CAPÍTULO 7

1267 Words
Capítulo 7 — Verdades Inconvenientes O amanhecer chegou silencioso, coberto por um céu indeciso entre o azul e o cinza. Aline chegou ao escritório pontualmente, como sempre. Mas, dessa vez, cada passo até sua mesa parecia pesar mais do que o anterior. O e-mail trocado com Paulo — ou melhor, com o “Paulo que acreditava falar com Nina” — ainda martelava na cabeça dela. E a sensação de estar vivendo uma mentira começou a se tornar insuportável. Ela se acomodou, ligou o computador e respirou fundo, tentando mergulhar no trabalho. Mas, quando levantou o olhar, o viu — parado na entrada do escritório, observando-a em silêncio. Paulo. O olhar dele era firme, intenso, e por um segundo Aline sentiu como se ele pudesse enxergar através dela. Como se as camadas cuidadosamente erguidas de Aline Méndez e Nina Alves se dissolvessem sob aquele olhar. — Bom dia, senhor — disse, mantendo o tom neutro. — Bom dia, Aline. — Ele hesitou. — Pode vir à minha sala quando terminar esse relatório? Temos... assuntos a discutir. — Claro, senhor. Assim que ele se afastou, ela percebeu que algo estava diferente. O modo como ele falara, o peso nas palavras. Não era apenas trabalho. Paulo Bianchi estava prestes a fazer perguntas — e ela não sabia se conseguiria mentir novamente. --- Na sala dele, o ambiente estava silencioso. A luz suave da manhã entrava pelas janelas, refletindo nas pastas empilhadas sobre a mesa. Quando Aline entrou, Paulo já estava lá, de pé, com as mãos nos bolsos e o olhar distante. — Pedi que viesse porque há algo que preciso entender — começou, direto. Ela sentou-se devagar, tentando manter o controle. — Claro, senhor. Ele a observou por um longo momento antes de continuar. — Tenho pensado sobre aquela noite... no La Ruelle. — A voz dele era baixa, mas cada palavra parecia pesar. — E sobre você. Aline sentiu o coração acelerar. — Sobre mim? — Sim. — Ele se aproximou um pouco. — Há algo em você que... me intriga. O modo como fala. O jeito como evita certos olhares. E há coisas que simplesmente não se explicam. Ela tentou sorrir. — Não entendo o que quer dizer. — Entende, sim. — A voz dele agora era firme. — O perfume. O olhar. As palavras. O silêncio entre eles ficou denso. Aline sentia a garganta seca, as mãos frias. — Está me confundindo com alguém, senhor. Paulo deu uma risada curta, sem humor. — Gostaria de acreditar nisso. Mas não consigo. — Por que não? — Porque desde aquela noite, não consigo pensar em outra coisa. O tom dele era um misto de frustração e fascínio. — Eu sei que é loucura. Que não faz sentido algum. Mas quando olho pra você, Aline... eu vejo ela. O mundo pareceu girar por um instante. Ela desviou o olhar, fingindo ajustar os papéis sobre a mesa. — Com todo respeito, senhor, acho que o trabalho está afetando seu descanso. Ele sorriu de canto, mas o olhar permaneceu sério. — Pode ser. Mas também pode ser que o destino esteja me pregando uma peça. --- Nos dias seguintes, Paulo passou a observá-la discretamente. Não por desconfiança apenas — mas por necessidade. Precisava entender. Precisava saber se sua mente estava o traindo... ou se o coração o estava conduzindo à verdade. Começou a reparar em detalhes: o modo como Aline segurava a caneta, o leve desvio no sotaque quando se distraía, o riso contido que lembrava o de Nina. Tudo se encaixava, como peças de um quebra-cabeça que ele não sabia se queria completar. Enquanto isso, Aline tentava desesperadamente manter o controle. E, para complicar ainda mais, “Nina” continuava recebendo mensagens dele — mensagens cheias de emoção, de confissão, de uma ternura que a deixava sem chão. > Paulo: “Não consigo parar de pensar em você. Mesmo quando estou cercado de gente, é o seu rosto que me vem à mente.” Nina: “Talvez você devesse tentar esquecer.” Paulo: “Já tentei. E falhei.” Cada palavra era uma lâmina de culpa e desejo ao mesmo tempo. Ela sabia que estava se afundando — mas não conseguia parar. --- Numa tarde chuvosa, ele a surpreendeu com um convite. — Aline, o conselho se reunirá amanhã cedo. Quero revisar a apresentação antes. Pode ficar até mais tarde hoje? — Claro, senhor. O escritório esvaziou-se aos poucos, e só os dois permaneceram. O som da chuva contra o vidro criava um ritmo calmo, quase hipnótico. Ela revisava os slides, ele caminhava pela sala, distraído. Mas, a certa altura, parou atrás dela, observando-a em silêncio. — Aline — chamou, baixinho. Ela se virou. — Sim, senhor? Ele a olhou por um instante longo, como quem busca coragem para algo. — Tire os óculos. Ela piscou, confusa. — Como disse? — Por favor. — A voz dele era calma, mas firme. — Tire os óculos. O coração dela disparou. — Senhor, não vejo necessidade... — Eu vejo. Sem alternativa, ela obedeceu. E, naquele instante, o tempo pareceu congelar. Os olhos dela — os mesmos que ele sonhava há semanas — o encaravam agora sem escudo algum. A mesma cor. O mesmo brilho. — Eu sabia — murmurou ele, quase num sussurro. — Eu sabia que era você. Aline ficou sem palavras. Quis negar, mas o tremor em suas mãos a denunciou. — Eu... posso explicar. — Então explique. — A voz dele estava tensa, mas não havia raiva. Apenas perplexidade. — Por quê, Aline? Por que criar outra pessoa? Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas. — Porque eu queria ser vista. — Eu a vejo todos os dias. — Não, senhor. — Ela o interrompeu, a voz firme. — O senhor vê a funcionária exemplar, a mulher discreta atrás da mesa. Mas nunca olhou pra mim. Ele ficou em silêncio, sentindo as palavras pesarem. — E Nina... foi o jeito que encontrou de me fazer olhar? Aline assentiu, com os olhos marejados. — Eu nunca quis enganar. Só... precisava sentir que podia ser alguém que chamasse sua atenção. Paulo passou a mão pelos cabelos, tentando ordenar os pensamentos. — Você me colocou em um labirinto, Aline. — Eu sei. E me perdi nele também. O silêncio voltou, denso e cheio de tudo que não cabia em palavras. Lá fora, a chuva continuava caindo, e o som era como um fundo para o que restava entre eles. Finalmente, ele respirou fundo. — Eu deveria estar bravo. Mas não consigo. — Por quê? — Porque, no fim, não sei mais qual delas me encantou. Aline o olhou, surpresa. Ele continuou: — A mulher inteligente, dedicada, leal... ou a mulher livre, misteriosa, que diz o que sente sem medo. Fez uma pausa. — Talvez ambas sejam a mesma pessoa, e eu é que demorei demais pra perceber. As lágrimas dela escaparam, silenciosas. — E agora? — Agora — disse ele, com um meio sorriso triste — acho que temos duas verdades inconvenientes. — Quais? — Você me enganou… e eu não consigo te culpar. --- Aline saiu da sala com o coração em pedaços e, ao mesmo tempo, mais leve do que nunca. O segredo havia sido revelado. E, por mais que o medo ainda a cercasse, uma parte dela sentia que, pela primeira vez, Paulo realmente a via — inteira. Mas o futuro ainda era incerto. Porque, embora o amor tivesse finalmente mostrado o rosto, o mundo em volta deles — as regras, os julgamentos, as aparências — não perdoava facilmente. E o que viria a seguir poderia mudar tudo.
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