O erro

697 Words
A mansão dos meus pais nunca mudou. Mesma imponência. Mesmo silêncio pesado. Mesma sensação de… prisão. Mas eu mudei. E isso era o mais perigoso. Entrei. Vestido preto, elegante, marcando cada passo firme. Salto prata ecoando pelo chão. Cabelos ruivos soltos, lisos, caindo pelas costas. Olhos verdes atentos. Eles estavam lá. Meu pai. Minha mãe. E minha irmã. Assim que me viu, ela praticamente correu até mim. — Fernanda! Que saudade! Sorri de leve, abraçando ela. — Saudade… você tá bem? — Tô… — ela respondeu rápido demais. Olhei nos olhos dela. Mentira. — A gente vai conversar — murmurei baixo. Ela assentiu. Minha mãe se aproximou logo depois. — Oi, minha filha… você tá linda. Sorri de lado, abraçando ela. — Obrigada, mãe. Meu pai veio em seguida. Cabelos grisalhos. Postura firme. O mesmo olhar calculista de sempre. — Até que enfim… um bom filho da casa torna. — Oi, pai. O abracei. Frio. Controlado. — Que bom que você aceitou vir jantar com a sua família. Olhei direto pra ele. — O senhor sabe bem por que eu me afastei. Ele sustentou meu olhar. — Eu sei. Silêncio. Olhei em volta. E então percebi. — Por que tem cadeiras a mais? O ar ficou estranho. Pesado. — Ou melhor… Olhei direto pra ele. — Duas cadeiras a mais? A campainha tocou. Perfeito. Uma funcionária abriu a porta. Dois homens entraram. Terno. Postura impecável. Um loiro. Um moreno. Meu corpo travou. Olhei lentamente pro meu pai. — Quem são eles? Ele sorriu. Calmo demais. — Filha… esse é o Vinícius. Apontou para o moreno. — Noivo da sua irmã. Na mesma hora, olhei pra ela. O olhar dela… apagado. Ele se aproximou. E beijou os lábios dela. Como se fosse dono. Meu sangue ferveu. — E esse outro? — perguntei, fria. O loiro me encarou. Sem desviar. Sem hesitar. — Eu quero casar com você. Silêncio. Total. Eu pisquei. Uma vez. — …é o quê? Dei um passo à frente. — Você quer casar comigo? Ri. Sem humor nenhum. — Mentira que você falou isso. Olhei pro meu pai. — Você me chamou aqui pra isso? — Fernanda, me escuta— — Não. — cortei, firme. — O senhor me escuta. O clima mudou. — Você já me vendeu uma vez. Silêncio pesado. — Nem sabe como está minha vida… nem sabe se eu tenho alguém… Minha voz subiu. — E agora traz um homem aqui e decide que eu vou casar? O loiro se aproximou. Confiante. Demais. — Eu quero te conhecer— A mão dele tocou minha cintura. Antes que eu pensasse— — NÃO ENCOSTA EM MIM. Dei um passo pra trás, olhar afiado. Ele sorriu. — Marrenta… gostei. Meu pai riu baixo. Aquilo foi o limite. — Mãe — virei pra ela — você vai ficar só assistindo isso? Ela abaixou o olhar. Como sempre. Respirei fundo. — Eu não vou continuar nesse circo. Segurei a mão da minha irmã. — Vem comigo. Comecei a puxar ela em direção à porta. Mas— O loiro apareceu na minha frente. Rápido. Segurou minha cintura de novo. Mais firme. — Calma, princesa… Minha paciência acabou. — Me solta. — Vamos jantar — ele disse, como se nada estivesse acontecendo. — Sem pressão. Soltei uma risada seca. — Eu perdi o apetite. O noivo da minha irmã se aproximou. — Você vai sair assim? — Eu vou com ela — minha irmã disse, firme. Meu coração apertou. — Basta! A voz do meu pai ecoou pela sala. Autoridade. Controle. — As duas! Vocês não vão me fazer passar essa vergonha! Silêncio. — Venham pra mesa. Agora. Eu olhei pra ele. Direto. Sem medo. Sem baixar a cabeça. — Não vou. O ar ficou pesado. Pesado demais. Então… Peguei meu celular. Minhas mãos firmes. Sem hesitar. Disquei. Chamou uma vez. — Oi, amor — a voz de Caio veio do outro lado. Respirei. E disse apenas: — Vem. Desliguei. Silêncio absoluto na sala. Meu pai me encarava. — Quem você chamou? Levantei o olhar. Fria. Segura. Diferente da filha que saiu daquela casa anos atrás. — O meu problema. E dessa vez… Eu não estava sozinha.
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