CAPÍTULO 9

993 Words
Capítulo 9 — O Tempo Entre Nós O tempo passou como uma maré calma — levando embora os destroços da tempestade, mas deixando pequenas marcas na areia. Três meses haviam se passado desde a noite em que Aline tirou os óculos diante de Paulo e revelou, sem palavras, quem realmente era. Três meses desde o colar, desde a carta, desde o silêncio que, aos poucos, se tornara convivência possível. A Bianchi Group seguia seu ritmo de sempre: reuniões, projetos, viagens. Mas, para Aline, tudo parecia diferente. O mundo não havia mudado — ela é que havia. Agora, cada decisão vinha com mais confiança, cada palavra carregava mais firmeza. Ela ainda era a mesma profissional competente, mas algo nela havia despertado. E, ainda que o coração insistisse em se agitar quando via Paulo, ela aprendeu a respirar fundo e seguir. Paulo, por outro lado, mergulhara de vez no trabalho. Passava mais tempo em viagens, expandindo a rede de hotéis para Lisboa e Buenos Aires. Era o mesmo líder admirado, mas seus olhos — sempre atentos, sempre analíticos — tinham agora uma sombra suave de melancolia. Ninguém percebia, exceto Aline. --- Naquela sexta-feira de setembro, a sede da empresa estava em festa. Era o aniversário de fundação da Bianchi Group, e a diretoria havia preparado um coquetel elegante no salão principal. Aline hesitou antes de ir. Não era fã de eventos sociais, mas Paulo havia feito questão de que todos os setores estivessem presentes. Vestiu um vestido verde-escuro simples, sem exageros, mas que delineava sua figura com elegância. Prendeu o cabelo num coque leve, deixou apenas uma mecha solta e, pela primeira vez em muito tempo, dispensou os óculos. Quando chegou, as luzes do salão já refletiam nos lustres altos e o som suave de jazz preenchia o ambiente. Viu colegas, brindes, risos — e então, viu Paulo. Ele estava junto de alguns investidores estrangeiros, o sorriso profissional estampado no rosto. Terno impecável, postura firme, olhar que exalava controle. Mas, quando seus olhos cruzaram os de Aline, o tempo pareceu parar por um breve instante. Ela desviou o olhar, mas ele não. Observou-a por longos segundos, com uma expressão que mesclava surpresa e admiração. A mulher diante dele era a mesma — e, ainda assim, completamente diferente. --- Horas depois, o evento se acalmava. As pessoas começavam a sair, os garçons recolhiam taças. Aline, já pronta para ir embora, ouviu a voz dele às suas costas. — Aline. Virou-se devagar. Paulo estava ali, com o casaco sobre o braço e um olhar que parecia procurar algo nas palavras que ainda não havia dito. — Senhor Bianchi — respondeu com um leve aceno, mantendo o tom profissional. — Já disse que pode me chamar de Paulo. Ela sorriu, quase imperceptivelmente. — Velhos hábitos demoram a mudar. Ele se aproximou um pouco. — Mas mudam, não é? Houve um silêncio breve. Aline assentiu. — Às vezes, com o tempo certo. Paulo observou o colar em seu pescoço — o mesmo que ele havia dado. — Vejo que ainda o guarda. — Guardo. — Ela tocou o pingente com delicadeza. — Me lembra de que o tempo ensina mais do que apaga. Ele sorriu de leve, como se aquelas palavras tivessem mais peso do que ela imaginava. — Talvez o tempo tenha ensinado a nós dois. Um garçom passou, oferecendo taças de espumante. Paulo pegou duas, entregou uma a ela. — Um brinde, então. — A quê? — perguntou ela, curiosa. — Ao que o tempo deixou. E ao que ele ainda pode trazer. Brindaram. E naquele breve toque de taças, algo silencioso pareceu se restaurar — uma conexão antiga, agora madura, mais consciente. --- Alguns dias depois, Paulo viajou novamente. Dessa vez, para Lisboa. Antes de partir, deixou uma pequena pasta sobre a mesa de Aline, com uma anotação em papel: > “Relatório do projeto Lisboa — Confio em você.” Aline sorriu ao ler. Não era uma declaração. Mas, para ela, significava mais do que mil palavras. Trabalhou naquele projeto com dedicação dobrada. E, quando o hotel foi inaugurado, três meses depois, foi ela quem recebeu o convite para representá-lo no evento oficial. --- Lisboa. O céu de fim de tarde tinha tons de laranja e ouro. O salão do novo Hotel Bianchi Lisboa era luxuoso, mas acolhedor. E foi ali, no meio de cumprimentos e flashes, que Aline o viu novamente. Paulo vinha caminhando entre os convidados, alto, confiante, mas com um sorriso genuíno que ela não via há muito tempo. Quando a encontrou, parou por um instante, admirando-a em silêncio. — Você veio. — disse ele, como se ainda duvidasse. — Vim representar a empresa. — respondeu, sorrindo. — E, talvez, o tempo também. Ele riu baixo. — Sempre sabe o que dizer. — Aprendi com você — respondeu ela, meio brincando. Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando, cercados pelo som distante das conversas e das taças. E então, como se algo finalmente se encaixasse, Paulo estendeu a mão. — Podemos começar de novo? — Começar? — Ela arqueou as sobrancelhas. — Em que sentido? — No sentido mais simples. Sem disfarces, sem máscaras. Apenas... nós dois. O coração dela acelerou, mas Aline respirou fundo. Olhou para a mão dele, depois para os olhos. E então, com um sorriso sereno, respondeu: — Talvez o tempo tenha trazido a resposta, afinal. Entrelaçou os dedos aos dele, com leveza. E, enquanto os aplausos ecoavam ao fundo pela inauguração, ambos sabiam que celebravam algo bem mais íntimo e raro: o recomeço. --- Mais tarde, na varanda do hotel, olhando para as luzes da cidade refletidas no Tejo, Aline sentiu o vento brincar com seus cabelos. Paulo estava ao seu lado, em silêncio. Nenhum dos dois precisava dizer nada. O tempo, aquele mesmo que os separara e depois os reunira, agora parecia apenas observar — paciente, cúmplice, talvez até orgulhoso. E, pela primeira vez, Aline sentiu que não estava vivendo uma fantasia. Estava vivendo sua verdade.
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