Capítulo 3

1380 Words
Capítulo 3 — A Criação de Nina O som da chuva batendo nas janelas acompanhava o ritmo lento da manhã de sábado. Aline estava sentada no sofá da sala, uma caneca de café nas mãos e o olhar fixo em nada. A televisão estava ligada em um programa qualquer, mas ela não ouvia uma palavra. A mente dela voltava, insistentemente, para a noite no La Ruelle. “Nina Alves.” A voz de Paulo ainda ecoava em sua memória. O modo como ele a olhara, curioso, intrigado, sem reconhecer a mulher que via todos os dias. Era como se, por uma única noite, ela tivesse deixado de ser invisível. Mas agora, com o batom removido e os cabelos presos num coque desajeitado, Aline sentia a culpa crescer. Era errado — ela sabia. Mentira, disfarce, fingimento. E, ainda assim, uma parte dela queria mais. --- — Acorda, mulher! — A voz alegre de Beatriz Duarte soou da cozinha, seguida pelo som familiar de chaves e passos apressados. — Trouxe croissants e uma garrafa de espumante. Hoje é dia de colocar sua vida nos trilhos! Aline soltou um suspiro entre a surpresa e o riso. — Beatriz, são nove da manhã. Quem toma espumante a essa hora? — Gente que precisa de coragem. — Beatriz colocou a sacola sobre a mesa e olhou para a amiga com ar de reprovação. — E gente que, segundo o que você me contou ontem, passou por uma noite e tanto. Aline corou. — Eu não devia ter contado... — Devia sim. — Beatriz sorriu. — Afinal, eu sou a responsável por te transformar naquela deusa misteriosa que deixou o seu chefe sem chão. — Ele não sabe que era eu, Bea. E é melhor que continue assim. — Aline apertou a caneca, pensativa. — Foi um erro. Eu devia parar por aqui. — Parar? — Beatriz ergueu as sobrancelhas. — Você finalmente conseguiu fazer o homem notar você — ainda que sem saber — e vai desistir? Ela se aproximou, abaixando o tom. — Aline, há anos você vive escondida atrás de terninhos e óculos. Sempre com medo de chamar atenção. Você não percebe? Essa “Nina” é a versão de você que o mundo precisava conhecer. — Nina é uma mentira — disse Aline, num sussurro. — Ou talvez seja a verdade que você nunca teve coragem de mostrar — rebateu Beatriz, com firmeza. --- Beatriz Duarte era o oposto de Aline em tudo. Alta, de cabelos curtos e sorriso fácil, trabalhava como estilista para campanhas de moda e tinha um talento natural para transformar inseguranças em charme. Ela conhecia Aline desde a faculdade e sabia que por trás da timidez havia uma mulher de força e brilho. E agora, ao ver a amiga com aquele olhar dividido entre culpa e fascínio, decidiu que não permitiria que ela voltasse a se esconder. — Vamos fazer o seguinte — disse, pegando uma pasta de couro da bolsa. — Eu trouxe algumas ideias. Dentro, croquis, recortes de revistas, amostras de tecido. Beatriz espalhou tudo pela mesa de centro, como se montasse um tabuleiro estratégico. — Se você vai ter uma “segunda identidade”, ela precisa ser bem feita. Aline riu, nervosa. — Bea, isso está parecendo uma operação secreta. — E é — respondeu ela, piscando. — Operação “Libertar Aline Méndez”. --- Passaram a manhã definindo cada detalhe. O guarda-roupa, o corte de cabelo, o tipo de maquiagem. Beatriz falava com entusiasmo contagiante. — Nada de ternos cinza. Nina usa cores, texturas. Ela não quer se esconder, quer ser vista. — E se me reconhecerem? — perguntou Aline, ainda receosa. — Ninguém vai. A mudança não está só nas roupas, Aline. Está no olhar. É ali que mora a diferença. Quando terminaram, Beatriz se recostou no sofá, satisfeita. — Pronto. A transformação começa hoje à noite. Aline arregalou os olhos. — Hoje? — Claro! Vamos testar a Nina versão 2.0. E antes que você pergunte: não, não é opcional. --- Mais tarde, em frente ao espelho, Aline m*l se reconheceu. Beatriz havia feito milagres. Os cabelos, agora soltos em ondas, caíam sobre os ombros. O vestido era simples, mas elegante — um azul profundo que realçava seus olhos, antes escondidos atrás dos óculos. Um leve toque de maquiagem completava a transformação. Ela respirou fundo. — Parece outra pessoa. — Não, parece você — corrigiu Beatriz, sorrindo. — Só que sem medo. Aline olhou para o próprio reflexo por mais um instante. Dentro dela, algo começava a despertar — uma confiança nova, um brilho que não sentia há muito tempo. Talvez Beatriz estivesse certa. Talvez Nina fosse, de alguma forma, o lado dela que sempre existira, apenas esperando ser libertado. --- O destino, porém, parecia determinado a brincar com ela. Enquanto caminhava pelas ruas de Pinheiros, o telefone vibrou. Era uma mensagem do escritório. O grupo de investidores espanhóis que viria na segunda-feira havia antecipado a reunião — para domingo. E quem Paulo escolheria para organizar tudo de última hora? Claro. Aline Méndez. Ela suspirou, a mão escorregando sobre o telefone. Por um lado, a notícia a tirava dos planos daquela noite. Por outro… significava mais tempo ao lado de Paulo. E a simples ideia fez o estômago dela revirar. --- No dia seguinte, o escritório estava em ritmo frenético. Aline chegou cedo, organizando pastas, confirmando reservas, revisando relatórios. Paulo parecia mais concentrado que nunca, mas algo nele havia mudado. Havia uma leveza diferente em seus gestos, um brilho discreto nos olhos quando passava por ela. Durante uma pausa, Lucas entrou na sala dele. — Então, ouvi dizer que você sumiu sexta à noite e apareceu no La Ruelle. Encontrou alguém interessante? Paulo desviou o olhar, disfarçando um sorriso. — Talvez. — “Talvez” pra você já é muito. Como ela se chama? — Nina — respondeu, sem perceber o quanto o nome soava estranho na própria voz. Lucas ergueu as sobrancelhas. — E... vai vê-la de novo? Paulo suspirou. — Não sei. Ela parecia... inacessível. Como se não fosse pra mim. Lucas riu. — Pela primeira vez, o grande Paulo Bianchi está sem controle. Adoro isso. Do outro lado da sala, Aline ouviu parte da conversa, o coração disparado. Cada palavra era uma mistura de prazer e culpa. Ele ainda pensava em Nina. Ele ainda pensava nela. --- Naquela noite, em casa, Aline se sentou à mesa com o notebook aberto. O cursor piscava numa nova aba de rede social recém-criada: @nina_alves.oficial Ela hesitou por um instante, então digitou: > “Às vezes, é preciso se perder para descobrir quem se é.” Postou a frase com uma foto do reflexo em um espelho embaçado — sem mostrar o rosto, apenas a silhueta. Beatriz reagiu minutos depois: “É assim que tudo começa.” E começou mesmo. Nos dias seguintes, Aline dividia-se entre a rotina do escritório e o universo secreto que criava nas horas vagas. Como Nina, ela se permitia ser livre — nas palavras, nas imagens, nos pensamentos. E quanto mais alimentava essa versão, mais difícil ficava separar uma da outra. Paulo, por sua vez, parecia distraído, dividido. Durante as reuniões, olhava para Aline como se buscasse algo que não conseguia identificar. Ela notava, claro. Mas fingia não perceber. Até que, numa tarde chuvosa, ele a chamou à sala. — Senhorita Méndez — disse, sem levantar o olhar do computador. — Há algo diferente em você ultimamente. Aline congelou. — Diferente, senhor? — Sim. — Ele finalmente ergueu o olhar. — Está... mais confiante. Um leve sorriso surgiu. — Gostei. Ela respondeu com a voz mais estável que conseguiu. — Apenas tentando fazer meu trabalho, senhor. Mas, por dentro, o coração batia em descompasso. Ele havia notado. E ela não sabia se aquilo a deixava apavorada ou... entusiasmada. --- Naquela noite, ao se olhar no espelho, Aline sorriu de leve. A imagem refletida não era mais só Aline, nem apenas Nina. Era uma fusão das duas — um equilíbrio delicado entre o real e o imaginário. Ela percebeu que, sem planejar, havia dado o primeiro passo para algo muito maior. Algo que poderia libertá-la… ou destruí-la. E no fundo, uma voz sussurrou, doce e perigosa: > “Você queria ser vista, Aline. Agora ele está olhando.”
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