CAPÍTULO 8

927 Words
Capítulo 8 — Depois da Tempestade A segunda-feira amanheceu fria, como se o tempo tivesse decidido refletir o silêncio que pairava entre eles desde aquele dia. Aline chegou cedo, como sempre fazia, mas o simples ato de atravessar o saguão da Bianchi Group lhe pareceu uma travessia longa e dolorosa. Cada passo ecoava como uma lembrança. Cada olhar de um colega de trabalho parecia carregar perguntas que ninguém ousava fazer. Mas o que mais pesava era saber que, do outro lado da porta de vidro, estava ele — o homem que agora sabia de tudo. Paulo Bianchi. E o pior não era o fato de ele ter descoberto. Era o que vinha depois: o vazio, a distância, o silêncio. --- Desde a conversa em sua sala, Paulo não lhe dirigira uma única palavra pessoal. Tudo voltara a ser formal, polido, profissional — mas com uma frieza que a fazia tremer. Não havia mais sorrisos sutis, nem olhares cúmplices. Apenas o peso do que havia sido revelado. Aline tentava convencer a si mesma de que era melhor assim. Que, ao menos, a mentira havia acabado. Mas toda vez que ele passava perto, o coração dela traía o raciocínio. E, no fundo, ela sabia: a verdade não trouxera paz. Apenas uma nova forma de tormenta. --- Paulo, por sua vez, também não encontrava descanso. Passava as noites em claro, alternando entre raiva e admiração, entre decepção e desejo. Não conseguia decidir se havia sido vítima de uma armadilha ou testemunha de algo raro — uma mulher que, cansada de ser invisível, criara coragem para ser vista. Mais de uma vez, pensou em chamá-la para conversar. Mas toda vez que a via, concentrada na mesa, os óculos de volta ao lugar e a postura impecável, faltavam-lhe palavras. Era como se o que haviam vivido fosse um sonho distante, guardado em outra vida. Até que, numa tarde de quarta-feira, um pequeno gesto mudou tudo. --- Aline deixara um envelope sobre a mesa dele antes de sair para o almoço. Não havia remetente. Apenas o nome “Sr. Bianchi”, escrito com sua caligrafia firme e discreta. Quando Paulo o abriu, encontrou uma carta. Manuscrita. Simples. > “Senhor Bianchi, Eu não espero perdão, e tampouco justificativas mudarão o que houve. Fiz escolhas erradas, movida por um desejo ingênuo de ser notada. Mas nunca quis te ridicularizar, nem brincar com seus sentimentos. Cada palavra trocada, mesmo sob o nome de Nina, foi verdadeira. Eu compreendo se a confiança acabou. Só espero que ainda veja em mim a profissional que sempre procurou ser. E, se possível, a mulher que aprendeu — da maneira mais dura — que sinceridade tem preço, mas vale mais que qualquer disfarce. — Aline Méndez.” Paulo leu a carta três vezes. E a cada leitura, a raiva diminuía um pouco mais, substituída por algo mais difícil de controlar: saudade. Ele a via em cada frase — a honestidade, a culpa, a coragem. Aline, sem máscaras. E, de repente, percebeu que era dela que sentia falta, não da fantasia. Guardou a carta no bolso e ficou olhando pela janela por longos minutos. A cidade se movia lá embaixo, indiferente, mas dentro dele algo se rearranjava. --- Mais tarde, quando Aline voltou do almoço, encontrou sobre sua mesa uma pequena caixa de madeira. No topo, apenas um bilhete: > “Você pediu sinceridade. Eu também quero isso. — P.” Com as mãos trêmulas, ela abriu a caixa. Lá dentro, um pequeno colar prateado com um pingente em forma de ampulheta. E outro bilhete, menor: > “O tempo não volta, mas nos ensina o que deixamos escapar.” As lágrimas vieram antes que ela pudesse contê-las. Não era uma reconciliação. Mas era um gesto. Um início. --- Os dias seguintes foram estranhos — leves, mas cautelosos. Aline e Paulo voltaram a trabalhar lado a lado, porém com uma nova camada de respeito silencioso. As conversas se limitavam ao necessário, mas havia gentileza em cada palavra. E, às vezes, um olhar breve dizia o que nenhum dos dois ousava confessar. Em uma dessas tardes, enquanto revisavam documentos no mesmo escritório, Paulo comentou, sem levantar os olhos: — Sabe, eu ainda tento entender o que foi tudo aquilo. Aline respirou fundo. — Também tento. — E chegou a alguma conclusão? — Que talvez a gente precise se perder um pouco pra descobrir quem é de verdade. Ele assentiu lentamente, pensativo. — E quem é você agora, Aline? Ela sorriu, com doçura e firmeza. — Alguém que não precisa mais de Nina pra se sentir viva. O silêncio que seguiu foi leve, quase confortável. Paulo se inclinou ligeiramente na cadeira, os olhos ainda sobre ela. — E eu... talvez tenha aprendido a enxergar melhor. Por um instante, o mundo pareceu se aquietar. Não havia perdão completo, nem amor declarado. Mas havia entendimento. E isso, para os dois, já era o suficiente por enquanto. --- Naquela noite, ao sair do trabalho, Aline caminhou sozinha pelas ruas iluminadas. O vento frio tocava o rosto, e ela sentia algo novo dentro de si: serenidade. O segredo já não a definia. O medo perdera força. E, embora o futuro com Paulo fosse incerto, pela primeira vez ela sentia que o tempo estava ao seu favor. O pingente em forma de ampulheta repousava sobre o peito, frio contra a pele. Ela o tocou com delicadeza e sorriu. Porque, no fundo, sabia que algumas histórias não precisam de finais imediatos. Algumas apenas precisam de coragem para continuar. E, talvez, aquele fosse o verdadeiro começo da história deles.
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