Capítulo 4 — Primeiro Encontro
O relógio marcava seis da tarde quando Aline fechou o laptop e apoiou a testa sobre as mãos.
O escritório, finalmente silencioso, parecia respirar alívio após dias intensos.
Ela havia concluído a reunião antecipada com os investidores — e o próprio Paulo elogiara sua eficiência diante de todos.
Mas, em vez de satisfação, sentia o coração inquieto.
Desde aquela conversa, os olhares dele haviam mudado.
Não eram mais frios, neutros.
Havia algo neles... curiosidade, talvez.
Ou suspeita.
E o simples pensamento a fazia estremecer.
Ela tentava se convencer de que Nina havia ficado no espelho de casa, guardada sob o batom vermelho e o perfume de jasmim.
Mas a verdade era que Nina estava viva dentro dela.
E cada vez mais difícil de conter.
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O som do celular rompeu o silêncio.
Era uma mensagem de Beatriz:
> Bea: “La Ruelle. 21h. Eu, você e um drinque pra comemorar o fim do caos. Nada de desculpas.”
Aline sorriu.
Precisava daquilo — de uma noite comum, de leveza.
Mas, ao abrir o armário, percebeu que não havia nada “comum” em suas escolhas.
Os vestidos novos de Nina chamavam sua atenção como se tivessem voz própria.
Pegou o vermelho.
Suspirou.
Talvez só por uma noite.
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O La Ruelle estava movimentado, iluminado pelas luzes suaves que dançavam nas taças de cristal.
Aline entrou com passos seguros, o perfume delicado misturando-se ao ar doce do lugar.
Beatriz já a esperava em uma das mesas do canto, animada como sempre.
— Finalmente! — disse, erguendo a taça. — À nova Aline… ou devo dizer, à eterna Nina?
— Às duas — respondeu ela, sorrindo, e brindaram.
Conversaram sobre trabalho, viagens, sonhos.
Aline se sentia leve — até que Beatriz, com aquele olhar maroto, arqueou as sobrancelhas.
— Não olhe agora, mas acho que seu CEO favorito acabou de entrar.
Aline engasgou. — O quê?!
Beatriz mordeu o lábio, disfarçando a risada. — Eu disse pra não olhar!
Mas era tarde demais.
Aline já o tinha visto — Paulo Bianchi, impecável como sempre, o paletó escuro contrastando com o ar descontraído do ambiente.
Ele não estava só. Lucas o acompanhava, falando algo animado.
Mas Paulo parecia distraído, até que seus olhos cruzaram os dela.
O tempo parou.
Não houve dúvida. Ele a reconheceu.
Não como Aline — mas como Nina.
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Paulo sentiu o coração acelerar, um reflexo involuntário que o pegou de surpresa.
Ela estava ali.
A mulher misteriosa que ocupara seus pensamentos desde aquela noite.
Nina Alves.
— Paulo? — Lucas o chamou, percebendo o silêncio repentino. — Está tudo bem?
— Está. — Ele respirou fundo, tentando se recompor. — Só achei... alguém conhecido.
Lucas seguiu seu olhar, e um sorriso se formou em seu rosto.
— Ah, então é verdade. A mulher do bar.
— Não começa — murmurou Paulo, mas não conseguiu evitar um leve sorriso. — Ela está diferente hoje... ainda mais bonita.
— Vai lá falar com ela.
— Não — respondeu, firme. — Seria inconveniente.
Mas, enquanto dizia isso, seus olhos voltaram a procurá-la.
E quando ela sorriu discretamente na direção dele, todas as desculpas se tornaram inúteis.
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Aline sabia que aquele momento era perigoso.
Mas quando os olhares se encontraram, todo o resto desapareceu.
Ela sentiu o corpo responder antes da mente.
O coração, a respiração, o calor nas mãos.
Paulo se levantou, hesitou por um segundo — e caminhou até a mesa.
— Boa noite, senhoritas — disse, com o tom calmo e cortês de quem está acostumado a controlar cada palavra. — Posso me juntar a vocês?
Beatriz trocou um olhar rápido com Aline, divertida.
— Claro, senhor Bianchi. Ou devo dizer… Paulo?
Ele sorriu, puxando uma cadeira.
— Acho que prefiro Paulo. Afinal, fora do escritório, podemos ser apenas pessoas, não cargos.
Beatriz levantou-se logo depois, pegando a bolsa.
— Então deixo vocês pessoas conversarem. Tenho um desfile pra organizar.
Deu um beijo na bochecha de Aline e piscou discretamente. — Boa sorte.
Aline tentou protestar, mas era tarde.
Beatriz desapareceu entre as mesas, deixando-os a sós.
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— Então... nos encontramos de novo — disse ele, pousando o copo sobre a mesa.
— Ou talvez o acaso tenha gostado da coincidência — respondeu ela, serena.
— Coincidência ou destino?
— Depende de quanto você acredita em destino.
Ele se inclinou ligeiramente, curioso.
— E você, Nina? Acredita?
O som do nome em sua voz fez o coração dela disparar.
— Acredito que o destino gosta de testar a gente — respondeu, mantendo o olhar. — Principalmente quando tentamos fugir dele.
Paulo riu de leve, impressionado com a segurança que ela exalava.
A mesma mulher da outra noite — e, ao mesmo tempo, completamente nova.
Ele a observava falar, gesticular, rir.
Era natural, envolvente, mas havia algo... familiar. Um detalhe no jeito de tocar o cabelo, na forma como franzia o cenho ao pensar.
Por um momento, ele quase perguntou se ela tinha uma irmã gêmea.
Mas achou melhor guardar o pensamento.
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Conversaram por longas horas.
Dessa vez, ele quis saber tudo sobre ela:
de onde vinha, o que fazia, o que a fazia sorrir.
Aline, em sua versão mais controlada de Nina, teceu respostas com cuidado — sem mentir, mas omitindo o essencial.
Disse que era formada em Letras, que trabalhava com eventos corporativos, e que amava o mar mesmo morando longe dele.
Paulo contou sobre suas viagens, o peso de dirigir um império familiar, a solidão por trás do sucesso.
Ela ouviu cada palavra com atenção sincera.
— Às vezes, tenho a sensação de que o mundo me vê como um robô de terno — confessou ele, olhando para o copo. — Tudo que faço é calculado, controlado.
— E o que você gostaria que vissem? — perguntou ela, suavemente.
Ele pensou por um instante. — O homem, não o CEO.
Aline sorriu, triste e terna.
— Então talvez você só precise deixar que vejam.
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A música ao fundo mudou para algo mais lento.
Paulo estendeu a mão.
— Dança comigo?
Ela hesitou — parte de medo, parte de desejo.
Mas, quando colocou a mão na dele, o mundo pareceu silenciar.
A canção os envolveu, e por um instante, não havia fingimento.
Não havia Aline, nem Nina.
Apenas duas pessoas que se encontravam no meio de tudo o que não podiam dizer.
O toque das mãos, o calor próximo, o ritmo suave.
Ele a olhou nos olhos, e algo dentro dela desmoronou.
A máscara de Nina se confundia com a alma de Aline, e a verdade ameaçava escapar.
Mas, antes que pudesse se perder, ela se afastou.
— Eu... preciso ir.
Paulo franziu o cenho, confuso.
— Fiz algo errado?
Ela negou, forçando um sorriso. — Pelo contrário. Fez tudo certo demais.
E saiu, o coração disparado, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam cair.
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Na rua, o vento frio a despertou.
O reflexo das luzes da cidade tremulava sobre o asfalto molhado, e ela sentiu um nó apertar o peito.
O que estava fazendo?
Quanto tempo poderia manter esse jogo antes que tudo ruísse?
Pegou o celular e digitou uma mensagem para Beatriz:
> “Ele me encontrou. E eu não consegui ser só Nina.”
Beatriz respondeu minutos depois:
> “Talvez seja o momento de entender quem você quer que ele ame — a fantasia ou a verdade.”
Aline guardou o celular e olhou para o céu nublado.
Uma gota de chuva escorreu pelo rosto, fria como o medo, quente como a esperança.
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Naquela mesma noite, Paulo voltou para casa com a sensação estranha de estar dividido entre duas realidades.
Havia algo em Nina que o atraía com força irresistível, mas ao mesmo tempo, algo nela lhe lembrava alguém.
A eficiência calma de Aline, talvez.
A forma como falava, as palavras escolhidas com precisão.
Deitou-se, mas o sono não veio.
O rosto dela o perseguia em cada lembrança — o sorriso, os olhos, a maneira como fugira no final.
E, pela primeira vez, Paulo Bianchi se perguntou se não estava sendo enganado...
ou se, talvez, o verdadeiro engano fosse o dele por nunca ter aprendido a ver além das aparências.