Naquela noite, Natasha não conseguiu dormir.
As palavras do hospital, os documentos, o silêncio do irmão — tudo girava como um redemoinho em sua mente.
Ela precisava de algo concreto. Algo que não fosse apenas lembrança, ou silêncio, ou negação.
Algo que confirmasse, por fim, que Henri existiu — e que a amava.
Sem pensar duas vezes, subiu ao sótão da casa.
A caixa de infância permanecia no mesmo canto, coberta por panos antigos. Ali havia fotos, cadernos, fitas VHS e bilhetes guardados por sua mãe com carinho.
Mas um envelope chamou atenção.
Era azul claro, amarrado com uma fita simples. Dentro dele, outras pequenas cartas — todas datadas, todas dobradas com precisão.
No canto superior, uma caligrafia que fez o coração dela parar:
“Para Naylee — o nome que só eu uso, porque só eu sei o quanto ele te ilumina.”
As mãos de Natasha tremeram.
Ela abriu a primeira carta.
Carta 1 – 20 de Março (5 anos atrás)
“Nay,
Hoje vi você sorrindo no ensaio e pensei: será que você sabe o efeito que tem no mundo? Eu queria te dizer isso, mas meu coração é covarde quando você está por perto.
Talvez por isso eu escreva tanto — para não esquecer quem você é.
Se algum dia algo acontecer, quero que você leia isso e saiba:
Você é minha melhor lembrança, mesmo nos dias ruins.
Com amor,
Henri.”
A respiração de Natasha falhou. Ela sentou no chão do sótão, lágrimas escorrendo sem que ela percebesse.
Abriu a segunda carta.
Carta 2 – 3 de Abril
“Você cantou pra mim hoje. Não sei se percebeu o que fez. Aquela música... ‘You are my sunshine’. Eu tentei disfarçar, mas quase chorei.
Prometi a mim mesmo que vou te proteger. Até de mim, se for preciso.
Com fé e cuidado,
Henri.”
A terceira carta era mais curta. Mais densa.
Carta 3 – 25 de Maio
“Se eu sumir.
Se um dia você acordar e eu não estiver lá.
Se ninguém quiser te contar o motivo…
Saiba que não foi minha escolha.
E mesmo assim, mesmo distante, estarei onde prometi:
Do seu lado.
Antes que você me esqueça.
H.”
Natasha apertou as cartas contra o peito.
O mundo parecia gritar em silêncio ao redor dela. Nada, nem ninguém, poderia mais convencê-la de que tudo aquilo era imaginação.
Ele existiu.
Ele a amou.
E ele foi tirado.
No quarto, ela colocou as cartas dentro do diário, agora cheio demais para fechar direito. Prendeu o colar de girassol no pulso, como uma âncora.
Respirou fundo.
— Chega de perguntas sem resposta.
Pegou o celular. Enviou uma única mensagem para Henri:
"Precisamos conversar. Amanhã. No lugar do nosso último verão."