CAPÍTULO 5

1296 Words
Capítulo 5 — Jogo de Máscaras A segunda-feira amanheceu cinzenta, com nuvens densas e promessas de chuva. O tipo de manhã que parecia pedir silêncio — e Aline precisava dele desesperadamente. Passara o fim de semana tentando apagar da mente cada olhar, cada palavra trocada com Paulo no La Ruelle. Mas, por mais que se esforçasse, as lembranças voltavam como ondas insistentes. O toque da mão dele. O modo como a chamara de Nina, com a voz baixa, quase reverente. E, acima de tudo, a forma como ele a olhara — não como um chefe, não como um estranho. Mas como um homem fascinado por algo que não conseguia entender. Ela sabia que aquele jogo tinha que acabar. Mas quanto mais tentava se afastar, mais o destino os empurrava de volta. --- No escritório, tudo parecia igual — e, ao mesmo tempo, diferente. Paulo estava mais calado que o habitual, mas os olhares furtivos diziam mais do que qualquer palavra. Durante as reuniões, ele parecia distraído; nas pausas, ficava tempo demais parado diante da janela, pensativo. Lucas percebeu, claro. — O que está acontecendo com você, Paulo? — perguntou, ao entrar em sua sala com um café. — Está com a cabeça em outro lugar. — Estou tentando entender uma coisa. — Uma mulher? — Lucas sorriu, adivinhando. — Talvez. — Paulo girou a xícara nas mãos. — Tem algo nela... que me lembra alguém. — Ela é aquela, a do La Ruelle? — É. A mesma. — Ele fez uma pausa. — Mas há algo mais. Uma familiaridade que não consigo explicar. Lucas riu. — Está obcecado. — Não — respondeu Paulo, sem convicção. — Só... curioso. --- Aline, do outro lado da parede de vidro, ouvia o som distante da conversa e sentia o coração bater em descompasso. Ela era o motivo de tudo aquilo. E, ainda assim, não podia dizer uma palavra. Tentava se convencer de que era só um disfarce, um impulso temporário. Mas, quando o interfone tocou chamando-a à sala dele, o corpo reagiu antes da razão. As mãos tremiam levemente. — Senhorita Méndez — ele começou, quando ela entrou. — Pode revisar o relatório da filial de Lisboa? Há inconsistências nos números. — Claro, senhor — respondeu, controlando o tom. Enquanto ela se aproximava para pegar a pasta, Paulo percebeu o perfume. O mesmo perfume suave, floral, inconfundível. O mesmo de Nina. Ele a observou de relance. O cabelo preso, os óculos, o blazer impecável. Nada que sugerisse a mulher do vestido vermelho. E, ainda assim... O jeito como ela ajeitou uma mecha solta atrás da orelha. O gesto delicado, familiar. “Impossível”, pensou. Mas a dúvida ficou. --- Nos dias seguintes, a linha entre as duas identidades começou a se desfazer. Aline vivia em constante tensão — entre e-mails e disfarces, planilhas e sorrisos enigmáticos. À noite, Nina ganhava vida nas redes, nas fotos, nas mensagens que trocava com Paulo sob um pretexto qualquer. Ele começara a procurá-la. Mensagens curtas, educadas, mas cheias de subentendidos: > Paulo: “Coincidência nos encontrar duas vezes, não acha?” Nina: “Talvez o destino esteja se divertindo conosco.” Paulo: “Ou tentando me enlouquecer.” Nina: “Então estamos em desvantagem. Eu já enlouqueci faz tempo.” A cada troca, Aline se sentia mais envolvida — e mais presa. O perigo não estava mais apenas em ser descoberta, mas em perder o controle do próprio coração. --- Naquela sexta-feira, Paulo anunciou que viajaria para o Rio de Janeiro no fim de semana, para acompanhar uma inauguração do grupo. Aline organizou os detalhes como sempre: voos, reservas, agendas. Mas, na manhã da partida, ele apareceu à porta da sala dela com um olhar diferente. — Senhorita Méndez, pode me acompanhar? — A mim, senhor? — Sim. Quero que esteja presente na inauguração. É um evento importante. Ela hesitou. Viajar com ele significava conviver lado a lado por dois dias — e esconder duas pessoas ao mesmo tempo. Mas não podia recusar. — Claro, senhor Bianchi. --- O voo foi silencioso. Ele lia relatórios, e ela tentava parecer tranquila. Mas, em alguns momentos, quando o avião balançava levemente e seus olhares se cruzavam, o ar parecia ficar mais denso. Como se houvesse algo não dito pairando entre eles. Ao chegarem ao hotel do grupo em Copacabana — uma das joias da rede Bianchi —, Aline se impressionou com o luxo, mas também com a vista. O mar, o som das ondas, o cheiro de sal. Era como se o mundo inteiro respirasse diferente ali. Naquela noite, o evento de inauguração seria formal. Aline se arrumou com discrição: um vestido azul-marinho elegante, os cabelos presos. Nada de Nina. Pelo menos, era o que planejava. Mas, quando desceu ao salão, os olhares se voltaram. O corte do vestido, simples mas refinado, realçava sua silhueta. Os olhos, iluminados pelas luzes douradas, pareciam revelar um brilho novo. E Paulo, ao vê-la, esqueceu por um instante que ela era “a senhorita Méndez”. — Está... diferente — murmurou, quando ela se aproximou. — Posso interpretar isso como um elogio, senhor? — Deve. — Ele sorriu, discreto. — Ficou linda. Ela desviou o olhar, disfarçando o rubor. A noite seguiu com discursos, flashes, brindes. Mas, por mais que tentassem manter as aparências, a tensão entre os dois era palpável. --- Mais tarde, após o evento, Paulo a chamou na varanda do hotel para revisar a agenda do dia seguinte. O vento leve balançava as cortinas, e o som distante do mar servia de trilha sonora. Aline falava sobre horários e convidados, mas ele não ouvia. Apenas observava. — Aline... — interrompeu, finalmente. Ela parou. Era raro ouvi-lo dizer seu nome assim, com aquela voz baixa e quase hesitante. — Sim, senhor? Ele demorou a responder. — Às vezes, acho que não te conheço de verdade. — Como assim? — Você muda. Às vezes parece fria, distante... e em outros momentos, é como se houvesse algo escondido, algo que tenta não mostrar. Ela sentiu o coração acelerar. — Todos temos lados que preferimos guardar — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — E o seu? O que esconde de mim, Aline? O olhar dele era intenso demais. Ela desviou, fingindo arrumar as anotações. — Apenas o que não é profissional. Ele deu um passo em direção a ela, devagar. — E se eu dissesse que quero conhecer esse lado? O tempo pareceu parar. Aline respirou fundo, tentando controlar o turbilhão dentro dela. — Então o senhor precisaria deixar de ser meu chefe. Por um instante, o silêncio reinou entre eles. E depois, ele sorriu, quase melancólico. — Pena que algumas máscaras não podemos tirar quando queremos. Ela o encarou, e o ar entre eles pareceu se condensar. Por um momento, tudo o que era proibido se insinuou em um simples olhar. Mas então, Aline deu um passo atrás, recobrando o fôlego. — Boa noite, senhor. — E saiu, antes que o coração a traísse. --- Naquela noite, no quarto do hotel, ela ficou diante do espelho. Olhou para o reflexo e quase não soube distinguir quem via ali. A mulher de olhos brilhantes, o vestido azul, o coração acelerado. Era Aline ou Nina? Ou ambas, fundidas numa só? Pegou o celular e escreveu uma mensagem que jamais enviou: > “Se eu pudesse, te mostraria quem realmente sou.” Apagou a frase e deixou o aparelho sobre a mesa. Lá fora, as ondas quebravam em ritmo calmo, indiferentes aos dilemas humanos. Mas, dentro dela, o mar estava em fúria. Porque, pela primeira vez, Aline percebeu que o jogo de máscaras não protegia mais ninguém. Nem ela, nem ele. E o risco de tudo desabar era o que tornava a atração entre eles ainda mais irresistível.
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