silêncio que observa

433 Words
Flávia não falava muito. Nunca foi de falar demais… Mas agora, menos ainda. Ela ficava mais no quarto. Quietinha. No canto dela. Como se estivesse… aprendendo aquele novo mundo antes de fazer parte dele. Às vezes, eu ia lá. Sentava com ela. Conversava. Outras vezes… Ela só ficava deitada, olhando pro teto. Pensando. Absorvendo tudo. Mas mesmo assim… Ela via. Via mais do que dizia. Na sala… As coisas eram diferentes. Mais leves. Mais… nós. Às vezes eu estava deitada no sofá… Com Caio com a cabeça apoiada na minha coxa. Enquanto Noah ficava ao meu lado… E Hugo atrás, encostado, assistindo filme. Outras vezes… Eu deitada no peito de um deles… Sentindo a respiração calma. Enquanto o outro fazia carinho na minha perna… E o terceiro mexia no meu cabelo. Tudo natural. Sem esforço. Sem precisar explicar. E era isso que mais chamava atenção dela. A naturalidade. A forma como eles se encaixavam. Como se sempre tivesse sido assim. Numa dessas noites… Flávia apareceu. Devagar. Parada na entrada da sala. Observando. Eu percebi na hora. — Ei… — chamei, levantando um pouco a cabeça — vem pra cá. Ela hesitou. — Não… eu não quero incomodar. Antes que eu respondesse— Noah falou. — Você não incomoda. A voz firme. Mas tranquila. Hugo completou: — Você é da família. Caio olhou pra ela. Direto. — Senta aqui. Simples. Sem pressão. Mas impossível de recusar. Ela ficou parada por mais um segundo. E então… Veio. Devagar. Sentou na ponta do sofá. Ainda meio sem jeito. Eu sorri de leve. — Tá vendo? Não é difícil. Ela soltou um riso pequeno. — Vocês são… diferentes. Silêncio. — Diferentes como? — perguntei. Ela deu de ombros. — Não sei explicar… Olhou pra nós. — Mas vocês se entendem sem falar. Os três trocaram um olhar rápido. E sorriram de leve. — A gente só… sabe — Hugo disse. Flávia ficou em silêncio por um tempo. Observando. De verdade. — E você… — ela olhou pra mim — você também sabe. Pensei por um segundo. E então assenti. — Sei. Ela respirou fundo. E pela primeira vez… Relaxou um pouco mais no sofá. Noah pegou o controle. Colocou o filme. E o silêncio voltou. Mas agora… Era compartilhado. Minutos depois… Sem perceber… Flávia já estava encostada no sofá. Mais confortável. Mais próxima. E eu sorri de leve. Porque eu sabia. Ela ainda estava se adaptando. Ainda estava entendendo. Ainda estava com medo. Mas aos poucos… Ela estava deixando. Se permitir ficar. E eles também perceberam. E respeitaram. Sem pressionar. Sem invadir. Só… Incluindo. Do jeito deles.
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