Reina não conseguiu pegar no sono, apesar de estar exausta. Cada barulho vindo da rua a fazia se encolher na cama, os acontecimentos da noite repetindo-se sem parar em sua mente. A ameaça dos homens, o dinheiro jogado no chão, o recado terrível que deixaram para Guto. Ela ficou deitada, com o coração acelerado, esperando por algum sinal do irmão.
Não sabia que horas eram quando finalmente ouviu a porta se abrir de forma brusca. Guto entrou fazendo barulho, tropeçando em móveis, derrubando o que estivesse em seu caminho. O cheiro forte de álcool encheu o ar, junto com um misto de cigarro e algo que Reina não conseguia identificar, mas era nauseante.
— Guto... — chamou, sua voz baixa e tensa.
Ele não respondeu de imediato, continuando a bater em coisas, como se estivesse tentando se equilibrar no próprio corpo. Reina ouviu o som de garrafas caindo e uma cadeira sendo arrastada de forma descuidada.
— Guto, precisamos conversar — insistiu ela, sua voz ganhando mais urgência.
Guto soltou um suspiro irritado e respondeu, com a voz arrastada e alterada:
— Agora não, Reina. Não tô no clima.
Ela sentiu o desespero crescer. Ele não estava no clima? Aqueles homens haviam aparecido em sua casa, ameaçado suas vidas, e Guto estava ali, embriagado, fugindo mais uma vez de suas responsabilidades. A raiva misturava-se ao medo, e Reina tentou controlar o tom ao insistir novamente.
— Guto, isso é sério... Eles vieram aqui. Eles te ameaçaram.
Mas Guto, com a fala ainda mais arrastada, cortou-a:
— Eu já disse… agora não!
Ele cambaleou pelo apartamento, derrubando mais objetos, ignorando completamente a gravidade da situação. Reina ouviu o som de sua queda, talvez contra o sofá ou uma parede, seguido por um resmungo de dor. Ele não estava em condições de conversar ou de fazer qualquer coisa. O vazio e a sensação de impotência tomaram conta dela novamente.
Reina ficou sentada, abraçada aos joelhos, sentindo-se completamente sozinha naquela situação. Ela não sabia o que fazer. Guto estava se afundando mais a cada dia, e agora, arrastava ela junto para aquele abismo.
Na manhã seguinte, o ar pesado da noite anterior ainda pairava pela casa. Reina m*l tinha dormido, cada ruído de Guto, jogado no sofá, a mantinha alerta. Quando ele finalmente se levantou, com passos arrastados e um resmungo de dor pela ressaca, ela sabia que precisaria confrontá-lo.
— O que você queria falar ontem?— Perguntou Guto, a voz rouca e impaciente enquanto esfregava o rosto.
Reina respirou fundo, tentando manter a calma, mesmo que por dentro sentisse o coração bater rápido. Ela sabia que Guto não reagiria bem ao que estava prestes a dizer.
— Ontem... — começou ela, com a voz baixa, sentindo a tensão crescer. — Ontem vieram homens aqui. Eles estavam te procurando.
Guto parou de se mover. O silêncio que veio a seguir foi aterrorizante. Reina não podia vê-lo, mas sentia o medo no ar. Ela percebeu quando ele ficou completamente imóvel, como se estivesse tentando processar a informação.
— O que... que homens? — Perguntou ele, Com a voz vacilante.
Reina engoliu em seco, sentindo a própria voz tremer ao lembrar das ameaças.
— Eu não sei quem eram... Eles disseram que você devia dinheiro. Muito dinheiro. E que, se não pagasse na próxima vez, seria o fim.
De repente, antes que ela pudesse se preparar, Guto avançou em sua direção. Ele a segurou pelos braços com força, tão forte que machucou. Reina soltou um pequeno grito de dor, mas Guto parecia completamente fora de controle.
— O que você disse a eles?! — Gritou ele, balançando-a com violência.
Reina tentou se soltar, o medo subindo rapidamente pela sua garganta, mas Guto não a soltava. Ele estava apavorado, desesperado, e a segurava como se suas palavras pudessem salvá-lo de algum destino terrível.
— Eu... eu não disse nada! — Ela respondeu, a voz trêmula.— Eu não sei de nada, Guto. Eu só disse que não sabia onde você estava!
Ele parou de balançá-la, mas ainda a segurava com força, sua respiração pesada, quase sufocante. Reina sentia o medo dele, mas também o pânico dela. Guto estava completamente assustado, muito mais do que ela esperava.
— Eles vão me matar... ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela.
Aquelas palavras fizeram o estômago de Reina afundar. O que quer que Guto tivesse feito, havia ultrapassado todos os limites. Eles não estavam lidando apenas com dívidas; estavam lidando com pessoas perigosas, e agora o medo real do que poderia acontecer se abatia sobre ambos.
— Você vai me ajudar, Reina — Guto falou, sua voz grave e baixa, como se estivesse planejando algo que ela não entenderia. Mas Reina sabia. O tom dele era diferente, mais frio, como se estivesse pronto para qualquer coisa.
Ela estremeceu, sentindo a ansiedade crescer.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou, tentando controlar o medo que agora apertava seu peito.
— Eu tenho uns amigos... — continuou Guto, ignorando completamente o desconforto que ela demonstrava. — E você é bonita, Reina. Eles podem te ajudar, mas você vai precisar fazer algo em troca.
Reina congelou, balançando a cabeça com força. Ela já sabia onde aquilo estava indo. O pavor a tomou, como se uma onda gigante estivesse prestes a engoli-la. Seu próprio irmão, a única pessoa que ela tinha no mundo, estava disposto a vendê-la.
— Não, Guto, não! — gritou ela, desesperada, o pânico evidente em sua voz. — Eu não quero fazer isso. Por favor, não me faça isso!
Ele soltou um riso amargo, sem um pingo de empatia. Suas mãos a seguraram com mais força, enquanto ele se inclinava sobre ela, o cheiro forte de álcool e cigarro a deixando ainda mais enjoada.
— Você não tem querer, Reina! — gritou ele, com fúria. — Você acha que tem escolha? Acha que pode fugir disso? É a sua única saída... a nossa única saída!
As palavras dele ecoavam pela sala, cheias de desespero, mas também de crueldade. Para Guto, não havia mais limites. Ele estava disposto a sacrificar até sua própria irmã para salvar sua própria pele. Reina se sentiu sufocada, encurralada. As lágrimas começaram a escorrer silenciosamente por seu rosto, mas ela sabia que chorar não mudaria nada. Ela estava presa, mais do que nunca.
O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelos soluços abafados dela, e a dura realidade de que, por mais que resistisse, Guto não se importava. Ele a havia vendido, e agora, ela estava à mercê do destino c***l que ele escolhera para ambos.
— Guto, você precisa arranjar um emprego — disse Reina, tentando controlar a voz que ainda tremia de medo e desespero. — Essa é a saída, a única saída de verdade.
Ele soltou um riso amargo, afastando-se dela com um movimento brusco, como se as palavras dela fossem ridículas, completamente fora da realidade dele.
— Emprego? — repetiu ele, com desdém. — Acha que isso vai resolver? Você não entende nada, Reina. Nada! Essas pessoas não querem saber de emprego. Elas querem o dinheiro, e querem agora!
Reina enxugou as lágrimas com a manga do casaco, tentando manter a calma apesar da raiva e da impotência que sentia. Ela não queria desistir, não podia deixar Guto arrastá-la ainda mais para aquele abismo. Mesmo com todo o medo, precisava insistir.
— Guto, por favor, você não pode continuar vivendo assim! — sua voz saiu mais firme dessa vez. — Se você arrumar um emprego, pagar o que deve, talvez ainda tenha uma chance. Mas isso… isso que você está pensando em fazer comigo... não é a solução!
Ele a encarou por alguns segundos, o rosto endurecido pela frustração e pelo medo. Ela sabia que ele estava assustado, mais do que jamais admitiria, mas também estava perdido. O vício, as dívidas, as más escolhas o tinham consumido, e ele não enxergava mais nenhuma saída, exceto o caminho mais sombrio.
— Emprego? — Guto repetiu, agora com mais raiva, sua voz crescendo. — Ninguém me dá emprego, Reina! E mesmo se desse, não ia ser o suficiente pra pagar o que eu devo! Não tem solução pra isso, a não ser do jeito que eu tô dizendo.
Ela balançou a cabeça, tentando desesperadamente fazer com que ele visse a verdade. O rosto dela estava pálido, as mãos ainda tremendo, mas ela não podia desistir.
— Você está errado. Sempre existe uma solução. Você só não quer tentar! — gritou ela, finalmente dando vazão ao desespero que vinha segurando.
Guto estava com raiva e desespero. Por um momento, Reina achou que ele fosse atacá-la de novo, mas, em vez disso, ele se afastou, resmungando algo inaudível, antes de sair da sala e bater a porta com força.
Ela ficou sozinha, respirando fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Sabia que a situação estava cada vez mais fora de controle. Se Guto não mudasse, eles estariam perdidos. E agora, mais do que nunca, ela sentia que talvez não pudesse salvá-lo — nem a si mesma.