O final da tarde caiu como um cobertor silencioso sobre a casa dos Ferraz. Após a intensa entrevista e o estranho reencontro no jardim da D.O.L, Natasha sentia como se tivesse passado por uma batalha invisível.
Tomava um chá morno no sofá da sala de estar quando Amy chegou, como sempre fazendo barulho demais para uma casa tão calma.
— Natasha! Amiga, você foi perfeita na entrevista. Eu chorei. De verdade. — Amy jogou-se ao lado dela, abraçando-a com força.
— Obrigada... mas eu ainda me sinto como se estivesse sendo puxada por algo que não entendo. — Natasha respondeu, olhando fixamente para a xícara.
— Isso é chamado de pressão emocional com um toque de amnésia... e talvez de romance reprimido.
Natasha lançou um olhar de reprovação misturado com riso.
— Não começa, Amy. Eu m*l consigo dormir sem sonhar com rostos que não lembro.
Amy se ajeitou no sofá, agora com uma expressão mais séria.
— Talvez você devesse ver isso.
Ela puxou da bolsa um objeto envolto num pano branco e cuidadosamente o colocou no colo de Natasha.
— O que é isso?
— Achei entre umas caixas antigas na sua antiga sala de ensaio na D.O.L. Tava escondido atrás de um espelho de corpo. Acho que era importante.
Natasha desdobrou o pano com cuidado. Dentro, havia um diário de capa preta, surrado nas pontas, com o nome “N.L.F.” gravado em letra dourada. Ao lado, um colar com pingente de girassol — idêntico ao que vira no pescoço de Enrique, embora o dela tivesse uma leve rachadura no centro.
Por um momento, tudo ficou em silêncio.
Ela tocou o pingente e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Uma imagem rápida atravessou sua mente: alguém colocando o colar em seu pescoço. Ela estava rindo. Havia música. Mas não conseguia ver o rosto da pessoa.
— Amy... Eu já vi esse colar. No pescoço do Enrique.
— O vice-presidente?
— Sim... — ela engoliu em seco. — Mas como ele teria um igual?
Amy não respondeu. Apenas observou o rosto da amiga, que começava a se contorcer entre medo e fascínio.
— Abre o diário.
Natasha hesitou, mas cedeu.
As primeiras páginas estavam em branco. Depois vinham registros de ensaios, músicas, ideias para aulas com os Juniores. Mas na última página preenchida, uma caligrafia diferente. Masculina.
"Se um dia você esquecer tudo… me encontra no jardim. Antes que eu te esqueça." — H.
As mãos de Natasha tremiam. O chão parecia balançar levemente sob seus pés.
— Amy... quem é H?
— Eu ia te perguntar a mesma coisa.
— E se for... alguém que está por perto? — murmurou Natasha.
Ela apertou o pingente entre os dedos. Um sussurro, quase inaudível, ecoou em sua mente.
"Você prometeu."