laços que nunca quebram

790 Words
Já fazia sete meses. Sete meses vivendo naquela casa. Sete meses com eles. Sete meses… que mudaram tudo. Era uma tarde tranquila. Rara. Eles tinham saído para resolver “assuntos” — como sempre chamavam. E eu estava sozinha. Deitada no sofá da sala, mexendo no celular, distraída… Até ele tocar. Mãe. Meu coração hesitou por um segundo antes de atender. — Oi, mãe… — Oi, filha… — a voz dela veio suave. — Tá tudo bem? Olhei ao redor da mansão. Silêncio. — Tô bem. — Tá mesmo? Suspirei. — Tô, mãe. Houve uma pequena pausa. — Filha… vem jantar aqui amanhã? Franzi a testa. — Jantar amanhã? — ri de leve. — O que que o meu pai tá aprontando? — Ele não tá aprontando nada, Fernanda — ela respondeu rápido demais. — A gente só tá com saudade de você… eu, seu pai, sua irmã… Soltei um riso sem humor. — Ah, para, mãe… vocês estão com saudade de mim, mas não mandam mensagem, não ligam… — Fernanda, você também não liga pra gente, né? Fiquei em silêncio. — Então… Respirei fundo. — Seu pai quer voltar a te dar seu dinheiro. Fiquei imóvel. — …o quê? Nesse exato momento… A porta se abriu. Eles chegaram. Mas eu nem percebi. — Deixa eu ver se eu entendi — falei, me levantando devagar. — O dinheiro que é meu por direito… agora ele quer voltar a me dar? Minha voz começou a subir. — Sendo que ele cortou tudo quando eu tinha dezoito anos só porque eu não quis casar? Os três pararam na entrada. Me observando. Em silêncio. — E agora… do nada… ele quer devolver? Ri, desacreditada. — O que que ele tá aprontando? — Fernanda… — Mãe — cortei, firme. — Meu pai não joga pra perder. Silêncio do outro lado. — Ele me viu como mercadoria desde o dia que eu nasci. Minha voz saiu mais dura. Mais fria. — Acho que ele queria um filho homem… mas como veio eu… Engoli seco. — Ele resolveu me negociar. O ar ficou pesado. Os três continuavam me olhando. Atentos. — E agora ele quer me “dar” minha herança? Balancei a cabeça. — Fala pra ele que eu não quero. Silêncio. — Eu continuo com meu trabalho, com minha vida. Eu não preciso de nada que venha dele. A voz da minha mãe saiu mais baixa. — Você vem no jantar? Fechei os olhos por um segundo. — Vou pensar. — Por favor, minha filha… deixa de ser brigona… Soltei um suspiro. E então perguntei, sem pensar: — Já arrumaram o noivo da minha irmã? Silêncio. Pesado. — Ela tem 17 anos, né? Minha mão apertou o celular. — Pra quem vocês venderam ela? — Que isso, Fernanda! — Não, mãe — minha voz saiu firme, cortante. — Isso é você e meu pai. Andei pela sala, sentindo o sangue ferver. — Ele resolve as dívidas vendendo as filhas… e você sempre foi submissa demais pra impedir. Os três se moveram levemente. Mais atentos agora. — Então eu só quero saber… quem é. — Pra quê? — minha mãe perguntou, desconfiada. — O que você vai fazer? Vai se intrometer? Parei. Respirei fundo. E respondi: — Se eu tiver que me intrometer… eu vou. Silêncio. — Eu não vou deixar minha irmã passar pelo mesmo que eu. Minha voz tremeu… mas não de fraqueza. De raiva. — Se ela quiser… eu vou ajudar. Olhei para frente. Mas, na verdade… Eu já não estava mais sozinha. — E se ela me pedir ajuda… Apertei o celular com mais força. — Eu tiro ela de vocês. Silêncio absoluto. — Do mesmo jeito que eu fugi um dia. Desliguei. Sem esperar resposta. O ar parecia pesado demais. Fiquei ali. Parada. Respirando fundo. Até sentir… Eles. Atrás de mim. — Então… — a voz de Caio veio baixa — agora a gente entende. Fechei os olhos por um segundo. — Entendem o quê? — Por que você luta tanto — Noah respondeu. — E por que não abaixa a cabeça — Hugo completou. Virei lentamente. Eles estavam me olhando diferente. Mais sérios. Mais… próximos. — Eu não vou deixar minha irmã passar por isso — falei, firme. Silêncio. E então… Caio deu um passo à frente. — Nem a gente. Meu coração falhou uma batida. — O quê? Noah cruzou os braços. — Se alguém encostar nela… — Vai ter problema — Hugo finalizou. Respirei fundo. Sentindo algo novo crescer dentro de mim. Não era só proteção. Era… poder. — Então… — murmurei — acho que eu vou nesse jantar. Os três trocaram um olhar. E sorriram. Dessa vez… Não como predadores. Mas como homens prontos pra guerra.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD