antes de mim

661 Words
Era uma tarde tranquila. Rara. Eu estava sentada no sofá da sala, desenhando no meu caderno, enquanto eles estavam espalhados pelo ambiente — cada um no seu jeito, mas sempre… por perto. Sempre atentos. Sempre presentes. Levantei o olhar de repente. Uma dúvida que já estava na minha cabeça há dias finalmente saiu. — Me conta uma coisa… Os três olharam pra mim na mesma hora. — Como vocês se conheceram? Silêncio. Inclinei a cabeça, curiosa. — Vocês cresceram juntos? Hugo se ajeitou no sofá, apoiando os braços nos joelhos. — Crescemos. — Desde pequenos — Noah completou. — Então vocês têm a mesma idade? — perguntei. — Quase — Caio respondeu. — Diferença de meses só. Franzi a testa, pensativa. — Porque meu pai disse que quando eu nasci… vocês tinham tipo sete, oito anos. Olhei pra eles. — E agora eu tô com 23… Silêncio. Pesado. Diferente. — A gente tinha oito — Hugo disse. Minha respiração desacelerou. — Então… é verdade mesmo… Eles trocaram um olhar rápido. Como se estivessem decidindo o quanto contar. — Nossos pais eram sócios — Noah começou. — Negócios grandes — Caio completou. — Perigosos. — A gente cresceu no meio disso — Hugo disse. — Reuniões, acordos… poder. Engoli seco. — E foi aí que… — Seu pai apareceu — Noah terminou. Meu coração apertou levemente. — Endividado — Caio disse, direto. — Desesperado — Hugo completou. Silêncio. — E fez o acordo… Minha voz saiu mais baixa. — Sim — Noah confirmou. Passei a mão pelo cabelo, tentando processar. — E vocês… sabiam? Eles não responderam de imediato. — Desde o começo — Hugo disse por fim. Arregalei os olhos. — O quê?! — A gente ouviu — Caio explicou. — Não era pra gente estar lá… mas estava. — E nunca esqueceram — Noah completou. Meu coração bateu mais forte. — Vocês eram crianças… — E mesmo assim… — Hugo disse, olhando direto pra mim — a gente decidiu. Franzi a testa. — Decidiu o quê? Silêncio. — Que você seria nossa. Meu estômago virou. — Vocês são malucos… Mas minha voz não saiu com tanta força quanto deveria. — Talvez — Caio disse. — Mas a gente nunca mudou de ideia — Noah completou. Balancei a cabeça, incrédula. — Vocês passaram anos… pensando nisso? — Não só pensando — Hugo respondeu. — Se preparando. Meu coração acelerou. — Pra quê? Eles se levantaram quase ao mesmo tempo. Se aproximando. Como sempre faziam quando o assunto ficava sério demais. — Pra quando você crescesse — Noah disse. — Pra quando fosse nossa — Caio completou. — Pra não errar com você — Hugo finalizou. Minha respiração ficou mais pesada. — Isso não é normal… Mas dessa vez… Nem eu parecia acreditar totalmente nisso. Porque no fundo… Eu já sabia. Nada ali era normal. E mesmo assim… Eu estava ali. — E por que três? — perguntei, olhando de um pra outro. — Por que vocês nunca… competiram? Eles trocaram um olhar. E sorriram. — Porque desde o começo — Noah disse — nunca foi sobre escolher. — Era sobre dividir — Caio completou. Meu coração acelerou. — E vocês nunca tiveram ciúmes? Silêncio. Um sorriso leve apareceu no canto dos lábios de Hugo. — Temos. Meu corpo arrepiou. — Mas não entre nós. — Só de qualquer outro — Noah disse. — Que tente chegar perto de você — Caio finalizou. Engoli seco. O peso daquilo caiu sobre mim de uma forma diferente. Não era só obsessão. Era algo construído. Planejado. Alimentado… por anos. — Vocês são perigosos… — sussurrei. Eles se aproximaram mais. Cercando. Como sempre. — Sempre fomos — Hugo murmurou. — A diferença — Noah disse, perto do meu ouvido — é que agora… — Você faz parte disso — Caio completou. Fechei os olhos por um segundo. E quando abri… Eu já não sabia mais onde terminava o medo… E onde começava a vontade de ficar.
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