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Jéssica ficou alguns segundos olhando a pista. O som batendo forte, o pessoal dançando, o clima ainda alto lá embaixo. Ela respirou fundo. — Acho melhor eu ir agora. Orelha assentiu na hora. — Fechou. Ele fez um gesto com a cabeça. — Bora. Jéssica levantou, ajeitando o vestido vermelho e pegando a bolsa. — Obrigada, viu? — Relaxa, princesa. Eles desceram juntos do VIP, passando pelo corredor lateral. Orelha ia cumprimentando alguns conhecidos no caminho, sempre leve, mas atento. Quando chegaram na área externa, ele apontou pro lado. — Minha moto tá ali. Jéssica olhou. — Tu veio de moto? — Sempre. Ele riu. — No morro é mais rápido. Ela soltou uma risada leve. — Verdade. Orelha pegou o capacete e estendeu pra ela. — Pode ir na frente. — Eu? — É. Ela pegou meio sem jeito. — Tá bom... Colocou o capacete e subiu na moto. Orelha montou logo atrás. — Segura firme, hein. — Pode deixar. O motor ligou. Antes de sair, ele olhou por cima do ombro. — Preparada? Jéssica respirou fundo. — Acho que sim. Ele riu. — Então bora. A moto desceu as vielas do morro com facilidade, passando pelas luzes, pelo som distante do baile ainda ecoando ao fundo. Jéssica sentia o vento bater no rosto, misturado com aquela sensação estranha de adrenalina e tranquilidade ao mesmo tempo. Depois de alguns minutos, Orelha reduziu a velocidade ao se aproximar da parte mais baixa do bairro. — Sua casa é pra lá, né? — Isso. Ela apontou. Ele seguiu o caminho, até parar em frente ao endereço dela. Jéssica desceu, tirando o capacete e ajeitando o cabelo. — Cheguei viva. Orelha riu. — E ainda inteira. Ela entregou o capacete pra ele. — Obrigada de verdade. Ele deu de ombros. — Qualquer coisa. Jéssica hesitou por um segundo. — E... valeu pela noite. — Foi tranquila? Ela sorriu. — Foi boa. Orelha abriu um sorriso leve. — Então já valeu. Eles ficaram um segundo em silêncio. A moto ainda ligada ao lado. Jéssica deu um aceno. — Boa noite. — Boa noite, princesa. Ela entrou em casa. Orelha ficou alguns segundos parado ali, olhando a porta fechar, antes de acelerar e sumir na rua. E, no morro, o baile ainda continuava — mas para cada um deles, a noite já tinha tomado um rumo diferente. Minutos depois, Orelha voltou pro VIP ainda com aquele sorriso de quem tava satisfeito com a própria missão cumprida. Entrou encostando do lado de Dogão, que observava o baile em silêncio. — E aí? — Dogão perguntou sem olhar de imediato. Orelha tirou o capacete da cabeça e deu um estalo no pescoço. — Deixei ela direitinho em casa. Dogão soltou um riso curto. — Certinho? — Certinho. — Orelha confirmou. — Ainda chamei de “princesa” e ela nem me corrigiu. Dogão finalmente virou o rosto pra ele, rindo de leve. — Aí tu tirou sorte grande, hein. Os dois riram juntos. Mas aos poucos, o sorriso de Dogão foi sumindo. Ele encostou na grade, ficando mais sério. — Orelha... — Fala. Dogão olhou pra pista por um instante, depois voltou a atenção pra ele. — Tu sabe que ela é uma mina responsa, né? Orelha franziu a testa. — Sei, p***a. — Não é mulher de bagunça. — Eu sei disso também. Dogão assentiu devagar. — Então não faz graça. Orelha entendeu na hora que não era brincadeira. Respirou fundo. — Tô ligado, chefe. Dogão continuou, mais firme: — Se tu for pra cima dela, vai direito. Sem joguinho, sem graça, sem esse teu jeito. Orelha levantou as mãos. — Eu nem tô jogando, c*****o. — Eu sei. Silêncio curto. Orelha encostou também na grade. — Eu tô falando sério, Dogão. Ele olhou de lado. — Ela é uma mina responsa. Mina direita. Fez um gesto com a mão, como quem organizava os pensamentos. — Não é essas parada de morro que tu vê por aí não. Tu percebeu também, né? Nunca teve rolo com ninguém daqui, com vapor, com ninguém do movimento. Dogão assentiu. — Já vi. Orelha continuou: — Então é isso. Não é bagunça. Ele respirou fundo, mais sincero. — Se me der moral de verdade… eu não tô de brincadeira não. Eu monto minha vida com ela. Do jeito que ela quiser. Dogão soltou um meio sorriso. — Agora tu falou bonito. Orelha deu um riso leve. — Tô falando a real, p***a. Dogão ficou olhando pra pista por alguns segundos, pensativo. — Então faz direito. Orelha olhou pra ele. — Vou fazer. Dogão apontou com o queixo em direção ao baile. — E não vacila. Orelha assentiu. — Nunca foi meu estilo com mulher assim. Os dois voltaram a olhar o baile. Aos poucos dogão começou a desabafar Orelha ficou alguns segundos olhando pra Dogão, como se tivesse tentando processar se ele tava falando sério ou se era só efeito da bebida. Aí abriu um sorriso lento. — c*****o… agora sim o whisky bateu forte mesmo, p***a. Dogão soltou uma risada curta, encostando na grade. — Não viaja. — Viajar o quê, chefe? Tu acabou de praticamente se declarar. Dogão passou a mão no rosto, ainda rindo. — Eu não me declarei nada. — Ah não? — Orelha cruzou os braços. — Tu acabou de dizer que a única mulher que tu quer é ela. Silêncio. Dogão não respondeu de imediato. Orelha continuou, provocando: — E ainda falou da Suzana como se fosse lixo descartável agora. Antes tu comia ela três, quatro vezes na semana. Dogão soltou o ar pelo nariz. — Muda. — Muda nada, tu tá é ficando mole. Dogão virou o rosto pra ele. — Cala a boca. Os dois riram. Mas aos poucos, Dogão ficou mais sério de novo. — Tu sabe o que a Ula falou pra mim hoje? Orelha arqueou a sobrancelha. — O quê? Dogão olhou pra pista, pensativo. — Que eu sou o dono do morro, que posso ter qualquer mulher… mas que eu tenho que botar limite pra essas confusões. Ele fez uma pausa curta. — E ela tá certa. Orelha ficou em silêncio, agora ouvindo de verdade. Dogão continuou: — Se eu continuar deixando essas paradas acontecerem, vai sempre sobrar pra ela. Sempre alguém vai querer medir força, arrumar caô, inventar coisa. Ele respirou fundo. — Eu cansei disso. Orelha assentiu devagar. — E a Suzana? Dogão respondeu direto: — Acabou. Orelha soltou uma risada baixa. — Acabou mesmo? — Acabou. — Sem volta? Dogão virou o rosto pra ele. — Sem. Silêncio. Orelha encostou de novo na grade. — Então tu tá falando sério mesmo… sobre a Ula. Dogão ficou alguns segundos quieto. Depois respondeu baixo: — Tô. Orelha soltou um “c*****o” quase rindo. — Tu tá diferente, chefe. Dogão deu um meio sorriso. — Talvez. Orelha apontou com a cabeça pro baile. — E agora? Dogão olhou lá pra baixo e respirou fundo. — Agora eu faço direito. Orelha sorriu. — Finalmente. Dogão deu uma última olhada, mais longa. — Sem bagunça. Orelha riu. — Tá apaixonado mesmo, p***a. Dogão não negou. Só soltou um riso leve e voltou a observar a festa. E, pela primeira vez na noite, não parecia mais só o chefe do morro olhando o baile… parecia um homem decidindo o próprio caminho.
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