Fragmentos na Voz

488 Words
Na tarde seguinte, Natasha retornou à D.O.L para visitar os Juniores — os alunos que antes eram sua paixão e que, hoje, a olhavam com admiração contida. Alguns ainda se lembravam dela antes do acidente; outros apenas a conheciam como “a filha do presidente”. Ela sorriu com carinho enquanto entrava na sala de ensaio, observando os jovens fazendo alongamentos, vocalizações e brincadeiras. Mas, dentro dela, algo ainda pulsava. O colar estava em sua bolsa. O diário, guardado a sete chaves. — Senhorita Natasha, quer ver o ensaio da nova coreografia? — perguntou uma das alunas. — Claro. Adoraria. Natasha se sentou no canto da sala, próxima ao velho piano que raramente era usado — mas que ela mesma costumava tocar para os alunos em tempos que não se lembrava mais. — Podemos usar o instrumental que ensaiamos com você antes? A música ficou na playlist da sala. — disse uma outra garota, animada. — Sim. Podem começar. O som ecoou. Os primeiros acordes tocaram como uma flecha silenciosa: notas suaves, simples, acompanhadas por um piano familiar. "You are my sunshine, my only sunshine..." Os corpos dos alunos se movimentavam com leveza e graça. Mas Natasha congelou. Uma lembrança crua atravessou sua mente como um raio. Um campo dourado. O céu aberto. Henri — ou alguém que parecia com Enrique — tocando piano. Ela, sentada ao seu lado, rindo, enquanto ele cantava baixinho aquela mesma música. "You make me happy when skies are gray..." O coração de Natasha disparou. Ela tentou se levantar, mas as pernas falharam. As imagens se intensificavam: mãos entrelaçadas, um beijo tímido, a frase escrita em um guardanapo com uma caligrafia leve: “Sempre que você ouvir essa música… lembre de mim.” — N-Natasha? — perguntou uma das alunas, preocupada. Natasha se levantou de supetão, cambaleando para trás. Uma onda de pânico subiu como um incêndio em seu peito. — Desliguem! Desliguem a música! — ela gritou, tapando os ouvidos. As luzes da sala pareceram ofuscar. As vozes ao redor ficaram distorcidas. Ela saiu correndo pela porta, tropeçando no corredor, apoiando-se na parede como se o chão girasse sob seus pés. Foi ali, naquele instante, que a voz voltou. "Você prometeu não me esquecer. Antes que tudo se apagasse." Mais tarde, já sentada na enfermaria da D.O.L, com um copo de água nas mãos, Natasha tentava explicar. — Não era só uma música. Era uma memória. Eu... eu me vi ali. Com alguém. E... e eu estava feliz. Muito feliz. Amy, ao seu lado, segurava sua mão com força. — Você vai lembrar. Aos poucos. Seu coração já começou. — Amy... e se for ele? O tal “H” do diário? Amy hesitou. Olhou para ela nos olhos. — E se for... o Enrique? O silêncio que se seguiu foi pesado. E verdadeiro. Natasha não respondeu. Porque, no fundo, pela primeira vez... ela achava que talvez fosse.
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