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1013 Words
Orelha ficou rindo de canto, mas agora já tinha parado de zoar de vez. Encostou na grade, girando o cigarro entre os dedos. — Tu comia a Suzana quatro vezes na semana… e nunca sentiu nada? Dogão soltou o ar, olhando pro baile lá embaixo. — Nada. — Nem com ela? Nem com as outras? — Nenhuma. Silêncio curto. Dogão passou a mão na nuca, mais pensativo. — A Ula… não. Orelha virou o rosto pra ele na hora. — A Ula te deixa nervoso? Dogão riu baixo, como se fosse absurdo até pra ele mesmo. — Deixa. — Por quê, p***a? Dogão demorou um segundo pra responder. — Eu não sei explicar direito. Ele respirou fundo. — Quando ela tá lá no salão… cortando meu cabelo, lavando, fazendo a parada toda… eu relaxo de um jeito que não relaxo com ninguém. Orelha ficou quieto agora, ouvindo de verdade. Dogão continuou, mais baixo: — O toque dela… a forma como ela fala comigo… não me trata como chefe, nem como nada disso. Me trata como cliente normal. E isso… isso me desarma. Ele deu um sorriso curto, meio sem jeito. — Eu fico calmo pra c*****o. Orelha soltou uma risada leve. — Tu tá fodido. Dogão olhou pra ele. — Eu sei. Orelha balançou a cabeça. — E a Suzana? — Nada. Dogão foi direto. — Nem comparação. Ele apontou de leve pro próprio peito. — Isso aqui só reage com ela. Silêncio. Orelha deu uma tragada e soltou a fumaça devagar. — E tu vai fazer o quê com isso? Dogão ficou alguns segundos olhando o movimento do baile. — Vou fazer direito. — Direito como? — Sem bagunça. Sem deixar ninguém usar ela como alvo. Sem esse circo todo. Orelha assentiu devagar. — Isso é o mais difícil. Dogão riu. — É. Orelha ficou em silêncio por um tempo, depois falou mais baixo: — Tu sabe que isso vira ponto fraco, né? Dogão olhou pra ele na hora. — Sei. Orelha continuou, sério: — E ponto fraco aqui vira alvo. Dogão não respondeu de imediato. Só respirou fundo. — Ninguém vai saber. Orelha assentiu. — Ninguém mesmo. Ele apagou o cigarro na grade. — Eu também tô nessa. Dogão olhou pra ele. — Na Jéssica? Orelha soltou um meio sorriso. — Na Jéssica. Os dois ficaram em silêncio de novo. Agora não era mais brincadeira, nem provocação. Era entendimento. Dois homens do mesmo mundo, percebendo que algumas coisas não se resolvem na força… e sim no controle. Lá embaixo, o baile seguia, cheio de música e gente. Mas ali em cima, no alto do morro, o que estava sendo decidido não tinha nada a ver com festa. O sol já tinha subido quando o movimento voltou a subir o morro. Moto pra tudo que é lado, os vapores espalhados nas entradas, rádio estalando de tempo em tempo. Dogão não quis saber de descanso. Subiu direto, com Orelha ao lado e mais alguns homens fechando o perímetro. A movimentação foi pesada, organizada, daquele jeito que o morro inteiro entendia sem ninguém precisar explicar. Pouco tempo depois, Suzana foi trazida. Ela parou na frente dele, de braços cruzados, ainda com aquela postura desafiadora. Dogão nem esperou. — Descruza essa p***a desse braço. Ela hesitou… mas descruzou. — Agora fala comigo direito — ele disse, seco. Suzana levantou o queixo. — Agora você vai arrumar confusão comigo por causa daquela loira? Dogão riu pelo nariz, sem humor. — Olha como tu fala comigo. Ele deu um passo à frente. — Tu tá achando que tu é quem? Suzana abriu a boca. — Não mandei tu falar nada — ele cortou na hora. O tom dele ficou mais pesado. — Tu é minha mulher por acaso? Silêncio. Ela travou por um segundo. Dogão continuou, frio: — Eu te assumi pra alguém? Te coloquei como alguma coisa aqui dentro? Ele apontou de leve ao redor. — Tu subiu aqui achando o quê? Que ia cantar de g**o no meu baile? Suzana engoliu seco. — Eu só— — f**a-se. A palavra veio seca. Dogão acendeu o cigarro com calma, dando uma tragada longa. — O dinheiro é meu. O baile é meu. E eu mando como eu quiser. Ele soltou a fumaça devagar. — E ontem tu passou do limite. Suzana tentou falar de novo. — Eu achei que— — Não me interessa o que tu achou. Dogão interrompeu. — Tu encostou na mulher errada. Arrumou confusão onde não tinha. O olhar dele ficou duro. — E pra deixar claro: acabou. Ela piscou, surpresa. — Dogão, não faz isso… Ele não mudou a expressão. — Acabou. Ela deu um passo à frente. — Eu pensei que eu fosse importante pra você… Dogão soltou uma risada curta, amarga. — Importante? Ele olhou direto pra ela. — Tu achou mesmo isso porque eu te comia algumas vezes na semana? Silêncio pesado. Ele continuou, sem elevar o tom, mas cada palavra acertava firme: — Isso nunca foi nada além disso. Nunca confunde. Suzana ficou rígida. Dogão deu outra tragada e apagou o cigarro de lado. — Tu subia aqui porque queria se garantir. Queria virar “mulher do dono”. Ele balançou a cabeça, decepcionado. — E ontem mostrou exatamente o tipo de coisa que isso vira: confusão, humilhação, falta de respeito. Ele apontou levemente na direção dela. — E isso aqui eu não aceito. Orelha, mais atrás, observava em silêncio, sem interferir. Dogão respirou fundo e finalizou: — Ninguém canta de g**o no meu baile. O olhar dele ficou mais firme ainda. — E se um dia eu assumir alguém de verdade… vai ser alguém que respeita todo mundo. Sem fazer cena. Sem arrumar guerra. Ele deu um passo pra trás. — Agora sai da minha frente, Suzana. Silêncio. O vento passou pelo morro, e por um instante pareceu que até o som das motos tinha diminuído. Suzana ficou parada, olhando pra ele, sem chão. Dogão não repetiu. Só esperou. E ali ficou claro pra todo mundo ao redor que aquilo não era discussão. Era fim.
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