A campainha soou duas vezes, e antes que Natasha pudesse levantar do sofá, TaeHyung já estava abrindo a porta.
— Bryan... — disse o irmão, com um tom neutro e o olhar desconfiado.
— Oi, Tae. Natasha está?
— Ela não está muito bem hoje.
— Mesmo assim, quero vê-la. — insistiu.
Antes que Tae pudesse responder, Natasha surgiu no corredor, de moletom e cabelo preso de qualquer jeito. Seus olhos estavam inchados do choro após o surto na D.O.L, mas ela forçou um sorriso.
— Pode deixar, Tae. Eu falo com ele.
TaeHyung lançou um último olhar a Bryan e entrou para a cozinha.
— Você parece abatida. — Bryan comentou ao entrar.
— É, foi um dia difícil.
Ele se sentou ao lado dela no sofá, sem pedir. Natasha se encolheu levemente.
— Fiquei sabendo que você teve um surto hoje na empresa... foi por causa daquela música?
Ela hesitou, mas respondeu:
— Sim. Eu... eu lembrei de algo. Fragmentos, sonhos, sensações.
Bryan franziu o cenho, tentando manter o tom calmo.
— E... você acha que são memórias reais?
— Acho que sim. — respondeu. — Tem sido constante. E tem a ver com o colar, com o diário, com o...
Ela parou.
— Com o quê? — ele insistiu.
Natasha engoliu seco.
— Com o Enrique. Acho que... ele pode estar ligado a isso tudo.
O silêncio que se seguiu foi espesso. Bryan se levantou devagar, indo até a janela.
— Você não acha que está se apegando demais a alguém que acabou de conhecer?
— Não é isso. Eu sinto... como se já o conhecesse. É difícil de explicar.
Ele se virou, agora com uma expressão endurecida.
— Natasha, você precisa tomar cuidado. Eu andei pesquisando esse tal de Enrique. Você sabia que não existe nenhum registro dele antes de cinco anos atrás? Nenhum. Nem escola, nem empresa, nem país de origem. Nada.
Ela o olhou, surpresa.
— Como assim?
— Ele pode ser um farsante. Um aproveitador. Você não lembra de nada, e qualquer um poderia fingir ser alguém importante do seu passado.
As palavras de Bryan eram venenosas, plantadas com cuidado.
— Bryan, por que está dizendo isso agora?
— Porque eu te amo. — disse ele, se aproximando. — E porque não quero te perder para alguém que pode estar mentindo para você.
Natasha se afastou um passo.
— Você nunca se importou com o meu passado. Por que agora?
— Porque você está se afastando de mim por causa de uma fantasia!
— Não é fantasia, é algo que meu coração sente! E você... você está me pressionando. Eu não preciso disso agora.
A tensão se elevou.
Bryan respirou fundo, tentando recuperar o controle.
— Desculpa. Eu só estou com medo de te perder.
— Então para de agir como se já tivesse me perdido. — respondeu Natasha, com firmeza.
Mais tarde, sozinha em seu quarto, ela pensava em tudo.
O surto.
A música.
Bryan.
E Enrique.
Ela abriu o diário novamente e olhou a última página.
"Antes que eu te esqueça."
E, sem perceber, sussurrou:
— Será que eu já te esqueci... ou será que você nunca saiu de mim?