Quando foi a hora de ir embora, minha mãe nos mandou na frente — meu pai, e padrinho. Laura, Ryan e ela ainda permaneceram na festa, surgindo alguns minutos depois, apenas a ruiva. Quando questionei sobre o Ryan, a resposta não me deixou mais feliz: Se ele não chegar em dez minutos, podemos dar partida no carro.
Recostei a cabeça no encosto, contava o tempo que passava em minha mente, na esperança de que ou passasse devagar ou corresse para que eu o visse passando por entre as portas de entrada. Mãe!
Não sei se posso culpá-la por isso. A culpa é toda minha por me deixar entrar e envolver nesse jogo de sedução que não vai para canto nenhum. Apenas o da minha frustração. O Ryan só está se divertindo, é óbvio. Eu sou apenas cego o suficiente para acreditar que ele também me deseja e está apenas com receio de tomar alguma atitude.
Mesmo quando o vi, não sabia qual o sentimento que estava se passando em meu peito. Afastei um pouco da porta, deixando que ele entrasse e se acomodasse. Nem mesmo o encarei. A Marie começou perguntando o que havia acontecido para ele voltar tão cedo, não dei qualquer atenção para a explicação que o mais velho deu. Só quero estar em casa o quanto antes.
Já no meu quarto, o banho que tomei foi mais do que bem-vindo. Não respondi ao moreno direito quando este estava indo embora, e espero muito que minha família não tenha percebido esse distanciamento. Se houver qualquer questionamento, vou dizer que foi culpa do cansaço que a única coisa que eu queria era minha cama — não seria de todo uma mentira. Ainda direi que posso pedir desculpas se assim eles quiserem.
Levei bastante tempo dentro do banheiro. E ao sair, fui direto para debaixo das cobertas.
No dia seguinte, acordei durante o almoço. Na mesa, estavam as mesmas pessoas que prestigiaram a formatura — exceto pelo Ryan. Mas também não teria sido surpresa se minha mãe o convidasse.
Durante todo o resto da semana, não contatei o querido vizinho. Ainda me sentia chateado pelos acontecimentos, mesmo sabendo que ele não tem quase nenhuma culpa. Quase. Afinal de contas, ainda aceitou ficar lá com ela depois que meus pais já estavam indo embora. Sei que uma hora ou outra vamos nos falar novamente, porém, por agora, prefiro que não haja nenhuma aproximação. E que a minha mãe não invente de fazer nada para ele. A culpada por nossos encontros quase sempre é ela.
Estou pensando em passar um tempo com o Caleb. Sair dos arredores de minha moradia, respirar novos ares, e quem sabe até mesmo conhecer novas pessoas. Vai que uma delas acaba me fazendo esquecer o Smith — ou pelo menos fazendo com que eu pense menos nele. Já seria um grande avanço. Eu deveria mesmo ir. Parece a melhor das ideias que tenho por agora.
Enviei mensagem para ele perguntando se poderia ir na sexta. O retorno de confirmação veio poucos minutos depois. Desci correndo as escadas procurando pela minha mãe.
— Para onde vai com tanta pressa?
— Posso dormir na casa do Caleb no final de semana?
— Claro. Faz tempo que vocês não passam uns dias juntos, não é? — Terminava de lavar a louça. — Espere seu pai chegar e o avise.
— Obrigada, mãezinha. — Beijei sua bochecha, voltando para o quarto na mesma velocidade que sai dele.
Sabendo que não teria problemas com meu pai, comecei a arrumar uma mochila para a pequena mudança. Já começando a fazer planos com o Caleb de sair sábado à noite para qualquer lugar.
Quando a noite caiu, e o outro loiro da casa chegou, fui liberado sobre o último questionamento sobre poder ou não passar essas noites na casa do meu amigo; meus pais conhecem os pais do Caleb desde a época em que fui matriculado na escola a qual me formei.
No momento em que mais desejei que a semana passasse rápido, obviamente foi quando ela passou mais devagar. Não senti tanto essa lentidão por ser terça-feira quando pedi a minha permissão, apenas a ansiedade colaborou para que eu desejasse mais velocidade nos ponteiros. E quando finalmente foi o momento, dei uma breve olhada mais fixa na casa do Ryan antes de entrar no carro e partir.
— O Caleb não parou de falar sobre isso a semana inteira — Hana, mãe do Caleb, apontou.
— Mãe! — Ele rolou os olhos.
— É verdade.
— Faz tanto tempo que o Nick não dorme comigo. Apenas fiquei empolgado com a ideia.
A casa dos Jones fica a cerca de trinta minutos de distância da minha, isso se o trânsito estiver livre. E como a Hana é meio louca, seu pé parece estar sempre sobre o acelerador.
Logo quando chegamos na porta, já era possível escutar o ganido do Brutos, além dos arranhões contra a base da madeira. E quando a tranca foi desfeita, aquela massa de pêlos brancos voou para fora balançando a cauda. O cachorro nos acompanhou até o quarto, ainda rebolando em felicidade. Sentei no chão, recostado na cama para fazer um pouco de carinho no animal.
— Vamos sair amanhã, tudo certo?
— Sim. Para onde? — Deixei minha mochila ao meu lado.
— Um bar dance que tem perto do centro. É muito bom. Você vai gostar.
— Confio em você.
O que o Ryan não sabe é que o Caleb já tem um olho — os dois — em alguém. E esse alguém com certeza não sou eu. Mas não vem ao caso agora. O assunto virá à tona quando formos dormir.
Passamos o resto da tarde jogando vídeo game. Estou pensando se devo contar o que quero quando sairmos amanhã. Talvez quando o assunto da paixão do Caleb surgir, eu possa pedir alguma opinião. Talvez. Não sei se me sinto seguro em falar algo mesmo que ele seja o que posso chamar de melhor amigo.
— O que foi? — perguntou. — Você está me encarando.
— Estava pensando, nada que seja interessante. — Dei de ombros.
— Sei. — Ergueu a sobrancelha. — Como vai o seu belo deus vizinho?
— Deve estar bem. Não nos falamos desde a minha formatura.
— Como você pode não falar com alguém como ele a cada cinco minutos?
— Nem todo mundo é Alice no mundo. — Rolei os olhos. O outro deitou no chão no acesso de risadas que teve.
— E enquanto a Rachel? Nunca pensou em dar uma chance?
“Porém, se houvesse de escolher uma, escolheria aquela... Como se chama?! Rachel!” Preciso lembrar disso logo agora?
— Não. — Talvez a minha resposta tenha sido um pouco ríspida demais. — Ela não faz o meu tipo, você sabe disso — completei para não parecer tão grosso.
— Estou zoando, cara. Já que entramos nesse assunto. — Deixou o controle de lado, senti o velho frio na barriga. — Você nunca sentiu nenhuma coisinha por ele?
— O que está dizendo? Ficou louco? Ele tem quase trinta anos.
— E daí? Vai dizer que não ficou com vontade de conhecer a experiência dele. Nem sempre a gente manda no menino lá de baixo.
— Você é maluco. — Deus, se você soubesse as coisas que já pensei envolvendo nós dois. Se soubesse o que já o escutei me dizer.
— Não sou, não.
— Por que não vai pedir ao Lucas para dar um jeito nesse seu fogo?! — O outro calou-se, quando o encarei suas bochechas estavam vermelhas.
— Golpe baixo.
— Não. Na altura certa.
— AH! — Deitou de braços abertos. Um grande bico nos lábios.
Não vou mentir que estou bastante ansioso para o dia seguinte. Somente a ideia de sair e conhecer novas pessoas já me deixa agitado. E continuo com o mesmo pensamento que me trouxe até aqui. Se ela conseguir fazer com que eu não pense tanto no Ryan por algumas horas, já é um avanço maior do que fiz desde a formatura.
Desde aquele dia, vivo tentando imaginar o que fizeram quando estavam sozinhos lá dentro do colégio — não sozinhos, mas sem a grande massa de gente pelos arredores. Estou sempre pensando que talvez eles estejam se comunicando por algum meio. Que talvez já tenham marcado de se encontrar na mesma semana. Já se passaram diversas possibilidades em minha cabeça e, sinceramente, não gosto de nenhuma delas.
Passar a tarde com o Caleb me fez espairecer um pouco mais a mente. Mesmo que eu não pense em meu amigo de maneira s****l, ele conseguiu o feito que venho tentando por esses dias. Sempre me divirto quando estamos juntos, e hoje não foi diferente.
Espero muito que o Ryan fique sabendo na casa de quem estou. Ou que tenha me visto sair no carro de sua família ou, quem sabe, quando eu estiver voltando. Gosto disso, é um pouquinho do próprio veneno que ele me fez beber.
Por volta das oito da noite, do dia seguinte, já estávamos nos arrumando para o grande momento. Seus pais deram dinheiro para o táxi e nos aconselharam a não beber muito — deixamos claro que a nossa maior intenção era dançar. Gosto muito do estilo liberal dos meus ‘tios’. Me faz sentir isento de culpa em estar saindo quando não tenho a permissão direta dos meus paternos.
A caminho do local, o outro já estava em completo ritmo de festa. Não vou mentir que ainda preciso pegar o espírito da coisa. Não é do meu costume ir para lugares assim. E quando o faço é justamente com a pessoa que se encontra ao meu lado.
Pelo horário, o caminho que percorremos estava completamente livre, não demoramos nem metade do que eu esperava demorar. Já havia passado pela frente desse bar diversas vezes, porém, com suas portas fechadas, já que não funciona pela manhã/tarde. O Caleb é a personificação da felicidade. Até compreendo o porquê, faz muito tempo desde a última vez que saímos juntos. Da última vez em que nos encontramos foi para pôr a cara nos livros.
Sentamos em qualquer mesa vazia. Mesmo pelo horário já havia bastante gente na pista de dança. E rondando os olhos pelo ambiente ainda não vi ninguém que me fizesse sentir algo. Calma, Nick, você acabou de chegar. Quanto mais ânsia eu tiver, menos chance terei. O carma é uma v***a, sabemos disso. Sendo assim, vou tentar curtir o local sem me preocupar muito com a premissa de encontrar alguém. Como ainda não vamos para o meio deles, jogar conversa fora por aqui parece bom. E para começar a noite, pedimos um drinque.
O moreno comigo estava e******o para ir logo chacoalhar as cadeiras em meio às músicas que rolavam, e o deixei tomar as rédeas da situação. Bebendo o último gole da bebida para o acompanhar. Não sou muito de dançar, e tomar algo me faz ficar mais confiante.
O outro remexe com os braços lá no alto, jogando o quadril para os lados no ritmo da música agitada. Tem um grande e bonito sorriso no rosto. Estou tentando seguir seu estilo, porém ainda estou um pouco inibido. Quando o garçom passou por perto, não pensei duas vezes antes de pegar mais um novo copo para me ajudar.
Em uma das idas e vindas de meu corpo, percebi o olhar de alguém ao longe. O vi levantar uma taça em minha direção como forma de apreciação, meu sorriso foi a retribuição que pude dar. Não comentei nada com o garoto que me acompanha, tenho certeza que o que não iria faltar seriam seus empurrões para que eu me aproximasse do rapaz. Preferi continuar nesse pequeno e simples flerte à distância. Começar assim é muito mais legal do que partir logo para o vamos ver.
Ficamos nesse joguinho divertido durante algum tempo. Até que o vi levantar e meu coração disparou. Enquanto caminhava percebi ser mais ou menos da altura do Ryan; os cabelos loiros presos em um r**o de cavalo alto, o andar elegante. Arrumou o sobretudo n***o quando foi chegando mais perto, passou a língua nos lábios, agarrando-me pela cintura. Percebi sua intenção de me beijar, por isso pus o dedo entre nós. Joguei os braços por cima de seus ombros, olhando em seus olhos de mesmas cores que os meus.
— Como se chama? — sussurrei em seu ouvido.
— Will.
— Prazer, Will. Nick. — Mordi de leve seu lóbulo.
Olhando no horizonte da pista de dança, a porta estava sendo aberta para mais alguém entrar, houve um bambear de minhas pernas quando focalizei quem era. Algumas pessoas passavam em frente ao meu olhar. Mas tive certeza de que aquele era o Ryan e seu irmão, Nathan. Isso é sério? Aqui? Logo hoje?!
— Vou pegar mais uma taça de vinho. Deseja algo? — Ainda falava rente ao meu ouvido, seu corpo estava colado ao meu.
— Qualquer coisa.
— Volto logo. — Beijou o canto dos meus lábios.
Caleb não perdeu tempo de vir até mim.
— Parece que alguém já arranjou diversão.
— Eu vi o Ryan! — falei entre dentes. — E o irmão dele. — Eu esticava meu pescoço para tentar localizar os dois morenos.
— Como? O seu vizinho?
— É!
— E o que tem? Vai deixar de aproveitar por causa disso?
Claro! i****a! Ele não sabe! E não há um jeito ao qual eu possa explicar sem dar na telha sobre a tensão pélvica que existe entre nós. E aqui também não é o local ideal para abrir o jogo sobre isso, vamos combinar.
— Aproveite seu partidão loiro e divirta-se. — Jogou os braços para cima, como se estivesse me ensinando a aproveitar o clima de dança e felicidade. Mas tudo o que havia em vi era apenas uma coisa: apreensão.
Porém, com o passar dos segundos, a mente antes nublada foi clareando. Já que o Ryan usou da carta mágica do ciúmes, por que eu não posso também usar do meu coringa? Farei com que ele venha até mim antes de irmos para casa. O que eu não sabia ainda é que tanto ficaria feliz quanto me arrependeria desse pensamento mais tarde.
Apesar de ter bolado o plano, não sei muito bem como irei reagir caso dê certo. Afinal, não nos falamos desde a formatura. Talvez eu fique um pouco sem graça, mas nada que não dê para disfarçar.
Avistei o Will em meio à pequena multidão aglomerada. Segurava dois copos, me oferecendo o com um líquido amarelo. Agradeci, mas não bebi. Sou desconfiado o bastante para não fazê-lo e por isso continuei dançando com aquilo na mão. Após beber todo o líquido que lhe pertencia, ele chegou mais perto, tomando um pouco do meu, e me devolvendo, como uma prova de que estava tudo bem. Sorri curto diante de sua ação.
Tive minha cintura circulada, o quadril dele se lançava contra o meu enquanto mordia o lábio inferior. Recusei novamente sua tentativa de beijo.
— Não vai mesmo deixar que eu te beije?
— Você tem muita pressa. — Abracei seu pescoço, olhando para o horizonte, procurei pelo Ryan. Encontrando-o à minha direita, permaneci a encarar aquela direção até ser avistado pelo moreno. O que não levou muito tempo para acontecer depois que seus olhos correram por todo o bar.
Notei que sua testa se franziu ao constatar com certeza quem estava encarando. Enfiei meus dedos nos cabelos do homem comigo e deixei que ele beijasse meu pescoço. Ainda mantendo o olhar colado ao do meu vizinho, mesmo que este fosse interrompido várias vezes pelas pessoas que dançavam. E por hora, ele desviou quando o irmão chamou.
Girei com o loiro comigo, ficando desta vez de frente para sua mesa. Deixei o copo pela metade na bandeja de outro garçom que passou. Comecei a rebolar contra o homem atrás de mim. Suas mãos em meu quadril, guiando os movimentos e apenas sentindo-os também. O Ryan já havia voltado sua atenção para cá. Bebia, aparentemente, o mesmo do que o Will havia me dado.
Vou virar e beijar o Will quando for o momento exato. Mantive esse pensamento durante toda a provocação. Vez ou outra seus olhos viajavam pelo ambiente, talvez para não dar na telha para o irmão, mas estava sendo ótimo ver suas caras e bocas enquanto acompanhava todo o meu remelexo contra o corpo do homem atrás de mim. Quero deixá-lo tão no limite quanto me deixou em relação a Laura. Mesmo que eu saiba que estou pegando um pouco mais pesado. Afinal de contas, não vi nada do que supostamente rolou entre eles.
— Vou ao banheiro. Estarei de volta em um minuto — falei com o rapaz.
Procurei pelo cômodo, achando apenas quando vi uma plaquinha indicando a direção; após ir em uma das cabines fechadas, me certifiquei da minha aparência. Apesar do suor, nada está tão r**m. Dá pra levar mais umas boas horas desse jeito. Inspirei fundo, e segui de volta.
Não tive muito tempo para pensar no que fazer, fui tomado pelo cotovelo e puxado contra o peito do Will. A mão que me puxou, descansou acima de minha b***a. A outra segurava meu queixo. Tentei me afastar um pouco, sua aproximação era lenta. Eu não conseguiria me livrar daquilo sem fazer um movimento agressivo para cima dele, então acabei por ceder. Seu olhar parecia satisfeito.
— Chega dessa palhaçada — falou rudemente alguém que se aproximou.