O morro ainda despertava.
As portas dos comércios começavam a abrir, algumas motos passavam pelas vielas, e o salão de Ula ainda estava vazio.
Ela levantou a porta de aço, ligou as luzes e começou a organizar os materiais do primeiro atendimento do dia.
As outras funcionárias ainda nem tinham chegado.
Foi quando a porta abriu novamente.
Dogão entrou.
Usava uma camiseta preta simples, calça jeans e boné. Sem a movimentação de costume ao redor, parecia apenas mais um cliente chegando cedo.
Ele sorriu de leve.
— Bom dia.
Ula levantou os olhos e sorriu de volta.
— Bom dia.
Ela olhou o relógio.
— Nossa... chegou cedo hoje.
Ele deu uma risada baixa.
— Nem consegui dormir direito.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
Ele passou a mão na nuca.
— Costas. Tá doendo pra c*****o.
Ela fez uma expressão de quem já esperava.
— Eu imaginei.
Apontou para o corredor.
— Quer começar pela massagem?
— Prefiro.
Ele respondeu sem pensar duas vezes.
— Muito. Acho que hoje eu tô precisando mais da massagem do que do corte.
Ela sorriu.
— Então vamos.
Os dois seguiram até a sala reservada.
Ula fechou a porta, deixando o ambiente silencioso.
A música ambiente tocava baixinho.
Ela preparou os óleos e organizou a maca.
— Pode deitar de bruços.
Dogão tirou a camiseta, revelando as costas largas cobertas por tatuagens, e deitou na maca.
Ula colocou um lençol sobre a parte inferior do corpo para preservar o conforto dele durante o atendimento.
Ela aqueceu um pouco do óleo nas mãos.
— Me avisa se apertar demais.
— Pode apertar sem medo.
Ela apoiou as mãos sobre os ombros dele.
Logo no primeiro toque, percebeu a musculatura completamente rígida.
— Nossa...
Ela balançou a cabeça.
— Você não tava brincando.
Dogão soltou um riso cansado.
— Eu falei.
Ela começou a trabalhar devagar, fazendo movimentos lentos sobre os ombros, a nuca e toda a parte superior das costas.
Alguns segundos depois...
— Caralho...
Ele fechou os olhos.
— Tá r**m mesmo?
Ela perguntou.
— Não.
Ele sorriu de olhos fechados.
— Tá bom pra c*****o.
Ula riu baixinho.
— Ainda nem comecei direito.
Ela foi descendo pelas costas, encontrando vários pontos tensos.
Quando pressionou um deles, ele respirou fundo.
— Aí...
Ela diminuiu um pouco a força.
— Muito sensível?
— Não... continua.
Ela assentiu.
— Você acumulou muita tensão essa semana.
— Foi puxada.
Ela continuou o trabalho, alternando pressão e alongamentos.
Poucos minutos depois, a respiração dele já estava mais lenta.
O semblante, antes fechado, começava a relaxar.
Ula sorriu discretamente.
— Tá vendo?
Ele murmurou, quase sonolento:
— Só tu consegue fazer minhas costas pararem de reclamar.
Ela deu uma risadinha.
— Não exagera.
— Não é exagero.
Ela continuou a massagem em silêncio, concentrada no trabalho.
Por alguns minutos, naquele quartinho simples do salão, não existia chefe do morro nem preocupações lá fora.
Existiam apenas uma profissional exercendo o seu ofício com dedicação... e um cliente que, pela primeira vez em muitos dias, conseguia finalmente relaxar.
O ambiente permanecia tranquilo.
A música baixa preenchia o silêncio enquanto Ula continuava a massagem.
As mãos dela percorriam os ombros, a região das escápulas, a lombar, sempre com movimentos firmes e precisos.
De vez em quando ela encontrava um ponto mais tenso.
— Aqui tá bem preso...
Ela pressionou devagar.
Dogão respirou fundo.
— Caralho...
Ela sorriu.
— Tá doendo?
— Tá... mas é aquela dor boa.
Ela riu baixinho.
— Eu sei qual é.
Continuou trabalhando mais alguns minutos, alternando movimentos de relaxamento e alongamento muscular.
Aos poucos, a musculatura dele foi cedendo.
A expressão fechada deu lugar a um semblante tranquilo.
Ele parecia quase cochilar.
Ula terminou os últimos movimentos, pegou uma toalha limpa e retirou o excesso do óleo das costas dele.
Depois deu dois tapinhas leves no ombro dele.
— Pronto.
Ele abriu os olhos devagar.
— Acabou?
Ela sorriu.
— Acabou.
Dogão soltou uma risada.
— Passou rápido demais.
— Porque você relaxou.
Ele sentou na maca, movimentando os ombros de um lado para o outro.
Fez um círculo com o pescoço.
Depois olhou para ela.
— Caralho...
Ela cruzou os braços, divertida.
— Melhorou?
Ele sorriu.
— Parece que tirou umas cinquenta toneladas das minhas costas.
Ela deu uma risadinha.
— Missão cumprida, então.
Enquanto organizava os materiais, perguntou naturalmente:
— Então... depilação acho que ainda não tá na hora, né?
Olhou rapidamente para ele.
— Ou prefere fazer o corte hoje?
Dogão passou a mão no rosto, pensando.
— Depilação ainda dá pra esperar mais um pouco.
Ela assentiu.
— Também achei.
Ele passou a mão no cabelo.
— Mas o corte já tá começando a perder o formato.
Ela sorriu.
— Então vamos deixar bonito de novo.
Ele levantou da maca.
— Bora.
Os dois saíram da sala reservada e voltaram para a cadeira de corte.
Ula colocou a capa nele e passou os dedos pelos cabelos dele, analisando.
— É... realmente cresceu um pouquinho.
Dogão olhava o reflexo dela pelo espelho.
— Confio em você.
Ela sorriu sem desviar a atenção do trabalho.
— Ainda bem... porque agora já era. Se eu errar, não tem volta.
Ele riu.
— Nunca errou comigo.
Ela ligou a máquina de cortar cabelo.
— Então vamos manter a tradição.
O som da máquina encheu o salão, que começava a ganhar movimento com a chegada das primeiras funcionárias, enquanto a rotina dos dois seguia da mesma forma de sempre: leve, respeitosa e cheia de uma confiança construída atendimento após atendimento.