CAPÍTULO 10

1982 Words
Capítulo 10 — Entre o Dever e o Desejo O retorno de Lisboa foi mais silencioso do que a ida. No voo de volta, Aline e Paulo sentaram lado a lado, mas poucas palavras foram trocadas. Não por falta do que dizer, mas pelo excesso. Ambos sabiam que algo novo havia nascido entre eles — algo que exigia cuidado, tempo e, principalmente, discrição. De volta a São Paulo, a rotina retomou seu ritmo frenético. Mas agora, cada manhã trazia consigo um peso diferente — o da consciência de que estavam caminhando por uma linha tênue. No escritório, olhares rápidos se cruzavam, seguidos por longos silêncios. E, quando o acaso os deixava sozinhos, o ar parecia carregar algo invisível, intenso, impossível de ignorar. --- Naquela semana, a imprensa especializada divulgou uma matéria sobre a expansão do grupo Bianchi. Paulo, como sempre, era o rosto da conquista — o empresário brilhante, o homem por trás do sucesso. Mas, dessa vez, Aline aparecia ao seu lado em uma das fotos oficiais: discreta, elegante, mas inegavelmente presente. Foi o suficiente para despertar comentários nos corredores. Pequenas insinuações, olhares curiosos, cochichos abafados. Nada direto, mas o suficiente para deixá-la desconfortável. Certa tarde, ao entrar na cafeteria do prédio, ouviu duas colegas sussurrando: — Dizem que ela foi promovida depois daquela viagem. — Coincidência, né? — Coincidência demais... Aline fingiu não ouvir, pediu seu café e saiu com a cabeça erguida. Mas por dentro, doía. Porque, mesmo sem provas, as pessoas sempre achariam que uma mulher como ela só subia por causa de um homem como Paulo. --- Naquela noite, ela ficou até mais tarde no escritório. Precisava revisar relatórios e, talvez, encontrar um pouco de paz no silêncio das horas extras. Mas, quando o elevador se abriu, Paulo apareceu. — Achei que já tivesse ido — disse ela, surpresa. — Também achei. — Ele sorriu de leve. — Mas esqueci minha pasta e acabei ficando. Aline voltou os olhos para o computador, tentando disfarçar o nervosismo. — Está tudo bem? — perguntou ele, percebendo o tom distante. — Está, sim. — respondeu rápido demais. Ele se aproximou um pouco. — Não parece. Ela suspirou e, enfim, o encarou. — As pessoas estão falando, Paulo. — Deixem falar. — Não é tão simples. Você é meu chefe. — E você é a melhor profissional que já trabalhou comigo. Ela desviou o olhar. — Isso não impede que pensem o pior. — Eu não me importo com o que pensam. — Mas eu me importo. — respondeu firme. — Porque lutei muito pra chegar até aqui, e não quero que reduzam meu trabalho a um boato. Paulo ficou em silêncio por um momento. Depois assentiu lentamente. — Entendo. — Eu sei que entende. — Ela baixou o tom. — Só precisamos ser cuidadosos. Ele deu um passo à frente. — Cuidadosos... mas não indiferentes. O coração dela disparou. — O que quer dizer com isso? — Que não consigo mais fingir que não sinto nada, Aline. As palavras pairaram no ar, cheias de significado. Aline respirou fundo, tentando se manter firme. — Paulo... — Eu sei que é errado. Sei que pode complicar tudo. Mas quando estou perto de você, o resto perde sentido. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo o peso e a beleza da confissão. — E o que espera que eu diga? — A verdade. Aline o encarou, e o silêncio entre eles se tornou quase palpável. Os olhos de ambos diziam o que as palavras não ousavam: havia amor ali. Amor, desejo, medo e uma certeza silenciosa de que resistir era tão difícil quanto ceder. --- Nos dias que se seguiram, o equilíbrio entre razão e emoção se tornou um desafio constante. Trabalhar lado a lado exigia disciplina quase sobre-humana. Mas, paradoxalmente, a relação profissional parecia crescer. Havia mais sintonia, mais confiança, mais cumplicidade. Até o conselho da empresa começou a notar a diferença. — Aline, seu desempenho está excepcional — comentou o diretor financeiro em uma reunião. — É raro ver o presidente confiar tanto em alguém. Paulo apenas sorriu, discreto. Mas, por dentro, sabia que aquela confiança tinha raízes profundas. E, ainda que o mundo jamais soubesse o quanto aquela mulher o inspirava, ele sabia. Sabia que, sem ela, o império que construíra não teria o mesmo brilho. --- Algumas semanas depois, a empresa foi convidada para uma convenção internacional em Paris. Paulo, naturalmente, lideraria a delegação — e Aline, por mérito e posição, foi incluída na equipe. Quando recebeu o convite oficial, ela hesitou. Sabia o que aquela viagem significava. Sabia também que a linha entre dever e desejo estava prestes a se tornar ainda mais tênue. Na noite anterior à viagem, ficou horas olhando o pingente em forma de ampulheta. Pensou em tudo o que viveram, em tudo o que ainda não haviam dito. E, no fundo, uma pergunta latejava: até onde o amor suportaria o peso da ética, do medo e das aparências? --- No aeroporto, na manhã seguinte, Paulo a viu chegar. Ela estava diferente — mais confiante, mais segura de si. Vestia um casaco cinza claro, óculos escuros e um leve sorriso nos lábios. Quando o viu, acenou. — Pronta? — perguntou ele. — Sempre. Ele quis dizer algo mais, mas conteve-se. Talvez, pela primeira vez, ambos entendessem que o tempo deles — aquele entre o dever e o desejo — ainda não havia terminado. Apenas começado. Enquanto o avião decolava e as nuvens encobriam a cidade, Paulo olhou pela janela e pensou que algumas histórias não se escolhem. Elas acontecem, inevitavelmente. E, de alguma forma, ele sabia: Paris traria respostas. Ou novas perguntas. CAPÍTULO 11 Sob o Céu de Paris O avião pousou em Paris ao amanhecer. O céu tinha tons de lavanda e ouro, e o frio suave da primavera francesa envolvia tudo com uma beleza quase melancólica. Aline olhou pela janela enquanto o piloto anunciava o pouso. Era a primeira vez que viajava para a Europa, e o coração batia acelerado — não apenas pela novidade, mas pelo que aquela viagem poderia significar. Paulo, ao lado, parecia tranquilo, embora o semblante revelasse certa tensão. Desde o embarque, os dois se tratavam com absoluta formalidade. Mas havia algo nos olhares trocados, nos gestos discretos, que denunciava o que tentavam esconder. — Pronta para a convenção? — perguntou ele, enquanto recolhia os documentos. — Pronta — respondeu, com um sorriso leve. — E o senhor? — Confiante. Acho que essa será uma viagem importante. Ele não falava apenas dos negócios. Mas ambos sabiam que era melhor fingir que sim. --- O Hotel Bianchi Paris ficava na Avenue Montaigne, elegante e discreto, com vista para a Torre Eiffel. Era o mais novo empreendimento da rede — e, ironicamente, o palco de tantas mudanças na vida dos dois. Aline ficou impressionada com a sofisticação do lugar. Cada detalhe parecia carregado de significado: as flores frescas nas janelas, o aroma suave de lavanda no ar, a delicadeza das cortinas brancas que deixavam a luz entrar com gentileza. Ao receber o cartão do quarto, ela percebeu que o nome de Paulo aparecia logo abaixo do dela, na mesma ala. Coincidência, talvez. Mas seu coração acelerou, mesmo assim. --- As primeiras horas foram dedicadas ao evento corporativo. Reuniões, apresentações, coquetéis. Aline manteve-se profissional, concentrada, embora sentisse os olhos de Paulo sobre ela de tempos em tempos. E cada vez que isso acontecia, um arrepio sutil percorria sua pele. No fim do dia, exausta, ela decidiu caminhar um pouco pelas ruas próximas ao hotel. Paris à noite tinha uma magia silenciosa: o som dos passos ecoando nas calçadas antigas, as luzes amareladas refletindo no Sena, os aromas de café e pão fresco misturados ao vento frio. Estava tão imersa na cena que nem percebeu quando alguém se aproximou. — Imaginei que te encontraria por aqui — disse uma voz familiar. Ela se virou. Paulo estava ali, sem terno, apenas com uma camisa escura e um casaco leve. O ar noturno parecia deixá-lo ainda mais humano, menos CEO e mais... Paulo. — Vim caminhar — respondeu ela. — Precisava respirar um pouco. — Posso acompanhar? — Claro. Seguiram lado a lado, sem rumo certo. O som do Sena acompanhava a conversa tímida, e por alguns minutos foram apenas dois desconhecidos redescobrindo o prazer do silêncio. --- — É engraçado — comentou ele, após um tempo. — Há anos venho a Paris a trabalho, mas nunca parei pra simplesmente... olhar. — Olhar o quê? — perguntou ela. — Isso tudo. — Ele gesticulou em volta. — As ruas, as pessoas, o ritmo. Sempre foi só mais uma cidade nos relatórios. Aline sorriu. — Talvez tenha precisado de uma companhia diferente pra enxergar. Paulo a olhou de lado, surpreso e encantado com a naturalidade da resposta. — Talvez. — murmurou. Continuaram andando até chegarem à Pont des Arts, a ponte dos cadeados. As luzes douradas refletiam na água, e os cadeados presos nas grades pareciam histórias suspensas no tempo. — Sabe o que dizem sobre esses cadeados? — perguntou Aline. — Que representam promessas — respondeu ele. — Amores que querem durar pra sempre. — Ou apenas tentativas de segurar o que o tempo insiste em levar. Ele sorriu. — Cética como sempre. — Realista — corrigiu ela. — O tempo ensina, lembra? Paulo a observou por um instante. Havia algo na serenidade dela que o fascinava. Era diferente da Aline tímida de meses atrás. Agora, havia firmeza, brilho, uma calma madura. — O tempo te fez bem — disse, sincero. Ela desviou o olhar, um leve rubor subindo às bochechas. — O mesmo posso dizer de você. O vento soprou mais frio, e ela cruzou os braços. Sem pensar muito, ele tirou o casaco e colocou sobre os ombros dela. — Obrigada — murmurou. — Não agradeça. — O tom era suave. — Já me acostumei a cuidar de você, Aline. O silêncio que se seguiu foi denso, cheio de tudo o que ambos evitavam dizer. E, por um instante, sob o céu de Paris, parecia que o mundo havia parado só pra eles. --- De volta ao hotel, o clima entre os dois era diferente. Não havia toque, nem palavras indevidas — apenas a certeza de algo que crescia entre linhas, no espaço entre gestos e respirações. No elevador, ficaram lado a lado, imóveis, enquanto o andar subia lentamente. Aline sentia o coração bater mais rápido a cada número que se acendia no painel. Paulo olhava fixamente à frente, mas seus dedos se moviam, inquietos, como se quisessem dizer algo. Quando as portas se abriram, ela o encarou. — Boa noite, Paulo. — Boa noite, Aline. Ela começou a andar até seu quarto. Mas, antes de abrir a porta, ouviu a voz dele atrás de si: — Sabe o que é curioso? Ela se virou. — O quê? — Que, mesmo em uma cidade cheia de luzes, você ainda é o que mais me chama atenção. Aline ficou em silêncio, sentindo o coração apertar de emoção. — E sabe o que é mais curioso ainda? — respondeu com um sorriso suave. — Diga. — Que, pela primeira vez, eu acredito que você está realmente me vendo. Ele não respondeu. Apenas sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de se afastar, deixando o corredor silencioso. Aline entrou no quarto e encostou-se à porta, respirando fundo. Lá fora, Paris dormia sob o brilho das estrelas, e ela sabia que aquela noite ficaria gravada em sua memória como o momento em que tudo mudou — de novo. --- Horas depois, à beira da janela, olhando as luzes da Torre Eiffel piscarem à distância, Aline tocou o pingente em forma de ampulheta. O tempo, pensou, realmente não apaga — apenas transforma. E, pela primeira vez, ela se permitiu imaginar um futuro que não começasse com medo. Um futuro onde o amor, enfim, pudesse ser simples.
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