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971 Words
A reinauguração da pensão da dona Gracinha tinha virado praticamente um evento no morro. O lugar estava cheio. Mesa ocupada de ponta a ponta, cheiro de comida caseira espalhando pelo ar, risadas altas misturadas com o barulho de prato e talher. Galinha caipira, costela desmanchando, carne de panela, frango à milanesa, lasanha, escondidinho… tudo servido sem parar. Os vapores estavam espalhados pelas mesas, comendo como se fosse dia de festa mesmo. Orelha, Dogão e outros homens do movimento também estavam ali, misturados com os moradores. Ninguém estava armado pra guerra. Era só comida, conversa e um raro clima leve no meio do morro. — Essa comida tá absurda, p***a… — um dos vapores comentou, já repetindo o prato. Orelha riu. — Tu só fala isso porque tá com fome desde ontem. — Cala a boca, deixa eu comer. As duas mesas riram juntas. Do outro lado, dona Gracinha não parava. Ia de mesa em mesa, sorrindo, servindo, ouvindo elogio, emocionada. — Tia Gracinha, isso aqui tá melhor que restaurante de rico! — alguém falou. Ela riu, emocionada. — Para com isso, menino… Mas o sorriso não saía do rosto. Ula tinha fechado o salão naquele dia. Queria estar ali. Ela estava ao lado da mãe e de Jéssica, ajudando, recebendo pessoas, conversando com os clientes antigos da pensão. As três chamavam atenção sem nem tentar. Ula estava com um vestido leve, elegante, os cabelos loiros presos em um coque charmoso. As tatuagens apareciam discretas quando ela se mexia — a borboleta no pescoço, os traços nas costas e nos braços dando aquele contraste forte com a delicadeza do vestido. Jéssica estava ao lado, igualmente bonita, loira, olhos verdes, sorriso leve. Duas presenças que faziam até o ambiente parecer mais iluminado. — Essas meninas cresceram demais… — uma das moradoras comentou baixinho. — Lindas demais, meu Deus. Dona Gracinha ouviu e sorriu orgulhosa. — São minhas filhas. Ula passou o braço na mãe. — E sua pensão voltou melhor do que nunca, mãe. A mulher riu, emocionada. — Voltei mesmo, minha filha… voltei por vocês. Enquanto isso, do outro lado do salão, Orelha observava a movimentação. Ele cutucou n***o. — Olha isso aí… — O quê? Orelha fez um gesto com a cabeça em direção a Ula. — Essa mulher aí não parece de morro não, p***a… Dogão riu. — Parece é chefe de tudo. Orelha soltou um sorriso. — E a irmã também… Dogão deu um gole na bebida. — Tá tudo em casa, então. Os dois riram. Em outro canto, Ula ajudava a mãe a servir uma mesa quando sentiu o celular vibrar no bolso. Ela olhou rápido. Não respondeu. Só guardou de volta. E voltou a sorrir para os clientes. A pensão continuava cheia, viva, barulhenta — mas com uma energia diferente daquela que o morro costumava ter. Parecia, por algumas horas, que tudo ali era só família, comida boa e recomeço. A mesa deles já estava meio caótica de tanta comida. Pratos vazios, outros pela metade, copos encostados de qualquer jeito. Dogão e Orelha estavam literalmente largados nas cadeiras, com aquela cara de quem comeu bem demais e não se arrependeu nem um pouco. Quando Jéssica e Ula se aproximaram, os dois levantaram o olhar ao mesmo tempo. — E aí… foram bem servidos? — Ula perguntou, com um sorriso leve. Orelha foi o primeiro a responder, rindo. — Bem servidos é pouco. Eu tô em estado de emergência aqui. Dogão soltou um riso baixo. — Não aguento mais não. Se eu comer mais um pedaço eu não subo esse morro nem amanhã. Jéssica cruzou os braços, divertida. — Ah, para. Ainda tem sobremesa. Orelha arregalou os olhos. — Ainda tem sobremesa?! Dogão passou a mão na barriga. — Isso não pode ser sério. Ula riu. — É sério. Jéssica entrou na brincadeira: — Tem pudim de leite condensado, mousse de maracujá, mousse de limão… Ula completou: — Bombom de brigadeiro com morango, canjica, cuscuz doce, bolo de chocolate recheado com ninho e morango… Jéssica finalizou, empolgada: — E torta de morango da Norf. Orelha soltou uma risada alta. — Isso é golpe baixo, p***a. Dogão balançou a cabeça, rindo. — Vocês tão querendo matar a gente de tanto comer. Ula deu de ombros. — É pra isso mesmo. Jéssica apontou pra ele. — Você reclamou alguma vez da comida da minha mãe? Orelha levantou as mãos. — Nunca, nunca. Dogão olhou pra Ula e soltou, brincando: — Sabe o que é pior? — O quê? — ela perguntou. — Eu tô quase fazendo a mesma proposta que o Orelha fez pra tua irmã. A mesa toda explodiu em risada. Orelha bateu na mesa. — Aí tu me derruba, chefe! Jéssica riu alto. — Vocês são doidos! Ula balançou a cabeça, rindo também. — Vocês dois não têm limite, né? Dogão apontou pra mesa. — Não tem como não pensar nisso. Imagina comer isso todo dia. Orelha concordou, ainda rindo. — Eu casei sem nem ver. Jéssica cruzou os braços. — Deixa de ser bobo. Ula olhou pra Dogão, divertida. — E amanhã você aparece lá no salão, hein? Ele arqueou a sobrancelha. — Pra quê? — Massagem. Orelha riu alto. — Tá travado já, chefe! Dogão soltou um riso. — Pior que é verdade… Ula deu um sorriso satisfeito. — Então tá resolvido. Ele apontou pra ela. — Tá vendo? Já tá mandando em mim. — Tô nada. Ela riu. — Tô só cuidando do cliente. Os dois se olharam por um segundo a mais do que o necessário. Mas logo o clima leve voltou, com Orelha pedindo pra ver qual sobremesa vinha primeiro. E a mesa deles, entre risadas, brincadeiras e comida boa, parecia por um instante só mais uma família reunida — longe de qualquer tensão do morro, só vivendo aquele raro momento de paz.
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