18

1138 Words
O relógio já marcava o fim da tarde. A última cliente tinha acabado de sair. As funcionárias já tinham ido embora, e o salão agora estava silencioso. Ula passava um pano na bancada enquanto Jéssica fechava o caixa. Depois abaixaram a porta de aço pela metade, deixando só elas duas ali dentro terminando de organizar tudo. Ula quebrou o silêncio. — Irmã... Jéssica levantou a cabeça. — Oi? Ula sorriu de canto. — Tu tá gostando mesmo do Orelha? Jéssica sorriu na mesma hora. — Tô. — Tá gostando por curiosidade... ou tá querendo namorar ele de verdade? Jéssica fechou o caixa devagar. — Por que essa pergunta agora? Ula encostou na bancada. — Porque hoje eu conversei com o Dogão. Jéssica olhou curiosa. — Conversou? — Conversei. Ela continuou: — Perguntei sobre o Orelha. — E aí? — Ele falou que o Orelha gosta de você de verdade. Jéssica abaixou o olhar, sorrindo sem conseguir esconder. — Sério? — Sério. — E falou que ele quer um relacionamento sério. Jéssica respirou fundo. — Eu imaginei... Ula caminhou até ela. — Mas eu preciso te falar uma coisa. Jéssica já conhecia aquele tom. Era a irmã mais velha falando. — Fala. Ula segurou a mão dela. — Você sabe que virar mulher de bandido não é fácil, né? O sorriso de Jéssica diminuiu. Ela assentiu. — Eu sei. — Não é igual namorar qualquer cara. Ula continuou. — Tem guerra... tem operação... tem tiro... tem madrugada que tu não sabe se ele vai voltar... Os olhos de Jéssica começaram a marejar. — Eu sei... Ula apertou de leve a mão dela. — E eu só tô falando isso porque eu quero te proteger. Jéssica respirou fundo. — Eu sou uma menina direita, Ula. Sorriu fraquinho. — Trabalho... nunca dei trabalho pra mãe... nunca namorei... — Eu sei. — Você sabe quem eu sou. Ula sorriu. — Justamente por isso. Silêncio. Depois de alguns segundos, Jéssica perguntou baixinho: — Então por que você não dá uma chance pro Dogão? Ula ficou em silêncio. Demorou alguns segundos para responder. Olhou para o chão antes de falar. — Porque eu tenho medo. Jéssica franziu a testa. — Medo dele? — Não. Ula balançou a cabeça. — Medo de amar ele. O silêncio tomou conta do salão. Ela respirou fundo. — Ele é o dono do morro. A voz saiu mais baixa. — A qualquer momento pode acontecer um confronto... Ela engoliu seco. — E só de imaginar ele se machucando... ou... Não conseguiu terminar a frase. Jéssica abraçou a irmã. Ula retribuiu o abraço. — Tá vendo? Ela sorriu triste. — É por isso. — Eu prefiro tratar ele como um cliente... Fez uma pequena pausa. — Como um amigo. — Do que deixar meu coração ir mais longe. Jéssica afastou um pouco o rosto. — Mas teu coração já foi, né? Ula deu uma risadinha sem graça. Não respondeu. O silêncio respondeu por ela. Jéssica sorriu. — Você gosta dele. Ula fechou os olhos por um instante. — Gosto. Confessou pela primeira vez. — Muito mais do que eu deveria. As duas ficaram em silêncio. Depois Ula respirou fundo e voltou ao seu jeito de irmã mais velha. — Agora chega de falar de mim. Sorriu. — Você e o Orelha... Apontou para ela. — Vão conversando. Sem pressa. Com respeito. Conhece ele melhor. Vê se é isso mesmo que vocês dois querem. Jéssica assentiu. — Pode deixar. Ela sorriu. — Mas eu acho que vocês dois também vão acabar juntos. Ula deu uma risada baixa enquanto apagava as luzes do salão. — Deus te ouça... Depois pegou a bolsa, esperou a irmã e as duas saíram juntas, caminhando pelas vielas do morro rumo à casa, conversando baixinho como faziam desde crianças. Os dias passaram rápido. E, quando perceberam, o sábado finalmente chegou. O aniversário de Dogão. Desde cedo, o morro já estava movimentado. Os vapores organizavam as churrasqueiras, caixas de som, mesas e toda a estrutura da festa no alto do morro. No salão, Ula trabalhou apenas meio expediente. Assim que terminou de atender a última cliente, bateu palmas para as funcionárias. — Meninas, hoje fechamos mais cedo. Uma delas sorriu. — Vai ficar bonita pro aniversário do chefe, né? Ula deu uma risada. — Vou ficar bonita por mim. As meninas riram juntas. Logo depois, elas começaram a produzir Ula e Jéssica. Retocaram o loiro das duas, fizeram hidratação, escovaram os fios até ficarem brilhando. As unhas foram refeitas. Sobrancelhas alinhadas. Depilação em dia. Tudo impecável. Depois disso, Ula voltou para casa para se arrumar. Algum tempo depois... Ela apareceu pronta. Vestia um cropped dourado que valorizava o bronzeado. Uma saia branca de cintura alta. Os cabelos loiros estavam completamente soltos, caindo quase até a cintura. A maquiagem destacava ainda mais os olhos verdes. O piercing no umbigo brilhava discretamente. Nos braços, as tatuagens davam ainda mais personalidade ao visual. Ela colocou uma sandália baixa, pegou uma bolsa prata e, por último, o presente que havia comprado para Dogão. Olhou rapidamente no espelho. — Tá bom. Pegou a chave do carro. E seguiu até a casa da mãe. Quando estacionou, desceu sorrindo. Bateu na porta. — Mãe! A porta abriu. Dona Gracinha apareceu primeiro. Ela usava um vestido elegante, os cabelos soltos e bem arrumados, maquiagem leve e um sorriso que há muito tempo não aparecia daquele jeito. Ula sorriu. — Nossa... tá linda. A mãe riu. — Deixa de conversa. Nesse momento, Jéssica apareceu. Vestia um macaquinho rosa-claro, curtinho, com um decote delicado. Os cabelos loiros estavam soltos e levemente ondulados. Ela girou devagar. — E aí? Ula colocou a mão no peito. — Caralho... vocês resolveram acabar com a festa hoje? As três caíram na gargalhada. Jéssica devolveu a provocação. — Olha quem tá falando. — Tá um espetáculo também. Dona Gracinha pegou uma caixa bem embalada. — Fiz um bolo pro aniversariante. Depois mostrou outra embalagem. — E uma sobremesa caprichada também. Ula sorriu orgulhosa. — Ele vai amar. Jéssica pegou uma das travessas. — Bora? — Bora. As três entraram no carro. Ula assumiu o volante. Ligou o carro devagar. Enquanto subiam as ruas estreitas do morro, o som do pagode já podia ser ouvido lá de cima. As luzes da festa apareciam entre as vielas. Jéssica sorriu olhando pela janela. — Acho que a festa já começou. Dona Gracinha segurava o bolo no colo com todo cuidado. — Tomara que ele goste. Ula sorriu enquanto fazia a última curva da subida. — Gostar ele vai. Lá no alto, o cheiro da carne na churrasqueira já tomava conta do morro, e os vapores começavam a avisar uns aos outros: — A família da dona Gracinha tá chegando! Em poucos segundos, vários olhares se voltaram para o carro que subia devagar em direção à festa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD