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924 Words
O morro ainda despertava. As portas dos comércios começavam a abrir, algumas motos passavam pelas vielas, e o salão de Ula ainda estava vazio. Ela levantou a porta de aço, ligou as luzes e começou a organizar os materiais do primeiro atendimento do dia. As outras funcionárias ainda nem tinham chegado. Foi quando a porta abriu novamente. Dogão entrou. Usava uma camiseta preta simples, calça jeans e boné. Sem a movimentação de costume ao redor, parecia apenas mais um cliente chegando cedo. Ele sorriu de leve. — Bom dia. Ula levantou os olhos e sorriu de volta. — Bom dia. Ela olhou o relógio. — Nossa... chegou cedo hoje. Ele deu uma risada baixa. — Nem consegui dormir direito. Ela franziu a testa. — Por quê? Ele passou a mão na nuca. — Costas. Tá doendo pra c*****o. Ela fez uma expressão de quem já esperava. — Eu imaginei. Apontou para o corredor. — Quer começar pela massagem? — Prefiro. Ele respondeu sem pensar duas vezes. — Muito. Acho que hoje eu tô precisando mais da massagem do que do corte. Ela sorriu. — Então vamos. Os dois seguiram até a sala reservada. Ula fechou a porta, deixando o ambiente silencioso. A música ambiente tocava baixinho. Ela preparou os óleos e organizou a maca. — Pode deitar de bruços. Dogão tirou a camiseta, revelando as costas largas cobertas por tatuagens, e deitou na maca. Ula colocou um lençol sobre a parte inferior do corpo para preservar o conforto dele durante o atendimento. Ela aqueceu um pouco do óleo nas mãos. — Me avisa se apertar demais. — Pode apertar sem medo. Ela apoiou as mãos sobre os ombros dele. Logo no primeiro toque, percebeu a musculatura completamente rígida. — Nossa... Ela balançou a cabeça. — Você não tava brincando. Dogão soltou um riso cansado. — Eu falei. Ela começou a trabalhar devagar, fazendo movimentos lentos sobre os ombros, a nuca e toda a parte superior das costas. Alguns segundos depois... — Caralho... Ele fechou os olhos. — Tá r**m mesmo? Ela perguntou. — Não. Ele sorriu de olhos fechados. — Tá bom pra c*****o. Ula riu baixinho. — Ainda nem comecei direito. Ela foi descendo pelas costas, encontrando vários pontos tensos. Quando pressionou um deles, ele respirou fundo. — Aí... Ela diminuiu um pouco a força. — Muito sensível? — Não... continua. Ela assentiu. — Você acumulou muita tensão essa semana. — Foi puxada. Ela continuou o trabalho, alternando pressão e alongamentos. Poucos minutos depois, a respiração dele já estava mais lenta. O semblante, antes fechado, começava a relaxar. Ula sorriu discretamente. — Tá vendo? Ele murmurou, quase sonolento: — Só tu consegue fazer minhas costas pararem de reclamar. Ela deu uma risadinha. — Não exagera. — Não é exagero. Ela continuou a massagem em silêncio, concentrada no trabalho. Por alguns minutos, naquele quartinho simples do salão, não existia chefe do morro nem preocupações lá fora. Existiam apenas uma profissional exercendo o seu ofício com dedicação... e um cliente que, pela primeira vez em muitos dias, conseguia finalmente relaxar. O ambiente permanecia tranquilo. A música baixa preenchia o silêncio enquanto Ula continuava a massagem. As mãos dela percorriam os ombros, a região das escápulas, a lombar, sempre com movimentos firmes e precisos. De vez em quando ela encontrava um ponto mais tenso. — Aqui tá bem preso... Ela pressionou devagar. Dogão respirou fundo. — Caralho... Ela sorriu. — Tá doendo? — Tá... mas é aquela dor boa. Ela riu baixinho. — Eu sei qual é. Continuou trabalhando mais alguns minutos, alternando movimentos de relaxamento e alongamento muscular. Aos poucos, a musculatura dele foi cedendo. A expressão fechada deu lugar a um semblante tranquilo. Ele parecia quase cochilar. Ula terminou os últimos movimentos, pegou uma toalha limpa e retirou o excesso do óleo das costas dele. Depois deu dois tapinhas leves no ombro dele. — Pronto. Ele abriu os olhos devagar. — Acabou? Ela sorriu. — Acabou. Dogão soltou uma risada. — Passou rápido demais. — Porque você relaxou. Ele sentou na maca, movimentando os ombros de um lado para o outro. Fez um círculo com o pescoço. Depois olhou para ela. — Caralho... Ela cruzou os braços, divertida. — Melhorou? Ele sorriu. — Parece que tirou umas cinquenta toneladas das minhas costas. Ela deu uma risadinha. — Missão cumprida, então. Enquanto organizava os materiais, perguntou naturalmente: — Então... depilação acho que ainda não tá na hora, né? Olhou rapidamente para ele. — Ou prefere fazer o corte hoje? Dogão passou a mão no rosto, pensando. — Depilação ainda dá pra esperar mais um pouco. Ela assentiu. — Também achei. Ele passou a mão no cabelo. — Mas o corte já tá começando a perder o formato. Ela sorriu. — Então vamos deixar bonito de novo. Ele levantou da maca. — Bora. Os dois saíram da sala reservada e voltaram para a cadeira de corte. Ula colocou a capa nele e passou os dedos pelos cabelos dele, analisando. — É... realmente cresceu um pouquinho. Dogão olhava o reflexo dela pelo espelho. — Confio em você. Ela sorriu sem desviar a atenção do trabalho. — Ainda bem... porque agora já era. Se eu errar, não tem volta. Ele riu. — Nunca errou comigo. Ela ligou a máquina de cortar cabelo. — Então vamos manter a tradição. O som da máquina encheu o salão, que começava a ganhar movimento com a chegada das primeiras funcionárias, enquanto a rotina dos dois seguia da mesma forma de sempre: leve, respeitosa e cheia de uma confiança construída atendimento após atendimento.
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