Já fazia sete meses.
Sete meses vivendo naquela casa.
Sete meses com eles.
Sete meses… que mudaram tudo.
Era uma tarde tranquila.
Rara.
Eles tinham saído para resolver “assuntos” — como sempre chamavam.
E eu estava sozinha.
Deitada no sofá da sala, mexendo no celular, distraída…
Até ele tocar.
Mãe.
Meu coração hesitou por um segundo antes de atender.
— Oi, mãe…
— Oi, filha… — a voz dela veio suave. — Tá tudo bem?
Olhei ao redor da mansão.
Silêncio.
— Tô bem.
— Tá mesmo?
Suspirei.
— Tô, mãe.
Houve uma pequena pausa.
— Filha… vem jantar aqui amanhã?
Franzi a testa.
— Jantar amanhã? — ri de leve. — O que que o meu pai tá aprontando?
— Ele não tá aprontando nada, Fernanda — ela respondeu rápido demais. — A gente só tá com saudade de você… eu, seu pai, sua irmã…
Soltei um riso sem humor.
— Ah, para, mãe… vocês estão com saudade de mim, mas não mandam mensagem, não ligam…
— Fernanda, você também não liga pra gente, né?
Fiquei em silêncio.
— Então…
Respirei fundo.
— Seu pai quer voltar a te dar seu dinheiro.
Fiquei imóvel.
— …o quê?
Nesse exato momento…
A porta se abriu.
Eles chegaram.
Mas eu nem percebi.
— Deixa eu ver se eu entendi — falei, me levantando devagar. — O dinheiro que é meu por direito… agora ele quer voltar a me dar?
Minha voz começou a subir.
— Sendo que ele cortou tudo quando eu tinha dezoito anos só porque eu não quis casar?
Os três pararam na entrada.
Me observando.
Em silêncio.
— E agora… do nada… ele quer devolver?
Ri, desacreditada.
— O que que ele tá aprontando?
— Fernanda…
— Mãe — cortei, firme. — Meu pai não joga pra perder.
Silêncio do outro lado.
— Ele me viu como mercadoria desde o dia que eu nasci.
Minha voz saiu mais dura.
Mais fria.
— Acho que ele queria um filho homem… mas como veio eu…
Engoli seco.
— Ele resolveu me negociar.
O ar ficou pesado.
Os três continuavam me olhando.
Atentos.
— E agora ele quer me “dar” minha herança?
Balancei a cabeça.
— Fala pra ele que eu não quero.
Silêncio.
— Eu continuo com meu trabalho, com minha vida. Eu não preciso de nada que venha dele.
A voz da minha mãe saiu mais baixa.
— Você vem no jantar?
Fechei os olhos por um segundo.
— Vou pensar.
— Por favor, minha filha… deixa de ser brigona…
Soltei um suspiro.
E então perguntei, sem pensar:
— Já arrumaram o noivo da minha irmã?
Silêncio.
Pesado.
— Ela tem 17 anos, né?
Minha mão apertou o celular.
— Pra quem vocês venderam ela?
— Que isso, Fernanda!
— Não, mãe — minha voz saiu firme, cortante. — Isso é você e meu pai.
Andei pela sala, sentindo o sangue ferver.
— Ele resolve as dívidas vendendo as filhas… e você sempre foi submissa demais pra impedir.
Os três se moveram levemente.
Mais atentos agora.
— Então eu só quero saber… quem é.
— Pra quê? — minha mãe perguntou, desconfiada. — O que você vai fazer? Vai se intrometer?
Parei.
Respirei fundo.
E respondi:
— Se eu tiver que me intrometer… eu vou.
Silêncio.
— Eu não vou deixar minha irmã passar pelo mesmo que eu.
Minha voz tremeu… mas não de fraqueza.
De raiva.
— Se ela quiser… eu vou ajudar.
Olhei para frente.
Mas, na verdade…
Eu já não estava mais sozinha.
— E se ela me pedir ajuda…
Apertei o celular com mais força.
— Eu tiro ela de vocês.
Silêncio absoluto.
— Do mesmo jeito que eu fugi um dia.
Desliguei.
Sem esperar resposta.
O ar parecia pesado demais.
Fiquei ali.
Parada.
Respirando fundo.
Até sentir…
Eles.
Atrás de mim.
— Então… — a voz de Caio veio baixa — agora a gente entende.
Fechei os olhos por um segundo.
— Entendem o quê?
— Por que você luta tanto — Noah respondeu.
— E por que não abaixa a cabeça — Hugo completou.
Virei lentamente.
Eles estavam me olhando diferente.
Mais sérios.
Mais… próximos.
— Eu não vou deixar minha irmã passar por isso — falei, firme.
Silêncio.
E então…
Caio deu um passo à frente.
— Nem a gente.
Meu coração falhou uma batida.
— O quê?
Noah cruzou os braços.
— Se alguém encostar nela…
— Vai ter problema — Hugo finalizou.
Respirei fundo.
Sentindo algo novo crescer dentro de mim.
Não era só proteção.
Era… poder.
— Então… — murmurei — acho que eu vou nesse jantar.
Os três trocaram um olhar.
E sorriram.
Dessa vez…
Não como predadores.
Mas como homens prontos pra guerra.