Orelha ficou rindo de canto, mas agora já tinha parado de zoar de vez.
Encostou na grade, girando o cigarro entre os dedos.
— Tu comia a Suzana quatro vezes na semana… e nunca sentiu nada?
Dogão soltou o ar, olhando pro baile lá embaixo.
— Nada.
— Nem com ela? Nem com as outras?
— Nenhuma.
Silêncio curto.
Dogão passou a mão na nuca, mais pensativo.
— A Ula… não.
Orelha virou o rosto pra ele na hora.
— A Ula te deixa nervoso?
Dogão riu baixo, como se fosse absurdo até pra ele mesmo.
— Deixa.
— Por quê, p***a?
Dogão demorou um segundo pra responder.
— Eu não sei explicar direito.
Ele respirou fundo.
— Quando ela tá lá no salão… cortando meu cabelo, lavando, fazendo a parada toda… eu relaxo de um jeito que não relaxo com ninguém.
Orelha ficou quieto agora, ouvindo de verdade.
Dogão continuou, mais baixo:
— O toque dela… a forma como ela fala comigo… não me trata como chefe, nem como nada disso. Me trata como cliente normal. E isso… isso me desarma.
Ele deu um sorriso curto, meio sem jeito.
— Eu fico calmo pra c*****o.
Orelha soltou uma risada leve.
— Tu tá fodido.
Dogão olhou pra ele.
— Eu sei.
Orelha balançou a cabeça.
— E a Suzana?
— Nada.
Dogão foi direto.
— Nem comparação.
Ele apontou de leve pro próprio peito.
— Isso aqui só reage com ela.
Silêncio.
Orelha deu uma tragada e soltou a fumaça devagar.
— E tu vai fazer o quê com isso?
Dogão ficou alguns segundos olhando o movimento do baile.
— Vou fazer direito.
— Direito como?
— Sem bagunça. Sem deixar ninguém usar ela como alvo. Sem esse circo todo.
Orelha assentiu devagar.
— Isso é o mais difícil.
Dogão riu.
— É.
Orelha ficou em silêncio por um tempo, depois falou mais baixo:
— Tu sabe que isso vira ponto fraco, né?
Dogão olhou pra ele na hora.
— Sei.
Orelha continuou, sério:
— E ponto fraco aqui vira alvo.
Dogão não respondeu de imediato.
Só respirou fundo.
— Ninguém vai saber.
Orelha assentiu.
— Ninguém mesmo.
Ele apagou o cigarro na grade.
— Eu também tô nessa.
Dogão olhou pra ele.
— Na Jéssica?
Orelha soltou um meio sorriso.
— Na Jéssica.
Os dois ficaram em silêncio de novo.
Agora não era mais brincadeira, nem provocação.
Era entendimento.
Dois homens do mesmo mundo, percebendo que algumas coisas não se resolvem na força… e sim no controle.
Lá embaixo, o baile seguia, cheio de música e gente.
Mas ali em cima, no alto do morro, o que estava sendo decidido não tinha nada a ver com festa.
O sol já tinha subido quando o movimento voltou a subir o morro.
Moto pra tudo que é lado, os vapores espalhados nas entradas, rádio estalando de tempo em tempo.
Dogão não quis saber de descanso.
Subiu direto, com Orelha ao lado e mais alguns homens fechando o perímetro.
A movimentação foi pesada, organizada, daquele jeito que o morro inteiro entendia sem ninguém precisar explicar.
Pouco tempo depois, Suzana foi trazida.
Ela parou na frente dele, de braços cruzados, ainda com aquela postura desafiadora.
Dogão nem esperou.
— Descruza essa p***a desse braço.
Ela hesitou… mas descruzou.
— Agora fala comigo direito — ele disse, seco.
Suzana levantou o queixo.
— Agora você vai arrumar confusão comigo por causa daquela loira?
Dogão riu pelo nariz, sem humor.
— Olha como tu fala comigo.
Ele deu um passo à frente.
— Tu tá achando que tu é quem?
Suzana abriu a boca.
— Não mandei tu falar nada — ele cortou na hora.
O tom dele ficou mais pesado.
— Tu é minha mulher por acaso?
Silêncio.
Ela travou por um segundo.
Dogão continuou, frio:
— Eu te assumi pra alguém? Te coloquei como alguma coisa aqui dentro?
Ele apontou de leve ao redor.
— Tu subiu aqui achando o quê? Que ia cantar de g**o no meu baile?
Suzana engoliu seco.
— Eu só—
— f**a-se.
A palavra veio seca.
Dogão acendeu o cigarro com calma, dando uma tragada longa.
— O dinheiro é meu. O baile é meu. E eu mando como eu quiser.
Ele soltou a fumaça devagar.
— E ontem tu passou do limite.
Suzana tentou falar de novo.
— Eu achei que—
— Não me interessa o que tu achou.
Dogão interrompeu.
— Tu encostou na mulher errada. Arrumou confusão onde não tinha.
O olhar dele ficou duro.
— E pra deixar claro: acabou.
Ela piscou, surpresa.
— Dogão, não faz isso…
Ele não mudou a expressão.
— Acabou.
Ela deu um passo à frente.
— Eu pensei que eu fosse importante pra você…
Dogão soltou uma risada curta, amarga.
— Importante?
Ele olhou direto pra ela.
— Tu achou mesmo isso porque eu te comia algumas vezes na semana?
Silêncio pesado.
Ele continuou, sem elevar o tom, mas cada palavra acertava firme:
— Isso nunca foi nada além disso. Nunca confunde.
Suzana ficou rígida.
Dogão deu outra tragada e apagou o cigarro de lado.
— Tu subia aqui porque queria se garantir. Queria virar “mulher do dono”.
Ele balançou a cabeça, decepcionado.
— E ontem mostrou exatamente o tipo de coisa que isso vira: confusão, humilhação, falta de respeito.
Ele apontou levemente na direção dela.
— E isso aqui eu não aceito.
Orelha, mais atrás, observava em silêncio, sem interferir.
Dogão respirou fundo e finalizou:
— Ninguém canta de g**o no meu baile.
O olhar dele ficou mais firme ainda.
— E se um dia eu assumir alguém de verdade… vai ser alguém que respeita todo mundo. Sem fazer cena. Sem arrumar guerra.
Ele deu um passo pra trás.
— Agora sai da minha frente, Suzana.
Silêncio.
O vento passou pelo morro, e por um instante pareceu que até o som das motos tinha diminuído.
Suzana ficou parada, olhando pra ele, sem chão.
Dogão não repetiu.
Só esperou.
E ali ficou claro pra todo mundo ao redor que aquilo não era discussão.
Era fim.