Era uma tarde tranquila.
Rara.
Eu estava sentada no sofá da sala, desenhando no meu caderno, enquanto eles estavam espalhados pelo ambiente — cada um no seu jeito, mas sempre… por perto.
Sempre atentos.
Sempre presentes.
Levantei o olhar de repente.
Uma dúvida que já estava na minha cabeça há dias finalmente saiu.
— Me conta uma coisa…
Os três olharam pra mim na mesma hora.
— Como vocês se conheceram?
Silêncio.
Inclinei a cabeça, curiosa.
— Vocês cresceram juntos?
Hugo se ajeitou no sofá, apoiando os braços nos joelhos.
— Crescemos.
— Desde pequenos — Noah completou.
— Então vocês têm a mesma idade? — perguntei.
— Quase — Caio respondeu. — Diferença de meses só.
Franzi a testa, pensativa.
— Porque meu pai disse que quando eu nasci… vocês tinham tipo sete, oito anos.
Olhei pra eles.
— E agora eu tô com 23…
Silêncio.
Pesado.
Diferente.
— A gente tinha oito — Hugo disse.
Minha respiração desacelerou.
— Então… é verdade mesmo…
Eles trocaram um olhar rápido.
Como se estivessem decidindo o quanto contar.
— Nossos pais eram sócios — Noah começou.
— Negócios grandes — Caio completou. — Perigosos.
— A gente cresceu no meio disso — Hugo disse. — Reuniões, acordos… poder.
Engoli seco.
— E foi aí que…
— Seu pai apareceu — Noah terminou.
Meu coração apertou levemente.
— Endividado — Caio disse, direto.
— Desesperado — Hugo completou.
Silêncio.
— E fez o acordo…
Minha voz saiu mais baixa.
— Sim — Noah confirmou.
Passei a mão pelo cabelo, tentando processar.
— E vocês… sabiam?
Eles não responderam de imediato.
— Desde o começo — Hugo disse por fim.
Arregalei os olhos.
— O quê?!
— A gente ouviu — Caio explicou. — Não era pra gente estar lá… mas estava.
— E nunca esqueceram — Noah completou.
Meu coração bateu mais forte.
— Vocês eram crianças…
— E mesmo assim… — Hugo disse, olhando direto pra mim — a gente decidiu.
Franzi a testa.
— Decidiu o quê?
Silêncio.
— Que você seria nossa.
Meu estômago virou.
— Vocês são malucos…
Mas minha voz não saiu com tanta força quanto deveria.
— Talvez — Caio disse.
— Mas a gente nunca mudou de ideia — Noah completou.
Balancei a cabeça, incrédula.
— Vocês passaram anos… pensando nisso?
— Não só pensando — Hugo respondeu.
— Se preparando.
Meu coração acelerou.
— Pra quê?
Eles se levantaram quase ao mesmo tempo.
Se aproximando.
Como sempre faziam quando o assunto ficava sério demais.
— Pra quando você crescesse — Noah disse.
— Pra quando fosse nossa — Caio completou.
— Pra não errar com você — Hugo finalizou.
Minha respiração ficou mais pesada.
— Isso não é normal…
Mas dessa vez…
Nem eu parecia acreditar totalmente nisso.
Porque no fundo…
Eu já sabia.
Nada ali era normal.
E mesmo assim…
Eu estava ali.
— E por que três? — perguntei, olhando de um pra outro. — Por que vocês nunca… competiram?
Eles trocaram um olhar.
E sorriram.
— Porque desde o começo — Noah disse — nunca foi sobre escolher.
— Era sobre dividir — Caio completou.
Meu coração acelerou.
— E vocês nunca tiveram ciúmes?
Silêncio.
Um sorriso leve apareceu no canto dos lábios de Hugo.
— Temos.
Meu corpo arrepiou.
— Mas não entre nós.
— Só de qualquer outro — Noah disse.
— Que tente chegar perto de você — Caio finalizou.
Engoli seco.
O peso daquilo caiu sobre mim de uma forma diferente.
Não era só obsessão.
Era algo construído.
Planejado.
Alimentado… por anos.
— Vocês são perigosos… — sussurrei.
Eles se aproximaram mais.
Cercando.
Como sempre.
— Sempre fomos — Hugo murmurou.
— A diferença — Noah disse, perto do meu ouvido — é que agora…
— Você faz parte disso — Caio completou.
Fechei os olhos por um segundo.
E quando abri…
Eu já não sabia mais onde terminava o medo…
E onde começava a vontade de ficar.