Capítulo 6 — Entre Olhares e E-mails
O retorno ao escritório parecia, à primeira vista, uma volta à normalidade.
Mas, para Aline, nada estava igual.
Desde o fim de semana no Rio, cada passo, cada palavra trocada com Paulo carregava uma nova tensão — sutil, mas constante.
Ele não mencionou o que acontecera na varanda do hotel.
Nem ela.
Ambos fingiam que a conversa não existira.
Mas o silêncio entre eles dizia tudo.
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Na manhã de segunda-feira, Aline chegou mais cedo que o habitual.
A torre Bianchi ainda despertava, com luzes acendendo aos poucos e o som distante da máquina de café ecoando pelos corredores.
Ela se acomodou em sua mesa e abriu o notebook, tentando mergulhar nas planilhas como quem foge de um pensamento perigoso.
Mas, quando a notificação de e-mail apareceu, o coração dela parou por um instante.
> De: Paulo Bianchi
Assunto: Reunião de acompanhamento
Mensagem: “Bom dia, senhorita Méndez. Gostaria que revisássemos juntos o material da filial de Lisboa antes do meio-dia. Traga também os relatórios de Paris. — P.”
Formal.
Seco.
Impecável.
Mas havia algo nas entrelinhas.
Talvez fosse a ausência de palavras desnecessárias — ou o fato de que, até ali, ele nunca a chamara para revisar juntos um relatório.
Respirando fundo, ela respondeu:
> “Claro, senhor Bianchi. Estarei pronta em quinze minutos.”
E, por mais que tentasse, o estômago se revirava em expectativa.
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A sala dele estava iluminada pela luz suave da manhã.
O aroma do café fresco misturava-se ao de papéis novos e madeira polida.
Paulo estava à mesa, de mangas dobradas, revisando documentos com concentração aparente.
Mas, quando ela entrou, os olhos dele se levantaram — e por um instante, o ar pareceu mudar.
— Bom dia, senhor — disse ela, controlada.
— Bom dia. — Ele indicou a cadeira ao lado. — Sente-se, por favor.
Enquanto discutiam números e estratégias, Paulo tentava manter o foco.
Mas, em cada gesto dela — o modo como escrevia, o timbre baixo da voz, o perfume discreto —, havia algo que o distraía.
Ele não queria admitir, mas a lembrança de Nina e a presença de Aline estavam se confundindo em sua mente.
Quando a reunião terminou, Aline recolheu as pastas e se preparou para sair.
Mas ele a deteve.
— Senhorita Méndez... — A voz dele soou baixa, quase hesitante. — A propósito, parabéns pelo trabalho no evento. Sua dedicação foi essencial.
Ela sorriu, surpresa.
— Obrigada, senhor.
— E... — Ele fez uma pausa curta. — Aquele vestido azul lhe caía muito bem.
O comentário ficou suspenso no ar.
Sutil demais para ser repreendido, íntimo demais para ser apenas profissional.
Aline sentiu o rubor subir-lhe ao rosto.
— Agradeço o elogio. — E saiu antes que a voz a traísse.
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Os dias seguintes tornaram-se um delicado jogo de controle.
Os dois se observavam à distância — discretos, cuidadosos, mas inegavelmente conectados.
Durante reuniões, Aline sentia o olhar dele se demorar sobre ela um pouco além do necessário.
Nos corredores, os cumprimentos eram breves, mas o suficiente para deixá-la sem ar.
E, nos e-mails que trocavam, pequenas sutilezas começaram a aparecer.
> Paulo: “Excelente análise, Aline. Como sempre, confiável e precisa.”
Aline: “Obrigada, senhor. Tento seguir seu exemplo.”
Paulo: “Então fico em dívida — você tem superado o mestre.”
Ela riu sozinha ao ler a última linha.
Era um flerte? Um elogio sincero?
Não importava.
O simples fato de imaginar o sorriso dele ao escrever já era suficiente para bagunçar tudo dentro dela.
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Naquela sexta-feira, após o expediente, Aline foi chamada novamente à sala do diretor.
A empresa estava quase vazia, e a luz do entardecer dourava o vidro da janela.
Paulo estava de pé, olhando a cidade abaixo.
— Senhorita Méndez — começou ele, sem virar-se. — Gostaria que me enviasse o relatório consolidado até amanhã cedo. Temos uma reunião com investidores segunda-feira.
— Sim, senhor. Posso trabalhar de casa e enviar o material ainda esta noite.
Ele assentiu, em silêncio.
O vento lá fora fazia as cortinas balançarem, e o momento pareceu se alongar.
Aline esperou que ele dissesse algo mais, mas o silêncio persistiu.
Quando se virou para sair, ouviu-o dizer:
— Você confia em mim, Aline?
Ela parou, surpresa.
— Confio, senhor.
Ele se aproximou lentamente, os olhos fixos nos dela.
— Então responda honestamente: há algo que não está me dizendo?
O coração dela disparou.
Por um instante, achou que ele sabia.
Que havia descoberto tudo — Nina, os encontros, as mensagens.
Mas o olhar dele era confuso, não acusador.
Ele buscava uma resposta que nem sabia formular.
— Não, senhor — respondeu, com firmeza. — Não há nada.
Paulo a observou por um longo segundo, depois assentiu devagar.
— Está bem. — E voltou-se para a janela.
Mas quando ela saiu da sala, ele murmurou para si mesmo:
— Então por que tenho a impressão de que há duas pessoas em você?
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Em casa, Aline largou o laptop sobre a cama e respirou fundo.
A voz dele ainda ecoava em sua mente.
“Há algo que não está me dizendo?”
Ela quase respondera “sim”.
Mas o medo — e o desejo — a calaram.
Abriu o e-mail corporativo e começou a trabalhar, mas o foco era impossível.
As palavras dele pareciam pulsar entre as linhas da tela.
Foi então que seu celular vibrou.
Um número desconhecido.
> Mensagem: “Boa noite, Nina. Ainda acredita que o destino está se divertindo conosco?”
A respiração dela falhou.
Era Paulo.
Ele ainda acreditava que estava falando com Nina.
> Nina: “Boa noite, senhor misterioso. Não sei se é o destino… ou se nós é que o provocamos demais.”
Paulo: “Talvez os dois. E se o destino quiser brincar de novo, eu não pretendo fugir.”
Ela ficou olhando a tela, o coração disparado.
Sabia que aquilo era um erro, mas não conseguiu resistir.
> Nina: “Então espero que saiba jogar.”
Paulo: “Nunca fui bom em jogos. Mas por você, aprendo.”
O peso daquelas palavras a atingiu em cheio.
Era o homem real — o Paulo que ela conhecia, não o CEO distante.
E ele estava se entregando sem saber a quem.
Aline fechou os olhos e encostou a cabeça na parede.
A culpa e o amor se misturavam, tornando impossível distinguir onde terminava uma coisa e começava a outra.
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Na segunda-feira, o escritório parecia mais frio.
Os dois se evitavam — ele por confusão, ela por medo.
Mas bastou um olhar, no corredor, para que tudo voltasse à tona.
Aline passou por ele segurando uma pilha de relatórios, e os dedos de ambos se tocaram brevemente.
Um toque rápido, quase acidental.
Mas suficiente para despertar o fogo que tentavam apagar.
— Tenha um bom dia, senhorita Méndez — disse ele, em voz baixa.
— O mesmo, senhor.
Quando se afastaram, ambos sabiam:
o jogo estava ficando perigoso demais para continuar…
mas já era tarde demais para parar.