Capítulo 7 — Verdades Inconvenientes
O amanhecer chegou silencioso, coberto por um céu indeciso entre o azul e o cinza.
Aline chegou ao escritório pontualmente, como sempre.
Mas, dessa vez, cada passo até sua mesa parecia pesar mais do que o anterior.
O e-mail trocado com Paulo — ou melhor, com o “Paulo que acreditava falar com Nina” — ainda martelava na cabeça dela.
E a sensação de estar vivendo uma mentira começou a se tornar insuportável.
Ela se acomodou, ligou o computador e respirou fundo, tentando mergulhar no trabalho.
Mas, quando levantou o olhar, o viu — parado na entrada do escritório, observando-a em silêncio.
Paulo.
O olhar dele era firme, intenso, e por um segundo Aline sentiu como se ele pudesse enxergar através dela.
Como se as camadas cuidadosamente erguidas de Aline Méndez e Nina Alves se dissolvessem sob aquele olhar.
— Bom dia, senhor — disse, mantendo o tom neutro.
— Bom dia, Aline. — Ele hesitou. — Pode vir à minha sala quando terminar esse relatório? Temos... assuntos a discutir.
— Claro, senhor.
Assim que ele se afastou, ela percebeu que algo estava diferente.
O modo como ele falara, o peso nas palavras.
Não era apenas trabalho.
Paulo Bianchi estava prestes a fazer perguntas — e ela não sabia se conseguiria mentir novamente.
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Na sala dele, o ambiente estava silencioso.
A luz suave da manhã entrava pelas janelas, refletindo nas pastas empilhadas sobre a mesa.
Quando Aline entrou, Paulo já estava lá, de pé, com as mãos nos bolsos e o olhar distante.
— Pedi que viesse porque há algo que preciso entender — começou, direto.
Ela sentou-se devagar, tentando manter o controle.
— Claro, senhor.
Ele a observou por um longo momento antes de continuar.
— Tenho pensado sobre aquela noite... no La Ruelle. — A voz dele era baixa, mas cada palavra parecia pesar. — E sobre você.
Aline sentiu o coração acelerar.
— Sobre mim?
— Sim. — Ele se aproximou um pouco. — Há algo em você que... me intriga.
O modo como fala. O jeito como evita certos olhares.
E há coisas que simplesmente não se explicam.
Ela tentou sorrir. — Não entendo o que quer dizer.
— Entende, sim. — A voz dele agora era firme. — O perfume. O olhar. As palavras.
O silêncio entre eles ficou denso.
Aline sentia a garganta seca, as mãos frias.
— Está me confundindo com alguém, senhor.
Paulo deu uma risada curta, sem humor.
— Gostaria de acreditar nisso. Mas não consigo.
— Por que não?
— Porque desde aquela noite, não consigo pensar em outra coisa.
O tom dele era um misto de frustração e fascínio.
— Eu sei que é loucura. Que não faz sentido algum. Mas quando olho pra você, Aline... eu vejo ela.
O mundo pareceu girar por um instante.
Ela desviou o olhar, fingindo ajustar os papéis sobre a mesa.
— Com todo respeito, senhor, acho que o trabalho está afetando seu descanso.
Ele sorriu de canto, mas o olhar permaneceu sério.
— Pode ser. Mas também pode ser que o destino esteja me pregando uma peça.
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Nos dias seguintes, Paulo passou a observá-la discretamente.
Não por desconfiança apenas — mas por necessidade.
Precisava entender.
Precisava saber se sua mente estava o traindo... ou se o coração o estava conduzindo à verdade.
Começou a reparar em detalhes:
o modo como Aline segurava a caneta, o leve desvio no sotaque quando se distraía, o riso contido que lembrava o de Nina.
Tudo se encaixava, como peças de um quebra-cabeça que ele não sabia se queria completar.
Enquanto isso, Aline tentava desesperadamente manter o controle.
E, para complicar ainda mais, “Nina” continuava recebendo mensagens dele — mensagens cheias de emoção, de confissão, de uma ternura que a deixava sem chão.
> Paulo: “Não consigo parar de pensar em você. Mesmo quando estou cercado de gente, é o seu rosto que me vem à mente.”
Nina: “Talvez você devesse tentar esquecer.”
Paulo: “Já tentei. E falhei.”
Cada palavra era uma lâmina de culpa e desejo ao mesmo tempo.
Ela sabia que estava se afundando — mas não conseguia parar.
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Numa tarde chuvosa, ele a surpreendeu com um convite.
— Aline, o conselho se reunirá amanhã cedo. Quero revisar a apresentação antes. Pode ficar até mais tarde hoje?
— Claro, senhor.
O escritório esvaziou-se aos poucos, e só os dois permaneceram.
O som da chuva contra o vidro criava um ritmo calmo, quase hipnótico.
Ela revisava os slides, ele caminhava pela sala, distraído.
Mas, a certa altura, parou atrás dela, observando-a em silêncio.
— Aline — chamou, baixinho.
Ela se virou. — Sim, senhor?
Ele a olhou por um instante longo, como quem busca coragem para algo.
— Tire os óculos.
Ela piscou, confusa. — Como disse?
— Por favor. — A voz dele era calma, mas firme. — Tire os óculos.
O coração dela disparou.
— Senhor, não vejo necessidade...
— Eu vejo.
Sem alternativa, ela obedeceu.
E, naquele instante, o tempo pareceu congelar.
Os olhos dela — os mesmos que ele sonhava há semanas — o encaravam agora sem escudo algum.
A mesma cor. O mesmo brilho.
— Eu sabia — murmurou ele, quase num sussurro. — Eu sabia que era você.
Aline ficou sem palavras.
Quis negar, mas o tremor em suas mãos a denunciou.
— Eu... posso explicar.
— Então explique. — A voz dele estava tensa, mas não havia raiva. Apenas perplexidade. — Por quê, Aline? Por que criar outra pessoa?
Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas.
— Porque eu queria ser vista.
— Eu a vejo todos os dias.
— Não, senhor. — Ela o interrompeu, a voz firme. — O senhor vê a funcionária exemplar, a mulher discreta atrás da mesa. Mas nunca olhou pra mim.
Ele ficou em silêncio, sentindo as palavras pesarem.
— E Nina... foi o jeito que encontrou de me fazer olhar?
Aline assentiu, com os olhos marejados.
— Eu nunca quis enganar. Só... precisava sentir que podia ser alguém que chamasse sua atenção.
Paulo passou a mão pelos cabelos, tentando ordenar os pensamentos.
— Você me colocou em um labirinto, Aline.
— Eu sei. E me perdi nele também.
O silêncio voltou, denso e cheio de tudo que não cabia em palavras.
Lá fora, a chuva continuava caindo, e o som era como um fundo para o que restava entre eles.
Finalmente, ele respirou fundo.
— Eu deveria estar bravo. Mas não consigo.
— Por quê?
— Porque, no fim, não sei mais qual delas me encantou.
Aline o olhou, surpresa.
Ele continuou:
— A mulher inteligente, dedicada, leal... ou a mulher livre, misteriosa, que diz o que sente sem medo.
Fez uma pausa.
— Talvez ambas sejam a mesma pessoa, e eu é que demorei demais pra perceber.
As lágrimas dela escaparam, silenciosas.
— E agora?
— Agora — disse ele, com um meio sorriso triste — acho que temos duas verdades inconvenientes.
— Quais?
— Você me enganou… e eu não consigo te culpar.
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Aline saiu da sala com o coração em pedaços e, ao mesmo tempo, mais leve do que nunca.
O segredo havia sido revelado.
E, por mais que o medo ainda a cercasse, uma parte dela sentia que, pela primeira vez, Paulo realmente a via — inteira.
Mas o futuro ainda era incerto.
Porque, embora o amor tivesse finalmente mostrado o rosto, o mundo em volta deles — as regras, os julgamentos, as aparências — não perdoava facilmente.
E o que viria a seguir poderia mudar tudo.