O Reencontro no Jardim da Empresa

591 Words
O sol da tarde banhava o jardim nos fundos da D.O.L, um espaço que poucos conheciam, mas que sempre estivera ali — silencioso, cheio de pequenos girassóis plantados por funcionários antigos. Natasha não sabia exatamente o que a levara até ali. Talvez fosse o d****o de silêncio, ou quem sabe a confusão dentro de sua mente implorando por um refúgio. Enquanto caminhava entre as flores, algo dentro dela vibrava. Como uma lembrança adormecida que tentava, desesperadamente, voltar à tona. Ela parou em frente a um banco de madeira antiga, coberto por sombras suaves de uma árvore frondosa. A brisa tocava seu rosto com delicadeza, como se o próprio vento soubesse de algo que ela não sabia. Foi então que ouviu passos atrás de si. Ela se virou devagar, e lá estava ele. — Não achei que alguém conhecesse esse lugar além de mim. — Enrique disse, com um sorriso discreto, parando a poucos passos dela. Natasha olhou para ele por alguns segundos, tentando interpretar o que sentia. — Na verdade, eu nem sabia que esse jardim existia... Só... vim. — respondeu com sinceridade. — O instinto te trouxe. — ele disse. — Ou talvez a memória. Mesmo que você não perceba. Aquilo a fez estremecer levemente. — Você fala como se me conhecesse há anos. Ele não respondeu de imediato. Apenas caminhou até o banco e sentou-se, cruzando as mãos sobre os joelhos. — E se eu dissesse que... já ouvi falar muito sobre você? Ela arqueou uma sobrancelha, confusa. — Pelo meu pai, imagino. — Sim... e não só por ele. — respondeu com a mesma calma. Natasha se aproximou devagar, mas manteve certa distância. — Ontem à noite eu sonhei com alguém. Estávamos num lugar como esse. Havia música... girassóis. Mas eu não conseguia ver o rosto dele. Enrique desviou o olhar para as flores. O silêncio entre os dois ficou espesso, carregado de algo não dito. — E o que sentiu? — ele perguntou, sem encará-la. — Paz. Dor. Amor. — respondeu, surpreendendo-se com as próprias palavras. — Como se algo tivesse sido arrancado de mim antes que eu pudesse segurá-lo. Ele então olhou para ela. Os olhos escuros dele eram tão profundos que, por um instante, Natasha sentiu que ele poderia ver dentro da sua alma. — Às vezes, o coração se lembra antes da mente. Ela ficou em silêncio. Aquilo a tocou profundamente, sem entender por quê. — Você já amou alguém, Natasha? — ele perguntou, baixinho. A pergunta a pegou de surpresa. — Acho que sim... — murmurou, confusa. — Mas não consigo lembrar de quem. Enrique assentiu lentamente, como se já esperasse aquela resposta. — E se esse alguém estivesse esperando por você esse tempo todo? Ela o olhou. O coração batia forte demais. Um nome tentou escapar de sua boca, mas foi engolido pelo medo. Henri... Ela não sabia de onde vinha aquilo. Mas a sensação era clara, viva, como uma sombra do que um dia foi. — Antes que eu te esqueça... — ela sussurrou sem pensar, as palavras saindo como se fossem de outra vida. Enrique congelou. Ela não percebeu o impacto da frase. Mas ele sentiu. Aquela era uma promessa antiga, dita por ela mesma cinco anos atrás, no exato banco em que agora estavam. “Se um dia eu esquecer tudo... me encontra aqui. Antes que eu te esqueça.”  E ali, sob o céu azul e o perfume dos girassóis, ele percebeu que o tempo estava cumprindo sua promessa. Ela ainda não lembrava. Mas a alma dela... sim.
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