CAPÍTULO 4

1367 Words
Capítulo 4 — Primeiro Encontro O relógio marcava seis da tarde quando Aline fechou o laptop e apoiou a testa sobre as mãos. O escritório, finalmente silencioso, parecia respirar alívio após dias intensos. Ela havia concluído a reunião antecipada com os investidores — e o próprio Paulo elogiara sua eficiência diante de todos. Mas, em vez de satisfação, sentia o coração inquieto. Desde aquela conversa, os olhares dele haviam mudado. Não eram mais frios, neutros. Havia algo neles... curiosidade, talvez. Ou suspeita. E o simples pensamento a fazia estremecer. Ela tentava se convencer de que Nina havia ficado no espelho de casa, guardada sob o batom vermelho e o perfume de jasmim. Mas a verdade era que Nina estava viva dentro dela. E cada vez mais difícil de conter. --- O som do celular rompeu o silêncio. Era uma mensagem de Beatriz: > Bea: “La Ruelle. 21h. Eu, você e um drinque pra comemorar o fim do caos. Nada de desculpas.” Aline sorriu. Precisava daquilo — de uma noite comum, de leveza. Mas, ao abrir o armário, percebeu que não havia nada “comum” em suas escolhas. Os vestidos novos de Nina chamavam sua atenção como se tivessem voz própria. Pegou o vermelho. Suspirou. Talvez só por uma noite. --- O La Ruelle estava movimentado, iluminado pelas luzes suaves que dançavam nas taças de cristal. Aline entrou com passos seguros, o perfume delicado misturando-se ao ar doce do lugar. Beatriz já a esperava em uma das mesas do canto, animada como sempre. — Finalmente! — disse, erguendo a taça. — À nova Aline… ou devo dizer, à eterna Nina? — Às duas — respondeu ela, sorrindo, e brindaram. Conversaram sobre trabalho, viagens, sonhos. Aline se sentia leve — até que Beatriz, com aquele olhar maroto, arqueou as sobrancelhas. — Não olhe agora, mas acho que seu CEO favorito acabou de entrar. Aline engasgou. — O quê?! Beatriz mordeu o lábio, disfarçando a risada. — Eu disse pra não olhar! Mas era tarde demais. Aline já o tinha visto — Paulo Bianchi, impecável como sempre, o paletó escuro contrastando com o ar descontraído do ambiente. Ele não estava só. Lucas o acompanhava, falando algo animado. Mas Paulo parecia distraído, até que seus olhos cruzaram os dela. O tempo parou. Não houve dúvida. Ele a reconheceu. Não como Aline — mas como Nina. --- Paulo sentiu o coração acelerar, um reflexo involuntário que o pegou de surpresa. Ela estava ali. A mulher misteriosa que ocupara seus pensamentos desde aquela noite. Nina Alves. — Paulo? — Lucas o chamou, percebendo o silêncio repentino. — Está tudo bem? — Está. — Ele respirou fundo, tentando se recompor. — Só achei... alguém conhecido. Lucas seguiu seu olhar, e um sorriso se formou em seu rosto. — Ah, então é verdade. A mulher do bar. — Não começa — murmurou Paulo, mas não conseguiu evitar um leve sorriso. — Ela está diferente hoje... ainda mais bonita. — Vai lá falar com ela. — Não — respondeu, firme. — Seria inconveniente. Mas, enquanto dizia isso, seus olhos voltaram a procurá-la. E quando ela sorriu discretamente na direção dele, todas as desculpas se tornaram inúteis. --- Aline sabia que aquele momento era perigoso. Mas quando os olhares se encontraram, todo o resto desapareceu. Ela sentiu o corpo responder antes da mente. O coração, a respiração, o calor nas mãos. Paulo se levantou, hesitou por um segundo — e caminhou até a mesa. — Boa noite, senhoritas — disse, com o tom calmo e cortês de quem está acostumado a controlar cada palavra. — Posso me juntar a vocês? Beatriz trocou um olhar rápido com Aline, divertida. — Claro, senhor Bianchi. Ou devo dizer… Paulo? Ele sorriu, puxando uma cadeira. — Acho que prefiro Paulo. Afinal, fora do escritório, podemos ser apenas pessoas, não cargos. Beatriz levantou-se logo depois, pegando a bolsa. — Então deixo vocês pessoas conversarem. Tenho um desfile pra organizar. Deu um beijo na bochecha de Aline e piscou discretamente. — Boa sorte. Aline tentou protestar, mas era tarde. Beatriz desapareceu entre as mesas, deixando-os a sós. --- — Então... nos encontramos de novo — disse ele, pousando o copo sobre a mesa. — Ou talvez o acaso tenha gostado da coincidência — respondeu ela, serena. — Coincidência ou destino? — Depende de quanto você acredita em destino. Ele se inclinou ligeiramente, curioso. — E você, Nina? Acredita? O som do nome em sua voz fez o coração dela disparar. — Acredito que o destino gosta de testar a gente — respondeu, mantendo o olhar. — Principalmente quando tentamos fugir dele. Paulo riu de leve, impressionado com a segurança que ela exalava. A mesma mulher da outra noite — e, ao mesmo tempo, completamente nova. Ele a observava falar, gesticular, rir. Era natural, envolvente, mas havia algo... familiar. Um detalhe no jeito de tocar o cabelo, na forma como franzia o cenho ao pensar. Por um momento, ele quase perguntou se ela tinha uma irmã gêmea. Mas achou melhor guardar o pensamento. --- Conversaram por longas horas. Dessa vez, ele quis saber tudo sobre ela: de onde vinha, o que fazia, o que a fazia sorrir. Aline, em sua versão mais controlada de Nina, teceu respostas com cuidado — sem mentir, mas omitindo o essencial. Disse que era formada em Letras, que trabalhava com eventos corporativos, e que amava o mar mesmo morando longe dele. Paulo contou sobre suas viagens, o peso de dirigir um império familiar, a solidão por trás do sucesso. Ela ouviu cada palavra com atenção sincera. — Às vezes, tenho a sensação de que o mundo me vê como um robô de terno — confessou ele, olhando para o copo. — Tudo que faço é calculado, controlado. — E o que você gostaria que vissem? — perguntou ela, suavemente. Ele pensou por um instante. — O homem, não o CEO. Aline sorriu, triste e terna. — Então talvez você só precise deixar que vejam. --- A música ao fundo mudou para algo mais lento. Paulo estendeu a mão. — Dança comigo? Ela hesitou — parte de medo, parte de desejo. Mas, quando colocou a mão na dele, o mundo pareceu silenciar. A canção os envolveu, e por um instante, não havia fingimento. Não havia Aline, nem Nina. Apenas duas pessoas que se encontravam no meio de tudo o que não podiam dizer. O toque das mãos, o calor próximo, o ritmo suave. Ele a olhou nos olhos, e algo dentro dela desmoronou. A máscara de Nina se confundia com a alma de Aline, e a verdade ameaçava escapar. Mas, antes que pudesse se perder, ela se afastou. — Eu... preciso ir. Paulo franziu o cenho, confuso. — Fiz algo errado? Ela negou, forçando um sorriso. — Pelo contrário. Fez tudo certo demais. E saiu, o coração disparado, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam cair. --- Na rua, o vento frio a despertou. O reflexo das luzes da cidade tremulava sobre o asfalto molhado, e ela sentiu um nó apertar o peito. O que estava fazendo? Quanto tempo poderia manter esse jogo antes que tudo ruísse? Pegou o celular e digitou uma mensagem para Beatriz: > “Ele me encontrou. E eu não consegui ser só Nina.” Beatriz respondeu minutos depois: > “Talvez seja o momento de entender quem você quer que ele ame — a fantasia ou a verdade.” Aline guardou o celular e olhou para o céu nublado. Uma gota de chuva escorreu pelo rosto, fria como o medo, quente como a esperança. --- Naquela mesma noite, Paulo voltou para casa com a sensação estranha de estar dividido entre duas realidades. Havia algo em Nina que o atraía com força irresistível, mas ao mesmo tempo, algo nela lhe lembrava alguém. A eficiência calma de Aline, talvez. A forma como falava, as palavras escolhidas com precisão. Deitou-se, mas o sono não veio. O rosto dela o perseguia em cada lembrança — o sorriso, os olhos, a maneira como fugira no final. E, pela primeira vez, Paulo Bianchi se perguntou se não estava sendo enganado... ou se, talvez, o verdadeiro engano fosse o dele por nunca ter aprendido a ver além das aparências.
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