Na tarde seguinte, Natasha retornou à D.O.L para visitar os Juniores — os alunos que antes eram sua paixão e que, hoje, a olhavam com admiração contida. Alguns ainda se lembravam dela antes do acidente; outros apenas a conheciam como “a filha do presidente”.
Ela sorriu com carinho enquanto entrava na sala de ensaio, observando os jovens fazendo alongamentos, vocalizações e brincadeiras.
Mas, dentro dela, algo ainda pulsava. O colar estava em sua bolsa. O diário, guardado a sete chaves.
— Senhorita Natasha, quer ver o ensaio da nova coreografia? — perguntou uma das alunas.
— Claro. Adoraria.
Natasha se sentou no canto da sala, próxima ao velho piano que raramente era usado — mas que ela mesma costumava tocar para os alunos em tempos que não se lembrava mais.
— Podemos usar o instrumental que ensaiamos com você antes? A música ficou na playlist da sala. — disse uma outra garota, animada.
— Sim. Podem começar.
O som ecoou.
Os primeiros acordes tocaram como uma flecha silenciosa: notas suaves, simples, acompanhadas por um piano familiar.
"You are my sunshine, my only sunshine..."
Os corpos dos alunos se movimentavam com leveza e graça. Mas Natasha congelou.
Uma lembrança crua atravessou sua mente como um raio.
Um campo dourado.
O céu aberto.
Henri — ou alguém que parecia com Enrique — tocando piano.
Ela, sentada ao seu lado, rindo, enquanto ele cantava baixinho aquela mesma música.
"You make me happy when skies are gray..."
O coração de Natasha disparou.
Ela tentou se levantar, mas as pernas falharam.
As imagens se intensificavam: mãos entrelaçadas, um beijo tímido, a frase escrita em um guardanapo com uma caligrafia leve:
“Sempre que você ouvir essa música… lembre de mim.”
— N-Natasha? — perguntou uma das alunas, preocupada.
Natasha se levantou de supetão, cambaleando para trás. Uma onda de pânico subiu como um incêndio em seu peito.
— Desliguem! Desliguem a música! — ela gritou, tapando os ouvidos.
As luzes da sala pareceram ofuscar. As vozes ao redor ficaram distorcidas.
Ela saiu correndo pela porta, tropeçando no corredor, apoiando-se na parede como se o chão girasse sob seus pés.
Foi ali, naquele instante, que a voz voltou.
"Você prometeu não me esquecer. Antes que tudo se apagasse."
Mais tarde, já sentada na enfermaria da D.O.L, com um copo de água nas mãos, Natasha tentava explicar.
— Não era só uma música. Era uma memória. Eu... eu me vi ali. Com alguém. E... e eu estava feliz. Muito feliz.
Amy, ao seu lado, segurava sua mão com força.
— Você vai lembrar. Aos poucos. Seu coração já começou.
— Amy... e se for ele? O tal “H” do diário?
Amy hesitou. Olhou para ela nos olhos.
— E se for... o Enrique?
O silêncio que se seguiu foi pesado. E verdadeiro.
Natasha não respondeu.
Porque, no fundo, pela primeira vez... ela achava que talvez fosse.