Duas semanas se passaram desde a noite em que Henri confessou tudo.
Natasha não o viu mais desde então. Não por falta de tentativas dele — mas porque ela precisava de tempo. Tempo para absorver, sentir, e principalmente: procurar por si mesma.
Ela agora sabia que havia sido poupada da verdade.
Mas o que mais lhe doía... era saber que todo mundo estava envolvido.
— O hospital. — sussurrou diante do espelho, ainda de pijama. — É lá que tudo começa.
Naquela manhã, Natasha pegou um táxi sem avisar ninguém. Foi ao hospital onde ficou internada após o acidente — o mesmo hospital do qual se lembrava apenas em fragmentos frios, de teto branco e cheiro de álcool.
Na recepção, pediu acesso ao próprio prontuário.
— Senhorita, só com autorização dos pais ou com uma ordem judicial. — informou a atendente.
Mas Natasha insistiu.
— Eu sou maior de idade. E sou a paciente. Por favor, só quero respostas.
A mulher hesitou, mas ao ver o rosto tenso e os olhos marejados da jovem, cedeu.
— Espere um minuto.
Quinze minutos depois, Natasha estava sentada em uma pequena sala de arquivo, com uma cópia do prontuário em mãos.
As anotações médicas eram extensas. Diárias. Frias.
Mas entre elas, alguns detalhes chamaram atenção:
“Paciente chegou desacordada, com fratura na coluna. Hematomas compatíveis com impacto lateral.”
“Presença de outra vítima masculina — removida antes da chegada da ambulância.”
“Paciente apresentou respostas cerebrais após 10 meses.”
“Retirada da ventilação assistida suspensa por intervenção do responsável legal.”
Natasha arregalou os olhos.
— Outra vítima...?
Seu coração disparou.
Ela pegou o documento e leu de novo.
“Vítima masculina... sem identificação.”
— Henri?
A pergunta saiu num fio de voz. Mas algo dentro dela dizia que sim.
— Por que ninguém me contou isso...?
Continuando a leitura, ela encontrou um nome anotado à mão, em letras pequenas no rodapé de uma página.
“Dr. Maison (psicologia de traumas) – recomendou bloqueio emocional para contenção do colapso neurológico.”
Ela reconheceu o nome. Era o médico que a acompanhava até hoje.
— Eles não apagaram só minha memória... Eles esconderam quem estava comigo.
No caminho de volta, o mundo parecia mais cinza.
No bolso, o colar de girassol. No peito, o coração pulsando perguntas.
Chegando em casa, ela encontrou TaeHyung no sofá. Ele sorriu.
— Onde você esteve?
— Buscando respostas. — respondeu.
— E encontrou?
Ela apenas assentiu.
— Tae... no dia do meu acidente, havia alguém comigo no carro. Um homem. O hospital registrou isso. Você sabia?
O sorriso do irmão se apagou.
— Natasha...
— Me diz a verdade. Era o Henri, não era?
TaeHyung não disse nada.
E esse silêncio foi tudo o que ela precisava.