O Anúncio e As Primeiras Perguntas

847 Words
A sala estava lotada. Repórteres, fotógrafos, investidores e membros da diretoria da D.O.L Entertainment preenchiam cada espaço ao redor do pequeno palco iluminado. O brilho dos ‘flashes’ de câmeras criava um cenário quase cinematográfico, enquanto o burburinho crescia à medida que o horário se aproximava. Nos bastidores, Natasha observava tudo de um canto reservado, suas mãos frias segurando nervosamente a Bíblia que carregava. O toque de Enrique ainda pulsava em sua pele como uma memória estranha que o cérebro não conseguia processar. ‘Você já o conhece’, repetia sua mente. Ela respirou fundo. A voz calma da assistente de seu pai trouxe-a de volta à realidade: — Senhorita Natasha, logo será chamada. Seu pai vai iniciar a coletiva agora. Natasha apenas assentiu. No palco, o Sr. Lee ajeitou o microfone com um pequeno sorriso tenso. A multidão silenciou. — Boa tarde a todos. Antes de qualquer coisa, quero agradecer pela presença de cada um nesta coletiva tão importante para a nossa empresa e, principalmente, para a nossa família. Ele fez uma pausa, como se buscasse coragem. — Como todos sabem, a D.O.L Entertainment passou por desafios nos últimos anos. Traições internas, dificuldades financeiras e, sobretudo, problemas pessoais que, por muito tempo, permaneceram privados. Os repórteres já começavam a anotar freneticamente. — Mas hoje, celebramos o recomeço. É com grande honra que apresento a vocês o novo vice-presidente da empresa: Enrique Seok Myung. Aplausos ecoaram. Natasha observou, com o coração descompassado, enquanto Enrique subia ao palco com passos firmes e um sorriso polido. Ali, diante dos holofotes, ele parecia ainda mais imponente. Mas por que ele me parece tão familiar? O olhar dele cruzou discretamente com o dela, por um breve segundo. Havia um calor estranho, quase magnético, naquela troca silenciosa. Enrique pegou o microfone e falou com voz firme, mas suave: — Agradeço ao Sr. Lee pela confiança e à família D.O.L por me acolher. Tenho ciência da responsabilidade que assumo aqui. Trabalharei incansavelmente para honrar a história desta empresa e ajudar a conduzi-la a novos tempos de prosperidade. Os flashes continuavam incessantes. Mas o que mais chamou a atenção de Natasha não foi o discurso perfeito. Foi o colar. Em seu pescoço, por baixo da gravata levemente aberta, um pequeno pingente dourado brilhou por um instante. Era simples, mas algo nele acendeu uma fagulha em sua mente. Pingente... um igual... eu já vi isso antes. Mas antes que pudesse organizar aquele pensamento, seu pai retomou o microfone: — Agora, convido minha filha, Natasha Lee Ferraz, para dar seu depoimento. Um silêncio respeitoso tomou conta da sala. Natasha sentiu as pernas vacilarem, mas forçou-se a caminhar até o palco. Cada passo parecia um desafio maior que o anterior. Ao alcançar o microfone, ela respirou fundo e sorriu gentilmente, como havia ensaiado tantas vezes. O calor de Enrique ao lado a fazia suar um pouco mais do que o normal. — Bem... Não sei exatamente por onde começar. Alguns sorrisos surgiram na plateia. Natasha continuou: — Preparei um discurso, mas decidi não usá-lo. Prefiro ser sincera com vocês. Ela apertou a Bíblia em suas mãos. — Há cinco anos, sofri um acidente de carro. Por decisão do meu pai, quase nada foi divulgado. Eu caí em um coma que durou um ano inteiro... e, quando acordei, havia perdido completamente a memória. As primeiras expressões de choque surgiram entre os jornalistas. — Hoje, continuo sem recordar do meu passado antes do acidente. São como páginas em branco na minha mente. Um dos repórteres, ousado, logo ergueu a mão: — Então... você não se lembra de nada? Nem da noite do acidente? — Não. Tudo o que sei são relatos da minha família e médicos. Meus próprios registros internos... desapareceram. Outro jornalista perguntou: — Você acredita que foi apenas um acidente? Ou poderia haver... algo a mais? Houve um breve murmúrio tenso no salão. Natasha mordeu o lábio, hesitando. Olhou de relance para seu pai — ele assentiu com um olhar sereno, sinalizando que ela poderia ser honesta. — Por muito tempo, eu acreditei que sim, que foi só um acidente. Mas... nos últimos meses, algumas sensações, sonhos e imagens soltas têm me visitado. Eu não sei o que significam. Ela fez uma pausa. — Ainda estou tentando entender o que minha mente está tentando me mostrar. Os jornalistas cochicharam, ávidos por esse mistério. Nesse instante, a voz de Enrique surgiu, como um protetor: — Peço respeito e sensibilidade com o tema. A senhorita Natasha está sendo corajosa em compartilhar algo tão íntimo conosco. Natasha o fitou rapidamente. Havia um brilho de cuidado real nos olhos dele — ou seria algo mais? Enquanto a coletiva prosseguia, pequenas memórias desconexas começaram a rondá-la: — Um perfume familiar no ar. — Um som de piano distante. — Risadas abafadas de uma época que ela não conseguia alcançar. Quem é você, Enrique Seok Myung?  Aquele colar. Aquela voz. Aquela energia ao tocar suas mãos. Sua mente, sem que ela soubesse, começava a costurar os fios perdidos. E ali, sem perceber, ela havia acabado de dar o primeiro passo rumo à verdade.
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