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1281 Words
Ela terminou de passar a máquina nos últimos detalhes do degradê, pegou a tesoura para alinhar a franja e, por fim, passou um pouco de pomada. Ajeitou o cabelo dele com as mãos e deu um passo para trás. — Pronto. Dogão olhou o reflexo no espelho por alguns segundos. Passou a mão no cabelo. Depois sorriu. — Caralho... Virou o rosto para ela. — Tu não erra nunca, Ula. Ela deu um sorriso discreto. — Exagerado. — Não tô exagerando, não. É você que me deixa bonito. Ela riu. — Nada disso. Você já nasceu bonito. Dogão arqueou a sobrancelha. — Humm... elogio? Ela balançou a cabeça, divertida. — Não se sente muito, tá? Ele levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido. — Pô... já tava até gostando. Os dois riram. Dogão olhou o calendário preso na parede. — Essa semana é meu aniversário. Ela abriu um sorriso. — É verdade. Olhou pra ele de cima a baixo. — Tá ficando velhinho. — Velhinho não, p***a. Ela entrou na brincadeira. — Daqui a pouco começam a aparecer os cabelos brancos. Ele passou a mão no cabelo. — Então vou viver de degradê. Ela caiu na gargalhada. — Resolve mesmo. Dogão sorriu. — Vou fazer um churrasco lá em cima no final de semana. Pagode, carne, a rapaziada toda... Fez uma pequena pausa. — E eu queria muito que você fosse. Ela olhou para ele. — Eu? — Você... a Jéssica... e se dona Gracinha quiser aparecer também, vai ser uma honra. Ula sorriu. — Minha mãe, se for, vai só dar os parabéns e depois descer. Ele riu. — Por quê? — Ela não é muito de festa. Música alta, bebida... não faz muito o estilo dela. — Eu entendo. Ele apontou pra ela. — Mas você vai ficar. Ela riu. — Ah, vou? — Vai. Ele sorriu. — Vai dar um show sambando igual deu naquele baile. Ela balançou a cabeça, sem graça. — Para. — Todo mundo sabe. Ela cruzou os braços. — Sabe o quê? — Que tu é a melhor dançarina desse morro. Ela riu. — Exagerado. — Depois vem tua irmã. Ela olhou pra ele, divertida. — Agora tu tá fazendo ranking? Os dois riram. Ela respondeu: — Claro que eu vou. Fez uma pausa. — Posso te fazer uma pergunta? — Claro. Ela ficou alguns segundos pensando. — O Orelha tá gostando da Jéssica, né? Dogão sorriu sem esconder. — Tá. — E ela... Ele riu. — Também tá animadinha. Ula abaixou um pouco a cabeça, pensativa. — E o que você acha disso? Dogão respondeu tranquilo. — Acho que ele tá falando sério. Ela respirou fundo. — O Orelha é um cara maneiro. É teu braço direito, teu amigo de confiança... Fez uma pequena pausa. — Se ele realmente quiser um relacionamento sério com ela... eu vou ficar feliz. Dogão assentiu. — Eu sei. Ela continuou. — Minha irmã é muito tranquila, Dogão. Você sabe. Ele respondeu sem pensar. — Sei. — Ela nunca teve relacionamento. Sorriu de leve. — Eu tive um só... quando tinha dezesseis anos. O sorriso desapareceu por um instante. — Durou um ano e meio. Ela deu de ombros. — Não gosto nem de lembrar. Dogão apenas ouviu. — Então eu só quero ter certeza de que ela não vai sofrer. Ele concordou. — Eu conversei muito com o Orelha. Fez uma pausa. — E vou conversar de novo. Ela levantou os olhos. — Vai? — Vou. Sorriu. — Porque vocês duas são mulheres de respeito. Ela agradeceu apenas com um sorriso. Dogão perguntou: — E dona Gracinha? — O quê? — Gostaria dele como genro? Ula riu. — Com certeza. — Ela gosta muito de vocês. Dogão levou a mão ao peito. — Tô incluído nesse "vocês"? Ela deu uma risada. — Tá falando demais já. Apontou para a porta. — Tá na hora de subir, chefe. O morro não se comanda sozinho. Ele riu. — Tá fugindo da conversa, né? Ela deu de ombros. — Talvez. Dogão caminhou até a porta. Antes de sair, olhou mais uma vez para ela. — Então gostei de saber que tua mãe me aceitaria como genro. Ula levou a mão à testa, rindo. — Vai embora, Dogão. — Tá me expulsando do salão? — Tô. Ela apontou para a rua. — Vai trabalhar. Ele abriu a porta ainda sorrindo. — Até o churrasco. — Até. — E se cuida. Ela fez um gesto positivo. — Você também. Dogão saiu. Ula ficou alguns segundos olhando a porta já fechada. Depois sorriu sozinha, balançou a cabeça e voltou a organizar o salão. Naquele instante, as primeiras funcionárias começaram a chegar, e a rotina do dia recomeçou como se nada tivesse acontecido. Dogão deixou o salão ainda com um meio sorriso no rosto. Assim que saiu, os vapores que aguardavam mais afastados voltaram a acompanhar o chefe. As motos ligaram uma atrás da outra. O comboio começou a subir o morro. Negão seguia na frente com alguns homens, enquanto os outros fechavam a retaguarda. O rádio chiava de vez em quando. No alto do morro, Orelha já organizava a movimentação dos vapores quando viu a caminhonete blindada estacionar. Dogão desceu tranquilo. Negão se aproximou. — Tudo certo, chefe. — Tudo. Dogão respondeu, entrando na área da boca. Assim que avistou Orelha, fez um sinal com a cabeça. — Vem cá. Orelha acompanhou ele até um canto mais reservado. Olhou pra cara do amigo e começou a rir. — Ih... essa cara aí eu conheço. Dogão acendeu um cigarro. — Acabei de sair do salão. Orelha abriu um sorriso ainda maior. — E aí? Dogão deu uma tragada. — Conversamos pra c*****o. — Sobre? Dogão começou a contar. — Convidei ela pro churrasco do meu aniversário. Convidei a Jéssica e a dona Gracinha também. Orelha assentiu. — Aí sim. — Ela disse que vai. — Sabia. Dogão continuou. — Perguntou de tu. Orelha arregalou os olhos. — De mim? — Perguntou se tu tava gostando da irmã dela. Orelha soltou uma gargalhada. — Caralho... — Eu falei que sim. — E ela? Dogão sorriu. — Disse que gosta de tu. Que tu é um cara responsável. Mas que só quer ter certeza que tu quer coisa séria com a irmã dela. Orelha ficou alguns segundos em silêncio. Depois sorriu de verdade. — Pode falar pra ela ficar tranquila. Dogão bateu de leve no ombro dele. — Eu já falei. Orelha respirou aliviado. — Ainda bem. Dogão continuou. — Depois ela falou que a mãe dela aceitaria tu como genro. Orelha começou a rir. — Porra... já tô aprovado pela sogra sem nem namorar. Dogão caiu na gargalhada. — Aí eu perguntei se eu tava incluído também. Orelha parou de rir por um segundo. — E aí? Dogão deu um sorriso de canto. — Ela não respondeu. — Não respondeu? — Mandou eu subir o morro trabalhar. Os dois caíram na risada. Orelha balançava a cabeça. — Caralho... Apontou o dedo pro amigo. — Vocês tão flertando legal, hein, p***a. Dogão deu outra tragada no cigarro, tentando disfarçar. — Tá viajando. — Viajando nada. Orelha continuou rindo. — Ela te chama de bonito... tu chama ela pro churrasco... pergunta da família... fala de genro... ela manda tu ir trabalhar rindo... Ele bateu no braço do chefe. — Isso aí já é flerte, chefe. Dogão riu, balançando a cabeça. — Tu fala demais. Orelha respondeu na hora: — E tu tá apaixonado pra c*****o. Dogão não respondeu. Só olhou por um instante na direção da descida do morro, onde ficava o salão. Orelha percebeu o silêncio e sorriu de canto. — É... eu acertei mesmo.
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