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1230 Words
O carro desceu o morro em silêncio. Só o som baixo do motor e a cidade lá embaixo, distante, cortando a noite. Ula olhava pela janela, os braços cruzados, ainda tentando organizar a cabeça depois de tudo. Dogão dirigia firme, sem pressa, mas atento ao caminho. Depois de alguns minutos, ele falou: — Aquilo não era pra ter acontecido. Ula não olhou de imediato. — Eu sei. Silêncio de novo. Ele apertou o volante de leve. — Ninguém vai chegar perto de você desse jeito lá dentro de novo. Ela soltou o ar. — Não é só isso. Ele lançou um olhar rápido pra ela. — Então fala. Ula virou um pouco o rosto. — Não é sobre “segurança”. Eu sei que lá dentro você controla tudo. Fez uma pausa. — É sobre eu não querer ser o motivo de confusão. Dogão ficou em silêncio por alguns segundos. — Você não é o motivo. Ela deu um meio sorriso sem humor. — Mas vira. Ele não respondeu na hora. O carro seguiu mais alguns metros. Dogão respirou fundo. — Ula... Ela virou um pouco mais pra ele. — Fala. Ele manteve os olhos na estrada. — Eu não mando bebida, não mando petisco, não te coloco em situação nenhuma esperando nada em troca. Ela ficou quieta. Ele continuou: — Isso é respeito. Só isso. Ula desviou o olhar de novo pra janela. — Eu sei. Mas a voz dela já não estava tão firme. O carro entrou numa rua mais tranquila. Dogão diminuiu a velocidade. — Aquela mulher passou do limite. E vai ser resolvido. Ula olhou pra ele na hora. — Não precisa resolver nada por minha causa. Ele respondeu direto: — Não é por sua causa. É porque ninguém vai fazer isso dentro do meu lugar. Silêncio. Ula encostou a cabeça no vidro por um segundo. — Eu só queria ter uma noite normal. Dogão soltou o ar pelo nariz, mais baixo. — Você teve até ela estragar. Ela deu uma risada curta. — Pois é. O carro entrou na rua da casa dela. Dogão estacionou devagar. Ficaram alguns segundos parados. Ula destravou o cinto, mas não desceu de imediato. — Obrigada por me trazer. Ele assentiu. — Você chegou bem? — Cheguei. Mais um silêncio. Ela abriu a porta. Antes de sair, olhou pra ele. — Boa noite, Dogão. Ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o normal. — Boa noite, Ula. Ela desceu. Fechou a porta com cuidado. Ficou na calçada por um instante, vendo o carro parado ainda ali. Depois entrou em casa. Dogão ficou mais alguns segundos olhando a porta fechada. Então ligou o carro e foi embora, mas o silêncio dentro dele já não era o mesmo da ida. Quando o carro sumiu na esquina, Ula ficou alguns segundos parada dentro de casa, encostada na porta. Respirou fundo. A cabeça ainda tava cheia. — Que noite… Ela soltou a bolsa no sofá e passou a mão pelo rosto, tentando se desligar daquilo. Lá embaixo, no morro, Dogão já tinha voltado. Mas não voltou pro clima de festa. Assim que entrou na área do VIP, Orelha já percebeu o clima diferente. — E aí? Dogão foi direto até a grade, olhando o baile de longe. — Resolveu? Ele respondeu seco: — Levei ela pra casa. Orelha franziu a testa. — Só isso? Dogão ficou em silêncio por um segundo. — A noite acabou pra ela. Orelha soltou o ar. — Eu te avisei que essa Suzana ia dar merda. Dogão virou devagar. — Não começa. Orelha levantou as mãos. — Tô falando sério, p***a. Tu viu como ela ficou? A mina tava de boa aqui, curtindo, e do nada virou alvo de confusão. Dogão passou a mão no rosto. — Eu vou resolver isso. Orelha estreitou os olhos. — Não é só isso que eu tô falando. Dogão já sabia. — Eu sei. Silêncio. Orelha apoiou os cotovelos na grade. — Tu gosta dela. Dogão não respondeu. Orelha insistiu: — Não precisa falar nada. Tá na cara. Dogão soltou um riso baixo, sem humor. — Isso não muda nada. — Muda sim. Orelha virou o rosto pra ele. — Porque quanto mais tu fica nesse “não é nada”, mais essas situações vão acontecer. Ciúme de gente que nem tem nada contigo. E quem paga é ela. Dogão ficou olhando pro baile. A música continuava alta, o povo ainda dançava, mas pra ele já não tinha o mesmo peso de antes. — Ela não é problema meu. Orelha soltou uma risada curta. — Mentiroso do c*****o. Dogão olhou pra ele de lado. — Cala a boca. Orelha ficou sério por um instante. — Então prova. Dogão franziu a testa. — Provar o quê? — Que ela não é problema teu. Silêncio. Orelha continuou, mais calmo: — Ou tu se afasta de vez… ou tu para de tratar como “só cliente”. Dogão não respondeu. Só voltou os olhos pro baile. Mas agora ele não tava vendo a festa. Tava vendo ela indo embora. E isso, pela primeira vez, parecia mais pesado do que qualquer relatório sobre o morro. Enquanto isso, o clima no VIP já tinha voltado a ficar mais leve. Jéssica e Bianca ainda estavam ali, aproveitando um pouco da bebida e dos petiscos que tinham sobrado. Bianca ria sozinha de alguma coisa que o rapaz que ela tinha conhecido tinha falado no ouvido dela. Depois, virou pra Jéssica, baixinho: — Amiga... — Fala. Bianca deu um sorriso safado. — Aquele vapo ali... o que tá dançando comigo a noite toda... me chamou pra casa dele. Jéssica arregalou os olhos. — Quê? — Pois é. Ela deu de ombros, tranquila. — Acho que eu vou. Jéssica soltou uma risada incrédula. — Bianca! — Ué, amiga... Bianca riu. — Tu quer que eu faça o quê? Ficar aqui te olhando beber água? Jéssica balançou a cabeça. — Tu não presta. — Eu presto sim. Só não perco oportunidade. Jéssica riu. — Vai lá então, vai. Bianca levantou. — Qualquer coisa me liga depois. — Vai, vai logo. Elas se abraçaram rápido. — Se cuida, tá? — Relaxa. Bianca desceu do VIP com o rapaz, sumindo no meio do baile. Jéssica ficou sozinha por alguns segundos. Olhou ao redor. A música ainda alta, o movimento intenso, mas ela sentiu um vazio leve por estar sem as amigas. Respirou fundo e fez um sinal. Orelha percebeu na hora. — Fala, princesa. Ele se aproximou. — Quer mais alguma coisa? Jéssica sorriu de leve. — Não. Ela olhou em volta. — É que a Bianca já foi... e a minha irmã foi pra casa. Orelha assentiu. — Entendi. Ela ajeitou a postura. — Eu queria saber se você pode me dar uma carona até em casa. Ele arqueou a sobrancelha. — Carona? — É. Não sei se tem mototáxi lá fora agora... e se a Ula souber que eu fui embora sozinha, ela vai me matar depois. Orelha riu. — Relaxa, eu te levo. Ela soltou o ar, aliviada. — Sério? — Claro. Ele apontou com a cabeça. — Mas tu quer ir agora ou quer ficar mais um pouco? Jéssica olhou mais uma vez pra pista, pensou por alguns segundos. E o baile continuava acontecendo, intenso, vivo… enquanto a noite dela ainda não tinha terminado.
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