O dia foi longo.
Depois da entrevista, dos flashes, das perguntas e dos cochichos, Natasha finalmente estava em seu quarto. O silêncio da casa contrastava violentamente com o alvoroço que ela enfrentara algumas horas antes.
Deitou-se na cama, ainda vestindo parte do traje que usara na coletiva. A Bíblia repousava em sua mesa de cabeceira, e o pingente dourado que vira no pescoço de Enrique ainda girava em sua mente como uma sombra incômoda.
Por que me é tão familiar?
Ela fechou os olhos, na tentativa de descansar.
Mas, assim que o sono a envolveu, o sonho começou.
A cena era enevoada.
Natasha estava em um jardim — um jardim imenso e perfeitamente cuidado, cheio de flores brancas e bancos de ferro sob árvores floridas.
Ao longe, ouvia-se o som de um piano tocando uma melodia suave. Familiar.
Ela caminhava lentamente pelo gramado úmido. Vestia um vestido branco leve, e o vento suave fazia seus cabelos dançarem ao redor do rosto.
De repente, uma silhueta masculina surgiu, de costas para ela, sentado em frente ao piano.
— Você está atrasada — disse a voz masculina, com um leve sorriso na entonação.
Aquela voz. Quente, confortável.
Natasha tentou caminhar até ele, mas, quanto mais andava, mais o cenário parecia se alongar, como se o tempo estivesse distorcido.
— Desculpe... — respondeu ela no sonho, mas sua própria voz soou estranha, ecoando como um sussurro distante.
A figura então se levantou.
Alto. Cabelos escuros. Ombros largos. Mas o rosto permanecia envolto em névoa, impedindo-a de vê-lo nitidamente.
O homem caminhou até ela e segurou suas mãos com delicadeza.
— Eu sempre estarei aqui, mesmo que você esqueça — ele disse com ternura. — Mesmo que o mundo apague nossa história... você vai sentir. O nosso laço é mais forte que o tempo.
A brisa soprou um perfume familiar no ar — jasmim com algo amadeirado — e Natasha sentiu seu coração acelerar.
— Mas eu... não lembro... — ela tentou falar, com dificuldade.
— Não precisa lembrar agora. Mas quando for a hora certa, eu estarei esperando, Natasha.
E antes que pudesse perguntar o nome dele, o som de um trovão ribombou, como uma ruptura.
Tudo começou a desmoronar ao redor.
As flores brancas murcharam.
As árvores perderam suas folhas.
O piano caiu em silêncio.
Natasha acordou ofegante, suando.
As mãos tremiam e o coração parecia sair pela boca.
— Quem era ele...? — sussurrou no escuro.
Olhou para o criado-mudo. Sua Bíblia permanecia ali.
Mas agora, algo chamava sua atenção: na capa, estava preso um pequeno marcador que nunca vira antes — um marcador dourado em forma de nota musical.
Seus dedos tremeram ao tocá-lo.
Isso sempre esteve aqui?
A cabeça latejava.
Mas uma coisa era certa: aquele homem, aquela voz... o colar... estavam conectados.
E o medo começava a misturar-se com a curiosidade.