Suzana ficou alguns segundos em silêncio, o olhar tremendo entre raiva e humilhação.
— Tá bom… — ela soltou, a voz baixa. — Se você prefere me chutar por causa dela, tudo bem.
Dogão nem piscou.
Ela respirou fundo, tentando manter a pose.
— Você vai se arrepender disso.
Ele respondeu na hora, sem elevar o tom:
— Vou falar uma última vez.
O clima pesou ainda mais.
Dogão deu um passo à frente.
— Se você se aproximar dela… ou de qualquer pessoa da família dela… do salão… da pensão… de qualquer lugar que seja dela…
Ele pausou, encarando direto.
— Você vai ser expulsa daqui.
Silêncio.
Suzana franziu a testa.
— Eu?
Dogão continuou, firme:
— Você e tua família inteira.
Ela arregalou os olhos.
— Você não faria isso…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Quer pagar pra ver?
A frase saiu calma, mas carregada.
Dogão deu uma tragada no cigarro, soltando a fumaça devagar.
— Aqui tem lei.
Ele apontou com o queixo para o morro inteiro.
— E hoje tu tá aprendendo isso.
Suzana ficou parada, sem reação por alguns segundos.
— Vai sair só com a roupa do corpo… se eu precisar te mandar sair agora.
A voz dele ficou mais fria.
— Então escolhe.
Silêncio total.
Ela engoliu seco, o orgulho quebrando aos poucos.
Por fim, virou as costas.
E desceu.
Ninguém falou nada enquanto ela atravessava o espaço, passando pelos vapores, pelo Orelha e pelos outros homens, todos apenas observando em silêncio.
Quando sumiu pela descida do morro, o ambiente ainda ficou pesado.
Orelha se aproximou devagar.
— Ela não tá com cara de que vai deixar isso em paz, não.
Dogão não tirou os olhos da direção onde ela foi embora.
— Também acho.
Ele respirou fundo.
— Redobra a proteção.
Orelha assentiu na hora.
— De quem?
Dogão foi direto, já com a cabeça trabalhando.
— Casa da Gracinha… da Jéssica… do salão da Ula.
Orelha arqueou a sobrancelha.
— E elas?
— Sem perceber.
Dogão virou o olhar pra ele.
— Nada de assustar.
Ele fez um gesto firme.
— Proteção normal. Como se fosse só rotina do morro.
Orelha assentiu.
— Entendido, chefe.
Dogão olhou pros outros homens.
— Façam discreto. E bem feito.
— Pode deixar.
Enquanto os vapores se dispersavam para cumprir a ordem, Dogão permaneceu parado por mais alguns segundos.
O morro continuava vivo ao redor.
Mas agora, pela primeira vez desde o baile, não era festa nem confusão que ocupava a cabeça dele.
Era prevenção.
E Ula… sem nem saber, já tinha virado prioridade silenciosa dentro do próprio território.
O salão estava mais calmo naquele horário.
O som baixo, o cheiro de produto no ar, e o movimento leve das funcionárias organizando as coisas entre um atendimento e outro.
Ula ajeitava a bancada quando ouviu a porta abrir.
Ela levantou o olhar.
Dogão entrou.
Como sempre, a presença dele mudou o ambiente sem esforço nenhum.
— Oi… — ele disse.
Ula manteve a postura profissional, mas sorriu de leve.
— Oi. Tem horário pra você agora?
Ele assentiu.
— Tenho.
— Vem, senta aqui.
Ele foi até a cadeira, relaxando o corpo grande no assento.
Ula já conhecia a rotina dele.
Ligou o lavatório, guiou ele até lá e começou o processo com calma, como sempre fazia.
Primeiro o cabelo sendo lavado, os dedos dela trabalhando com precisão no couro cabeludo dele.
Dogão fechou os olhos por alguns segundos.
Respirou mais fundo do que o normal.
Depois vieram o corte, o alinhamento, os detalhes que ele já confiava sem nem olhar no espelho.
Mais tarde, passaram para a parte reservada.
Depilação, massagem, tudo no ritmo dela.
Ambiente calmo, quase silencioso.
Só o som da música baixa e da voz dela de vez em quando orientando:
— Relaxa… solta o ombro…
Ele soltou um riso baixo.
— Tu fala isso como se eu não tivesse travado pra c*****o.
Ula sorriu.
— E tá mesmo.
Silêncio leve.
Até que, depois de um tempo, ele falou:
— Ula…
Ela continuou o movimento, mas respondeu:
— Fala.
Ele respirou fundo.
— Desculpa pelo dia do baile.
Ela parou por um segundo, olhando pra ele pelo reflexo.
— Já passou.
Ele assentiu.
— Mesmo assim.
Silêncio curto.
Ela voltou a trabalhar com mais leveza.
— Eu também te devo desculpa.
Ele abriu os olhos.
— Pelo quê?
Ela deu um sorriso pequeno, sincero.
— Eu falei com você de um jeito errado naquele dia. Tava alterada, nervosa… não era pra ter falado assim.
Dogão soltou um riso curto.
— Eu também tava meio errado.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Meio?
Ele riu de leve.
— Tá bom… bastante.
Ula soltou uma risada junto.
O clima ficou mais leve.
Ela continuou a massagem, agora com mais naturalidade.
— Mas já passou, tá?
— Já passou.
Ele virou o rosto um pouco, olhando pra ela.
— O importante é que eu ainda tenho meu horário aqui.
Ula sorriu.
— Tem sim.
Ele deu um meio sorriso.
— Pensei que tu ia me expulsar depois daquilo.
Ela negou com a cabeça.
— Eu não sou assim.
Silêncio confortável.
Dogão fechou os olhos de novo por alguns segundos.
— Eu tava muito estressado aquele dia.
— Percebi.
Ela falou baixo, sem julgamento.
— Mas já entendi.
Ele respirou fundo.
— Aquela situação já foi resolvida.
Ula assentiu.
— Fico feliz.
Ele abriu os olhos.
— Tá tudo bem agora.
Ela terminou um dos movimentos da massagem e deu um leve sorriso.
— Então tá.
Dogão ficou em silêncio por um tempo.
Mas dessa vez não era desconforto.
Era só aquele tipo de calma que ele só parecia encontrar ali.
E Ula continuou o trabalho, sem pressa, como se aquele momento também tivesse voltado ao lugar certo.