Ela terminou de passar a máquina nos últimos detalhes do degradê, pegou a tesoura para alinhar a franja e, por fim, passou um pouco de pomada.
Ajeitou o cabelo dele com as mãos e deu um passo para trás.
— Pronto.
Dogão olhou o reflexo no espelho por alguns segundos.
Passou a mão no cabelo.
Depois sorriu.
— Caralho...
Virou o rosto para ela.
— Tu não erra nunca, Ula.
Ela deu um sorriso discreto.
— Exagerado.
— Não tô exagerando, não. É você que me deixa bonito.
Ela riu.
— Nada disso. Você já nasceu bonito.
Dogão arqueou a sobrancelha.
— Humm... elogio?
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Não se sente muito, tá?
Ele levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— Pô... já tava até gostando.
Os dois riram.
Dogão olhou o calendário preso na parede.
— Essa semana é meu aniversário.
Ela abriu um sorriso.
— É verdade.
Olhou pra ele de cima a baixo.
— Tá ficando velhinho.
— Velhinho não, p***a.
Ela entrou na brincadeira.
— Daqui a pouco começam a aparecer os cabelos brancos.
Ele passou a mão no cabelo.
— Então vou viver de degradê.
Ela caiu na gargalhada.
— Resolve mesmo.
Dogão sorriu.
— Vou fazer um churrasco lá em cima no final de semana. Pagode, carne, a rapaziada toda...
Fez uma pequena pausa.
— E eu queria muito que você fosse.
Ela olhou para ele.
— Eu?
— Você... a Jéssica... e se dona Gracinha quiser aparecer também, vai ser uma honra.
Ula sorriu.
— Minha mãe, se for, vai só dar os parabéns e depois descer.
Ele riu.
— Por quê?
— Ela não é muito de festa. Música alta, bebida... não faz muito o estilo dela.
— Eu entendo.
Ele apontou pra ela.
— Mas você vai ficar.
Ela riu.
— Ah, vou?
— Vai.
Ele sorriu.
— Vai dar um show sambando igual deu naquele baile.
Ela balançou a cabeça, sem graça.
— Para.
— Todo mundo sabe.
Ela cruzou os braços.
— Sabe o quê?
— Que tu é a melhor dançarina desse morro.
Ela riu.
— Exagerado.
— Depois vem tua irmã.
Ela olhou pra ele, divertida.
— Agora tu tá fazendo ranking?
Os dois riram.
Ela respondeu:
— Claro que eu vou.
Fez uma pausa.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
Ela ficou alguns segundos pensando.
— O Orelha tá gostando da Jéssica, né?
Dogão sorriu sem esconder.
— Tá.
— E ela...
Ele riu.
— Também tá animadinha.
Ula abaixou um pouco a cabeça, pensativa.
— E o que você acha disso?
Dogão respondeu tranquilo.
— Acho que ele tá falando sério.
Ela respirou fundo.
— O Orelha é um cara maneiro. É teu braço direito, teu amigo de confiança...
Fez uma pequena pausa.
— Se ele realmente quiser um relacionamento sério com ela... eu vou ficar feliz.
Dogão assentiu.
— Eu sei.
Ela continuou.
— Minha irmã é muito tranquila, Dogão. Você sabe.
Ele respondeu sem pensar.
— Sei.
— Ela nunca teve relacionamento.
Sorriu de leve.
— Eu tive um só... quando tinha dezesseis anos.
O sorriso desapareceu por um instante.
— Durou um ano e meio.
Ela deu de ombros.
— Não gosto nem de lembrar.
Dogão apenas ouviu.
— Então eu só quero ter certeza de que ela não vai sofrer.
Ele concordou.
— Eu conversei muito com o Orelha.
Fez uma pausa.
— E vou conversar de novo.
Ela levantou os olhos.
— Vai?
— Vou.
Sorriu.
— Porque vocês duas são mulheres de respeito.
Ela agradeceu apenas com um sorriso.
Dogão perguntou:
— E dona Gracinha?
— O quê?
— Gostaria dele como genro?
Ula riu.
— Com certeza.
— Ela gosta muito de vocês.
Dogão levou a mão ao peito.
— Tô incluído nesse "vocês"?
Ela deu uma risada.
— Tá falando demais já.
Apontou para a porta.
— Tá na hora de subir, chefe. O morro não se comanda sozinho.
Ele riu.
— Tá fugindo da conversa, né?
Ela deu de ombros.
— Talvez.
Dogão caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou mais uma vez para ela.
— Então gostei de saber que tua mãe me aceitaria como genro.
Ula levou a mão à testa, rindo.
— Vai embora, Dogão.
— Tá me expulsando do salão?
— Tô.
Ela apontou para a rua.
— Vai trabalhar.
Ele abriu a porta ainda sorrindo.
— Até o churrasco.
— Até.
— E se cuida.
Ela fez um gesto positivo.
— Você também.
Dogão saiu.
Ula ficou alguns segundos olhando a porta já fechada.
Depois sorriu sozinha, balançou a cabeça e voltou a organizar o salão.
Naquele instante, as primeiras funcionárias começaram a chegar, e a rotina do dia recomeçou como se nada tivesse acontecido.
Dogão deixou o salão ainda com um meio sorriso no rosto.
Assim que saiu, os vapores que aguardavam mais afastados voltaram a acompanhar o chefe.
As motos ligaram uma atrás da outra.
O comboio começou a subir o morro.
Negão seguia na frente com alguns homens, enquanto os outros fechavam a retaguarda.
O rádio chiava de vez em quando.
No alto do morro, Orelha já organizava a movimentação dos vapores quando viu a caminhonete blindada estacionar.
Dogão desceu tranquilo.
Negão se aproximou.
— Tudo certo, chefe.
— Tudo.
Dogão respondeu, entrando na área da boca.
Assim que avistou Orelha, fez um sinal com a cabeça.
— Vem cá.
Orelha acompanhou ele até um canto mais reservado.
Olhou pra cara do amigo e começou a rir.
— Ih... essa cara aí eu conheço.
Dogão acendeu um cigarro.
— Acabei de sair do salão.
Orelha abriu um sorriso ainda maior.
— E aí?
Dogão deu uma tragada.
— Conversamos pra c*****o.
— Sobre?
Dogão começou a contar.
— Convidei ela pro churrasco do meu aniversário. Convidei a Jéssica e a dona Gracinha também.
Orelha assentiu.
— Aí sim.
— Ela disse que vai.
— Sabia.
Dogão continuou.
— Perguntou de tu.
Orelha arregalou os olhos.
— De mim?
— Perguntou se tu tava gostando da irmã dela.
Orelha soltou uma gargalhada.
— Caralho...
— Eu falei que sim.
— E ela?
Dogão sorriu.
— Disse que gosta de tu. Que tu é um cara responsável. Mas que só quer ter certeza que tu quer coisa séria com a irmã dela.
Orelha ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu de verdade.
— Pode falar pra ela ficar tranquila.
Dogão bateu de leve no ombro dele.
— Eu já falei.
Orelha respirou aliviado.
— Ainda bem.
Dogão continuou.
— Depois ela falou que a mãe dela aceitaria tu como genro.
Orelha começou a rir.
— Porra... já tô aprovado pela sogra sem nem namorar.
Dogão caiu na gargalhada.
— Aí eu perguntei se eu tava incluído também.
Orelha parou de rir por um segundo.
— E aí?
Dogão deu um sorriso de canto.
— Ela não respondeu.
— Não respondeu?
— Mandou eu subir o morro trabalhar.
Os dois caíram na risada.
Orelha balançava a cabeça.
— Caralho...
Apontou o dedo pro amigo.
— Vocês tão flertando legal, hein, p***a.
Dogão deu outra tragada no cigarro, tentando disfarçar.
— Tá viajando.
— Viajando nada.
Orelha continuou rindo.
— Ela te chama de bonito... tu chama ela pro churrasco... pergunta da família... fala de genro... ela manda tu ir trabalhar rindo...
Ele bateu no braço do chefe.
— Isso aí já é flerte, chefe.
Dogão riu, balançando a cabeça.
— Tu fala demais.
Orelha respondeu na hora:
— E tu tá apaixonado pra c*****o.
Dogão não respondeu.
Só olhou por um instante na direção da descida do morro, onde ficava o salão.
Orelha percebeu o silêncio e sorriu de canto.
— É... eu acertei mesmo.