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963 Words
Suzana ficou alguns segundos em silêncio, o olhar tremendo entre raiva e humilhação. — Tá bom… — ela soltou, a voz baixa. — Se você prefere me chutar por causa dela, tudo bem. Dogão nem piscou. Ela respirou fundo, tentando manter a pose. — Você vai se arrepender disso. Ele respondeu na hora, sem elevar o tom: — Vou falar uma última vez. O clima pesou ainda mais. Dogão deu um passo à frente. — Se você se aproximar dela… ou de qualquer pessoa da família dela… do salão… da pensão… de qualquer lugar que seja dela… Ele pausou, encarando direto. — Você vai ser expulsa daqui. Silêncio. Suzana franziu a testa. — Eu? Dogão continuou, firme: — Você e tua família inteira. Ela arregalou os olhos. — Você não faria isso… Ele inclinou levemente a cabeça. — Quer pagar pra ver? A frase saiu calma, mas carregada. Dogão deu uma tragada no cigarro, soltando a fumaça devagar. — Aqui tem lei. Ele apontou com o queixo para o morro inteiro. — E hoje tu tá aprendendo isso. Suzana ficou parada, sem reação por alguns segundos. — Vai sair só com a roupa do corpo… se eu precisar te mandar sair agora. A voz dele ficou mais fria. — Então escolhe. Silêncio total. Ela engoliu seco, o orgulho quebrando aos poucos. Por fim, virou as costas. E desceu. Ninguém falou nada enquanto ela atravessava o espaço, passando pelos vapores, pelo Orelha e pelos outros homens, todos apenas observando em silêncio. Quando sumiu pela descida do morro, o ambiente ainda ficou pesado. Orelha se aproximou devagar. — Ela não tá com cara de que vai deixar isso em paz, não. Dogão não tirou os olhos da direção onde ela foi embora. — Também acho. Ele respirou fundo. — Redobra a proteção. Orelha assentiu na hora. — De quem? Dogão foi direto, já com a cabeça trabalhando. — Casa da Gracinha… da Jéssica… do salão da Ula. Orelha arqueou a sobrancelha. — E elas? — Sem perceber. Dogão virou o olhar pra ele. — Nada de assustar. Ele fez um gesto firme. — Proteção normal. Como se fosse só rotina do morro. Orelha assentiu. — Entendido, chefe. Dogão olhou pros outros homens. — Façam discreto. E bem feito. — Pode deixar. Enquanto os vapores se dispersavam para cumprir a ordem, Dogão permaneceu parado por mais alguns segundos. O morro continuava vivo ao redor. Mas agora, pela primeira vez desde o baile, não era festa nem confusão que ocupava a cabeça dele. Era prevenção. E Ula… sem nem saber, já tinha virado prioridade silenciosa dentro do próprio território. O salão estava mais calmo naquele horário. O som baixo, o cheiro de produto no ar, e o movimento leve das funcionárias organizando as coisas entre um atendimento e outro. Ula ajeitava a bancada quando ouviu a porta abrir. Ela levantou o olhar. Dogão entrou. Como sempre, a presença dele mudou o ambiente sem esforço nenhum. — Oi… — ele disse. Ula manteve a postura profissional, mas sorriu de leve. — Oi. Tem horário pra você agora? Ele assentiu. — Tenho. — Vem, senta aqui. Ele foi até a cadeira, relaxando o corpo grande no assento. Ula já conhecia a rotina dele. Ligou o lavatório, guiou ele até lá e começou o processo com calma, como sempre fazia. Primeiro o cabelo sendo lavado, os dedos dela trabalhando com precisão no couro cabeludo dele. Dogão fechou os olhos por alguns segundos. Respirou mais fundo do que o normal. Depois vieram o corte, o alinhamento, os detalhes que ele já confiava sem nem olhar no espelho. Mais tarde, passaram para a parte reservada. Depilação, massagem, tudo no ritmo dela. Ambiente calmo, quase silencioso. Só o som da música baixa e da voz dela de vez em quando orientando: — Relaxa… solta o ombro… Ele soltou um riso baixo. — Tu fala isso como se eu não tivesse travado pra c*****o. Ula sorriu. — E tá mesmo. Silêncio leve. Até que, depois de um tempo, ele falou: — Ula… Ela continuou o movimento, mas respondeu: — Fala. Ele respirou fundo. — Desculpa pelo dia do baile. Ela parou por um segundo, olhando pra ele pelo reflexo. — Já passou. Ele assentiu. — Mesmo assim. Silêncio curto. Ela voltou a trabalhar com mais leveza. — Eu também te devo desculpa. Ele abriu os olhos. — Pelo quê? Ela deu um sorriso pequeno, sincero. — Eu falei com você de um jeito errado naquele dia. Tava alterada, nervosa… não era pra ter falado assim. Dogão soltou um riso curto. — Eu também tava meio errado. Ela arqueou a sobrancelha. — Meio? Ele riu de leve. — Tá bom… bastante. Ula soltou uma risada junto. O clima ficou mais leve. Ela continuou a massagem, agora com mais naturalidade. — Mas já passou, tá? — Já passou. Ele virou o rosto um pouco, olhando pra ela. — O importante é que eu ainda tenho meu horário aqui. Ula sorriu. — Tem sim. Ele deu um meio sorriso. — Pensei que tu ia me expulsar depois daquilo. Ela negou com a cabeça. — Eu não sou assim. Silêncio confortável. Dogão fechou os olhos de novo por alguns segundos. — Eu tava muito estressado aquele dia. — Percebi. Ela falou baixo, sem julgamento. — Mas já entendi. Ele respirou fundo. — Aquela situação já foi resolvida. Ula assentiu. — Fico feliz. Ele abriu os olhos. — Tá tudo bem agora. Ela terminou um dos movimentos da massagem e deu um leve sorriso. — Então tá. Dogão ficou em silêncio por um tempo. Mas dessa vez não era desconforto. Era só aquele tipo de calma que ele só parecia encontrar ali. E Ula continuou o trabalho, sem pressa, como se aquele momento também tivesse voltado ao lugar certo.
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