O Primeiro Sonho

473 Words
O dia foi longo. Depois da entrevista, dos flashes, das perguntas e dos cochichos, Natasha finalmente estava em seu quarto. O silêncio da casa contrastava violentamente com o alvoroço que ela enfrentara algumas horas antes. Deitou-se na cama, ainda vestindo parte do traje que usara na coletiva. A Bíblia repousava em sua mesa de cabeceira, e o pingente dourado que vira no pescoço de Enrique ainda girava em sua mente como uma sombra incômoda. Por que me é tão familiar? Ela fechou os olhos, na tentativa de descansar. Mas, assim que o sono a envolveu, o sonho começou. A cena era enevoada. Natasha estava em um jardim — um jardim imenso e perfeitamente cuidado, cheio de flores brancas e bancos de ferro sob árvores floridas. Ao longe, ouvia-se o som de um piano tocando uma melodia suave. Familiar. Ela caminhava lentamente pelo gramado úmido. Vestia um vestido branco leve, e o vento suave fazia seus cabelos dançarem ao redor do rosto. De repente, uma silhueta masculina surgiu, de costas para ela, sentado em frente ao piano. — Você está atrasada — disse a voz masculina, com um leve sorriso na entonação. Aquela voz. Quente, confortável. Natasha tentou caminhar até ele, mas, quanto mais andava, mais o cenário parecia se alongar, como se o tempo estivesse distorcido. — Desculpe... — respondeu ela no sonho, mas sua própria voz soou estranha, ecoando como um sussurro distante. A figura então se levantou. Alto. Cabelos escuros. Ombros largos. Mas o rosto permanecia envolto em névoa, impedindo-a de vê-lo nitidamente. O homem caminhou até ela e segurou suas mãos com delicadeza. — Eu sempre estarei aqui, mesmo que você esqueça — ele disse com ternura. — Mesmo que o mundo apague nossa história... você vai sentir. O nosso laço é mais forte que o tempo. A brisa soprou um perfume familiar no ar — jasmim com algo amadeirado — e Natasha sentiu seu coração acelerar. — Mas eu... não lembro... — ela tentou falar, com dificuldade. — Não precisa lembrar agora. Mas quando for a hora certa, eu estarei esperando, Natasha. E antes que pudesse perguntar o nome dele, o som de um trovão ribombou, como uma ruptura. Tudo começou a desmoronar ao redor. As flores brancas murcharam. As árvores perderam suas folhas. O piano caiu em silêncio. Natasha acordou ofegante, suando. As mãos tremiam e o coração parecia sair pela boca. — Quem era ele...? — sussurrou no escuro. Olhou para o criado-mudo. Sua Bíblia permanecia ali. Mas agora, algo chamava sua atenção: na capa, estava preso um pequeno marcador que nunca vira antes — um marcador dourado em forma de nota musical. Seus dedos tremeram ao tocá-lo. Isso sempre esteve aqui? A cabeça latejava. Mas uma coisa era certa: aquele homem, aquela voz... o colar... estavam conectados. E o medo começava a misturar-se com a curiosidade.
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