends

3224 Words
Não faça novamente. A voz do Ryan repercutia em minha cabeça. Há, que engraçado, essa é a única coisa que consigo pensar enquanto vejo o sorriso enorme de meu amigo vindo em minha direção. O recepcionei fixando bem os pés no solo para não ser arremessado para trás. O abraço foi extremamente apertado. O garoto está mais do que feliz com a formatura, com certeza era um dos mais ansiosos para tudo isso relacionado à escola finalmente ser falado em forma de passado. — Ei, calma, garotão. — O afastei um pouco. — Andou bebendo? Mas a festa ainda nem começou — nós rimos. — Olá, senhora Marie, senhor Davis. Leon! — cumprimentou todos de forma mais do que animada. Até chegar nele: — Quem é esse? — sussurrou para mim como se o moreno presente não pudesse ouvir, Caleb não tirava os olhos dele, o meu coração batendo forte. — Esse é Ryan Smith, meu vizinho. — AH! Aquele vizinho — sussurrou mais uma vez. — Olá, senhor Smith. É um prazer. Sou Caleb Jones. — Estendeu a mão com um grande sorriso nos lábios. — Ryan Smith. — Tirou a mão do bolso do terno, retribuindo o cumprimento. Meu amigo e eu nos afastamos quando dona Marie foi apresentar o vizinho para a mãe e o pai do garoto comigo. — Nick, por que não me disse que ele era assim? Você mora ao lado de um deus e não havia me dito nada? — Olhava incrédulo nos meus olhos.  — Cala a boca, Caleb. Quer que meus pais nos ouçam? — Olhei para trás, a pauta da nossa conversa olhava para nós. — Por que não me disse que ele vinha também? — Não queria fazer alarde. Agora, onde estão os outros da nossa turma? — Você sabe que as garotas da classe vão pirar quando virem ele, não sabe? Tentei disfarçar a cara feia que o pensamento queria me fazer, não se fui tão efetivo quanto esperava. Na realidade, eu faria de tudo para conseguir ignorar todos os possíveis olhares que o outro vai receber. Ah, mas que bela ideia, a da minha mãe, de trazê-lo para cá. Sou egoísta o suficiente para pensar que ele é meu e somente eu posso olhá-lo. E nem mesmo temos um relacionamento. Depois de longos minutos de ambas as famílias conversando, finalmente resolveram que era hora de entrar na escola. O pavilhão de entrada estava todo decorado de modo a parabenizar os formandos; cheio de balões dourados e prateados, além de algumas faixas de congratulações pelos anos — esperam eles — muito bem aproveitados na escola para a universidade. Os assentos tomados pelos nossos pais, se localizam quatro fileiras à frente do centro. E logo após, nos acomodarmos, a professora Laura Peterson passou por nós. É uma excelente profissional e a Marie possui grande afeto por ela. Na verdade, quem não gosta dela? É doce, bonita, além de ótima professora. Quando minha mãe a chamou, pude escutá-la falando: “Deixe que eu te apresente o meu vizinho, ele é solteiro”, soltando um riso baixinho. Olhei com desgosto para a cena que estava acontecendo duas cadeiras depois de mim. Rolei os olhos e tentei me concentrar na conversa guiada pelo Caleb; a ansiedade é grande e a vontade de sair daqui o mais depressa possível é maior ainda. Depois do que minha mãe disse me sinto angustiado. Foi como uma constatação de que ele deve ficar com alguém que no mínimo já tenha feito uma faculdade e tenha um bom emprego. Não um recém-saído da adolescência que até poucos anos atrás não havia beijado nem uma boca sequer. Apenas acorde, pequeno Nick, ele é realmente um sonho bem distante. Inspirei fundo e cruzei os braços na frente do peito. Quanto antes essa tortura acabar, melhor. O Caleb não sabe que tenho esse sórdido desejo por meu querido vizinho. E se soubesse, provavelmente acharia loucura uma coisa dessas. Quem não pensaria dessa maneira? Pensando bem, até eu acho. A questão é que eu já havia comentado sobre essa beldade que mora ao lado, mas ele nunca havia tido a chance de ver com os próprios olhos. E às vezes o pego dando umas olhadas de soslaio para a cadeira do moreno, não posso dizer que não está me irritando. Muitos minutos antes da solenidade começar, todos os alunos foram convidados para ir para trás da cortina. Iríamos nos organizar em ordem alfabética para quando a cortina se levantar estarmos todos sentados na arquibancada em cima do palco e ao lado do púlpito. Além disso, há uma grande mesa para o coordenador da escola e alguns professores homenageados que escolhemos. Aqui nos bastidores está um alvoroço. Perdi toda a empolgação — que já não era muita — minutos atrás, quando ainda estava sentado lá embaixo. Ou será que foi quando estávamos no estacionamento? Não tenho certeza. Só sei que ela está perdida em algum lugar dessa escola. E não estou certo de que irei encontrá-la uma hora. — Vamos, melhora essa cara! — Caleb apertava minhas bochechas. — É a nossa formatura! Estamos livres de verdade agora! — Erguia os braços mais do que feliz. Por cima do seu ombro, vi a Alice Ford se aproximando. Seu sorriso cobria de uma orelha até a outra e segurando em seu braço estava Rachel Reynolds. Vi seu irmão, Paul, mais atrás falando com alguém que não dei muita importância. Meus olhos fizeram um giro de 360º para visualizar meu cérebro. Quando Caleb viu minhas feições, logo olhou para saber o que estava acontecendo. — Nick! Caleb! — Alice me abraçou primeiro, passando para o outro logo depois. Rachel veio em seguida. — Estou doida para o baile começar logo!  Os dois mais ansiosos começaram a conversar, Rachel e eu permanecemos calados. Isso até a morena cortar o silêncio. — Não está feliz? — Sua voz é baixa e tímida, quase não consigo escutar no meio de tanto barulho. — Feliz? Ah, estou. Só não muito confortável com todo esse barulho. O pessoal parece insano. — Isso é verdade, estão todos muito empolgados. Contando os minutos, a direção veio nos avisar que faltava pouco para o começo de tudo e por isso começamos a ser colocados na arquibancada, seguindo a ordem de uma lista pré-determinada. Por causa disso, acabei ficando ao lado de duas pessoas as quais não tenho nenhuma i********e. A ansiedade parece que chegou com tudo, pois geral ficou em silêncio. Meus ouvidos agradecem com a mais pura sinceridade. E não demorou para escutarmos a buzina, típica de quando estamos apresentando uma peça, soar. É o começo da solenidade; quando a cortina se levantou, ficamos de pé e acompanhamos a salva de palmas que soou do público. Admito que foi tudo muito bonito e divertido. O meu humor melhorou bastante; e cá estou eu, indo de encontro aos meus pais, Caleb me acompanha. Daqui seguiremos para o local do baile. — Foi tudo tão lindo, Nicky! — Marie me abraça. — Parabéns, querido. Cumprimentei os parentes do Caleb. E quando ia me aproximar do Ryan, escutei a Alice e a Rachel chegando perto. Sinto o coração vindo à boca. Inclusive, até minha mandíbula está tensa. — Foi tudo tão maravilhoso, não foi, dona Marie? — A garota mais franzina agarrou minha mãe, Rachel esperou que fosse a vez dela cumprimentá-la. Cruzei os braços na frente do peito, contava os segundos até o momento em que ela descobriria o moreno ali parado — ou até o momento em que minha matriarca vai apresentá-lo. Tenho certeza que minhas feições não são nada agradáveis. E a fatídica hora não demorou para chegar. — Esse aqui é o nosso vizinho, Ryan Smith. Ryan, essas são Alice Ford — foi apenas o que ouvi, pois virei de costas e tentei localizar qualquer pessoa que me tirasse desse ambiente. Quando vi os professores próximos ao palco, corri naquela direção. (...) Estamos finalmente a caminho do ginásio, onde vai acontecer a nossa festa. Todos conversam de forma alegre, enquanto que ainda tenho a cara meio emburrada, apesar de tentar responder as perguntas do Caleb da melhor forma possível. Quanto mais nos aproximamos mais podemos escutar a música soando, uma batida de balada bem alta. Quando entramos no ambiente já havia muita gente dançando, enquanto os pais estavam sentados em algumas mesas reservadas dispostas mais para o canto. Havia também um mini-bar com um bartender fazendo malabarismos com garrafas de bebidas nãoalcoólicas — a escola não permitiria, provavelmente apenas os pais têm direito a algo desse teor, apesar de que vejo um champanhe em cada mesa. Não é sempre que vemos algo assim, mas é uma ocasião especial, no final das contas. Estão todos muito animados dançando na pista, inclusive, até alguns professores se deixaram levar pelo momento de despedida. É engraçado ver os mais velhos deles balançando de maneira meio desengonçada, porém super empolgado. Quando encontramos a nossa mesa, foi a hora em que o Caleb se separou de nós. Indo com seus pais procurar onde deveriam se sentar. Mas era nítido no olhar do garoto que ele só queria se certificar de onde ficariam, porque seu desejo mesmo era já estar “sacudindo o esqueleto”. Ryan sentou-se ao meu lado, e agora percebo que não nos falamos desde que voltei dos bastidores. Foram tantas interrupções que não houve a chance. E o moreno que está sentado ao meu lado também não fez um movimento sequer em direção a mim. Há, engano dele se pensa que irei tomar o primeiro passo. Não depois de todas as ceninhas com as garotas e minha ex-professora. Sinto que torci o lábio. Por que parece que não irei me divertir? Rolo os olhos diante de meu pensamento. — Vamos brindar! — Minha mãe sugere empolgada. Minato também logo se anima para abrir a bebida em um estouro. Sacudindo a garrafa, nossas taças já em mãos, esperamos o loiro que se parece muito comigo — ou melhor, eu me pareço muito com ele fisicamente — termine o serviço de desenroscar a tira de metal que envolve a rolha. Quando chega o momento, uma breve contagem regressiva acontece. E no estouro, há algumas palmas e alvoroço de pessoas próximas. Até nós comemoramos naquele gesto automático de quando vemos a espuma. De cristais cheios, o brinde é feito com minha mãe gritando: “Ao Nick!”, todos acompanham, eu recito um “A mim”, ganhando alguns risos e sendo chamado de bobo. Meu pai coça meu cabelo. Toda a minha relação com a família é muito boa, porém, nesse exato momento, questiono como seria a reação de todos se descobrissem o teor das conversas que tenho com o vizinho mais velho quando o visito. Ou se soubesse da minha não tão pequena atração física e s****l por ele. A minha mãe entraria em estado de petrificação, assim como meu pai. Tudo bem aceitar a sexualidade do filho querido, mas uma relação dessas com um vizinho de idade tão avançada? Acho que aí já é pedir demais. Ou melhor, eu deveria ter certeza que é pedir demais. Estou pensando muito em questões de aceitação ou não das pessoas ao meu redor com um possível relacionamento futuro meu e do Ryan. Mesmo quando eu repito centenas de vezes que nosso envolvimento é apenas instigante e puramente direcionado ao sexo — caso chegasse a acontecer algo. Na verdade, nunca cheguei a pensar realmente como seria me relacionar a sério com alguém. Já tive alguns affairs na escola, inclusive fui pra cama com uns desses. Mas nada que eu dissesse ou me percebesse estar apaixonado o suficiente para me firmar em um relacionamento sério e duradouro E não sei se levo fé que essa pessoa é ele. Talvez, se um dia tiver a chance de ao menos beijá-lo, quem sabe descubra. Por enquanto, é somente especulação baseada no que acredito sentir. — Vamos até a mesa dos professores, certo, querido? — Fique à vontade, mãe. — Voltamos já. Sinto o corpo ficar tenso. Ficarei sozinho com ele nesse clima bem instável entre nós. Não que realmente esteja, é como parece estar. Tomei um grande gole de bebida quando os dois nos deixaram. — Você não vai dançar? — Seu sussurro veio em meu ouvido. Um comprido arrepio percorreu minha pele. — Não sei dançar — respondi. — Quer mesmo me fazer acreditar nisso? — Quando o encarei ele erguia uma sobrancelha. — Não, estou dizendo a verdade, critério seu o resto. — Dei de ombros. — Está de mau humor? — Sua voz veio acompanhada de graça. Tenho certeza  de que ele sabe o motivo. — Relaxe, pequeno. Curta sua formatura. — Estou bem aqui. — Cruzei os braços na frente do peito. — Conheci vários amigos seus hoje, sabia? — continuou. — E o quê? Devo te dar uma medalha de honra por isso, senhor Smith? — Calma, estou apenas tentando manter uma conversa agradável. — Levou a taça na boca. Olhava para mim pela borda. — Já que você nem mesmo se dá o trabalho. — Não estou muito no humor agora. — Pois deveria, há tanta gente bonita aqui. — E por que o senhor não vai se divertir com elas? Já que está insistindo tanto que eu o faça! — Meu tom saiu mais irritado do que planejei. — Não, não. Não fazem o meu tipo, sabe? — Rolei meus olhos. — Porém, se houvesse de escolher uma, escolheria aquela... Como se chama?! Rachel! Ela tem —  colocou as mãos em conchas na frente do tórax, deixando um grande espaço entre o terno e a mão — se é que me entende. — Lançou mais uma piscadela. Claro que ele iria lançar na mesa a carta coringa: Ciúmes. Mesmo que nós não desfrutemos de qualquer nível de relacionamento além do amigável, nossas provocações já delimitam uma linha do tipo posso não estar apaixonado, mas se você quiser, eu quero. Estava demorando para que ele mostrasse suas peças. E bastou que ficássemos a sós, lógico, para dar ainda mais poder ao seu movimento, usou uma mulher na jogada. Para dizer a verdade, eu não sei bem se o Ryan é gay. Quero dizer, não cem por cento. Nunca conversamos sobre esse quesito. Mas acredito que ele jogue nos dois times. Não que isso vá fazer alguma diferença para mim na hora dos amassos, mas talvez me deixe um pouco apreensivo em saber qual seria a sua principal escolha caso precisasse. Em uma festa, ficaria comigo ou escolheria uma mulher por ter mais atributos físicos? Estamos até o momento nos encarando, porque sou incapaz de formular uma frase como resposta para seu ataque. O primeiro ponto da partida, com certeza, é dele. Não... O segundo, okay, chegar de terno em minha porta foi o primeiro. Posso aguentar dois a zero. — Pois eu continuo escolhendo o Caleb. — Dei de ombros enquanto bebia o champanhe. Vejo seu olhar intenso em minha direção pela periférica. Não esperava por essa, não é mesmo? Seu riso baixo e contido foi o que me fez ter certeza de meu pensamento. — Bom, realmente muito bom. Não sei por quanto tempo ficamos a sós, mas claro que esse período não duraria para sempre. Não quando as garotas perceberam que quem estava na mesa com o Ryan era apenas eu. Hora de atacar livremente, afinal de contas, é o Nick. Passe livre. Alice e Rachel se aproximaram de forma animada, cada uma segurando um coquetel sem álcool. Sentaram de forma a me deixar no meio, a Alice ficou mais perto do Ryan. Depois de começar a conversar comigo, tratou de incluí-lo no assunto. Era óbvio que o faria. Rolei os olhos com sua atitude tão explícita e também preferi me abster de continuar no papo. A Rachel até tentou, porém vendo minha pouca participação, voltou-se para a amiga e o moreno. Cheguei a escutá-la perguntando se o mais velho não gostaria de ir dançar. Sua risada rouca enquanto negava me causou alguns arrepios em lugares indevidos. Tomei mais um pouco do champanhe para acalmar as veias de meu corpo — além de também ter feito para tentar ignorar o flerte barato que a outra estava jogando para cima do homem. Te falta vergonha na cara, Alice! Se em algum momento dessa festa eu desejei estar com a mesa vazia, atualmente estou implorando para que meus pais voltem e acabem com essa palhaçada. Mas infelizmente não somos dotados de poderes telepáticos — nem de assassinato via psiquismo. Eu realmente não estava mais me divertindo, e tudo que desejo agora é ir para casa. O suspiro que deixei sair dos lábios deve conter todos os meus sentimentos do momento. De onde estou, consigo ver a cabeleira ruiva de minha mãe conversando na mesa dos professores. Não fico nem um pouco inseguro sabendo que estão lá, provavelmente devem ter iniciado a conversa falando de mim, sempre fui bom aluno, não há o que reclamar. Talvez de uma ou duas notas não tão boas em matérias que exijam números, mas nada que passe disso. — Não está se divertindo? — Senti alguns dedos em meus cabelos, ao olhar para o lado, vi o Ryan mais perto, olhei ao redor procurando as garotas, estavam acompanhadas de mais dois formandos. — Aqueles garotões vieram aqui chamá-las para dançar. — Ah, claro. — Isso não responde a minha pergunta — insistiu. — Não, não estou me divertindo tanto quanto todo mundo aqui. — E por que não? É o seu último dia na escola regular. — Eu sei. Não aguento mais todos me dizendo isso. Mas eu preferia estar comemorando com meus pais, em um lugar mais reservado. — Não iria me convidar? — Ergueu a sobrancelha. — A minha mãe faria isso, relaxa. — Acompanhei sua risada. — A sua mãe, não você. — Bebeu da bebida nova em sua mão, havia pedido algo colorido para o garçom trazer. — Posso experimentar? — Eu ia reclamar sobre a sua idade, mas então lembrei que não é tão jovem assim como parece. — Rolei os olhos para sua afirmação, pegando o copo de sua mão. Tinha um gosto doce, porém o álcool era sentido em grande parte da língua. É algo que eu beberia por mim mesmo. — E então? — Não é r**m. Já que sabe que eu não sou tão jovem quanto pareço, poderia parar de ser tão cauteloso. É claro que ele entendeu sobre o que estou falando. A frase saiu como de costume, porque não sei se estou realmente no clima de começar a flertar com ele do nosso jeito descarado de fazê-lo. — Nem tudo é assim tão simples. — Ajustou melhor a postura na cadeira, mas seus olhos ainda estavam com intensidade sobre o meu, sinto o coração bater tão forte na expectativa de sua frase seguinte. — A verdade é — ele calou-se de repente. — Estamos de volta — Minato anunciou atrás de mim. Quando eles chegaram até aqui? Já é a segunda vez que tenho esse breve colapso. Espero que a decepção não esteja estampada em meu rosto. A conversa estava indo para um lado muito bom para não ser interrompida por qualquer pessoa que seja. E para o meu pesadelo continuar, a Laura estava com eles. Mãe!
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