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1575 Words
O pagode mudou para um samba ainda mais animado. As palmas tomaram conta da roda. Os vapores começaram a zoar. — Vai, chefe! — Entra na roda também! — Para de pagar de marrento, p***a! Dogão deu uma gargalhada. — Claro que não, c*****o. Negão gritou da churrasqueira. — Tá com medo de passar vergonha? Todo mundo caiu na risada. — Medo é o c*****o! — Então vai! — Vai logo! — Chama tua musa pra dançar! Dogão passou a mão na nuca, rindo. — Vocês são chatos pra p***a. Orelha já estava sendo empurrado também. — Vai tu também! — Vai dançar com a Jéssica! — Deixa de ser tímido! Orelha levantou as mãos. — Beleza, porra... eu vou. Os dois se olharam. Dogão respirou fundo. — f**a-se. Os dois caminharam até a roda de samba. Ula percebeu Dogão se aproximando e abriu um sorriso. — Ué... achei que você não dançava. Ele deu de ombros. — Os caras não param de encher meu saco. Ela riu. — Então vem. Ao lado delas, Orelha parou na frente de Jéssica. — Posso? Jéssica sorriu. — Claro. Os quatro começaram a acompanhar o samba. Ula e Jéssica sambavam com uma facilidade impressionante. Já Dogão e Orelha faziam o básico, tentando acompanhar o ritmo. Ula começou a rir. — Tá durinho, hein? Dogão olhou pra ela fingindo indignação. — Respeita, pô. Ela deu uma gargalhada. — Parece um guarda-roupa tentando sambar. Quem ouviu caiu na risada. Até Dogão riu. — s*******m. Jéssica também provocou Orelha. — Você tá indo bem... Fez uma pausa de propósito. — ...mais ou menos. Orelha colocou a mão no peito. — Caralho... até tu? Ela riu. — Tô brincando. Então ela segurou de leve na mão dele. — Relaxa. — Escuta o ritmo. — Não tenta pensar. — Só acompanha. Orelha fez exatamente como ela falou. Aos poucos começou a pegar o tempo da música. — Aí! — Melhorou! Ela sorriu satisfeita. Mais afastada, dona Gracinha observava tudo. As duas filhas rindo. Felizes. Leves. Ela levou a latinha de cerveja à boca. Os olhos marejaram discretamente. Uma moradora sentou ao lado dela. — Tá emocionada, dona Gracinha? Ela sorriu. — Tô. Olhou novamente para Ula e Jéssica. — Faz muito tempo que eu não via minhas meninas tão felizes assim. Enquanto isso, na roda, Ula girou no ritmo do samba. Os cabelos loiros acompanharam o movimento. Dogão ficou olhando por um segundo. Ela percebeu. Parou na frente dele. Sorriu. — O que foi? Ele balançou a cabeça devagar. — Nada. Ela arqueou uma sobrancelha. — Tá mentindo. Dogão sorriu de canto. — Só tava pensando... — Que tu realmente dá um show quando samba. Ula abaixou a cabeça, sem esconder o sorriso. — Assim eu fico sem graça. Ele respondeu baixinho, só para ela ouvir. — Bonita tu já é... — Sambando então... Ele deixou a frase no ar. Ula sentiu o rosto esquentar. Pela primeira vez desde que se conheceram, ela não encontrou nenhuma resposta rápida. Apenas sorriu e continuou dançando, enquanto Dogão, agora mais relaxado, acompanhava o ritmo ao lado dela. Depois de alguns sambas, dona Gracinha terminou a latinha de cerveja. Olhou para as filhas dançando e sorriu. — Acho que eu vou tentar dançar também, hein. Ula abriu um sorriso enorme. — Aí sim! Jéssica estendeu a mão. — Vem, mãe! As duas puxaram dona Gracinha para o meio da roda. No começo ela ficou um pouquinho tímida. Mas bastaram alguns segundos. Ela começou a acompanhar o ritmo do pagode. Os pés marcavam o compasso com leveza. Os ombros soltaram. O sorriso apareceu de verdade. Ula e Jéssica começaram a rir. — Tá vendo? Ula falou orgulhosa. — O nosso molejo vem do sangue. Jéssica concordou na hora. — Tá explicado agora! As três começaram a sambar juntas. A roda inteira abriu espaço. As pessoas batiam palma acompanhando o ritmo. Algumas mulheres gritavam animadas. — Aí, dona Gracinha! — Dá show mesmo! Até o grupo de pagode sorriu vendo a cena. Dogão observava de longe, sorrindo. Orelha deu uma risada. — A sogra tá desenrolando mais que nós dois. Dogão respondeu rindo. — Bem mais. Os dois voltaram a bater palma acompanhando a música. Mais afastados, perto da churrasqueira, alguns vapores conversavam entre si em voz baixa. Um deles balançou a cabeça. — Caralho... — A dona Gracinha ainda dá um caldo, hein. Outro deu uma cotovelada nele. — Dá mesmo, p***a. — Quarenta e dois anos só. — Bonita pra c*****o. Um terceiro olhou discretamente para a roda. — Mas esse papo morre aqui. Os outros olharam para ele. — Tá maluco? Ele respondeu baixinho. — Vai que o chefe ou o Orelha escutam uma p***a dessas. — Capaz de achar que nós tamo desrespeitando a família delas. Os outros concordaram na hora. — Verdade. Um deles completou: — Além do mais... ela tá viúva tem dois anos. Ficou um instante em silêncio antes de continuar. — Mulher de respeito. — Tá vivendo o luto dela. Outro vapor assentiu. — Se algum de vocês realmente tiver interesse um dia... Deu de ombros. — Dá tempo ao tempo. — Primeiro ela precisa ser feliz de novo. — Depois, se ela quiser seguir a vida, aí é outra história. Os outros concordaram. — É isso. — Respeito acima de tudo. Enquanto isso, no centro da roda, dona Gracinha ria como há muito tempo não ria. Ula passou o braço pelos ombros da mãe. Jéssica segurou a outra mão dela. As três sambavam juntas, arrancando aplausos de toda a festa. Dogão olhou a cena e comentou baixinho com Orelha: — Faz tempo que eu não via a dona Gracinha sorrir desse jeito. Orelha sorriu. — As meninas conseguiram trazer a alegria dela de volta. Dogão assentiu em silêncio, satisfeito por ver aquela família novamente feliz. Já passava da uma da manhã. E, ao contrário do que muitos imaginavam, a festa estava ainda mais animada. O pagode seguia alto. As churrasqueiras ainda estavam acesas. Alguns moradores dançavam. Outros conversavam espalhados pelas mesas. Mais afastados da agitação, Jéssica e Orelha caminhavam devagar pela lateral da área da festa. Os dois conversavam baixinho, riam de qualquer besteira e já estavam completamente à vontade um com o outro. Enquanto isso, dona Gracinha bocejou discretamente. Olhou para Ula. — Filha... — Oi, mãe? — Eu vou pra casa. — Já tô cansada. Ula sorriu. — Eu imaginei. Levantou da cadeira. — Vamos lá se despedir do Dogão. — Eu levo a senhora e depois volto pra festa. As duas caminharam até onde Dogão conversava com n***o e alguns vapores. Assim que chegaram, ele abriu espaço. — Já vai, dona Gracinha? Ela sorriu. — Vou, meu filho. — Foi um prazer. — Me diverti muito hoje. — Mas o corpo já tá pedindo cama. Dogão sorriu. — Fico feliz que a senhora tenha gostado. Ula olhou para ele. — Eu vou levar ela em casa e já volto, tá? Dogão respondeu na mesma hora. — Sozinha não. Ela olhou para ele. — Eu vou com você. — Levo vocês duas e volto. Ula sorriu. — Tá bom. Ela assentiu. Depois procurou Jéssica com o olhar. Encontrou a irmã conversando com Orelha. Foi até eles. — Irmã... Jéssica virou. — Oi? — Eu vou levar a mãe em casa. Dona Gracinha olhou para Orelha com um sorriso carinhoso. — Meu genro... Orelha arregalou os olhos e começou a rir. — Senhora... Ela continuou brincando. — Leva minha filha em casa depois, tá? — Com cuidado. Orelha colocou a mão no peito. — Pode deixar, dona Gracinha. — Eu levo ela direitinho. Jéssica abaixou a cabeça, completamente sem graça. — Mãe... Todo mundo riu. Os vapores que estavam por perto entraram na conversa. — Dona Gracinha... — Foi bom demais ver a senhora sambando hoje. Ela sorriu. — Ah, que isso, meus filhos. — Fazia tempo que eu não dançava. Depois apontou o dedo para eles. — Agora amanhã vocês aparecem lá na pensão, hein. — Quero todo mundo almoçando comigo. Um deles respondeu na hora. — Claro. — Amanhã tamo lá. Outro completou. — A carne de panela já tá garantida. Todos riram. Enquanto ela conversava, um dos vapores mais novos acabou olhando para dona Gracinha por alguns segundos a mais. Ela percebeu o olhar. Apenas sorriu educadamente. Não comentou nada. Nem ele. Dogão observou discretamente a cena, mas preferiu não dizer nada. Logo depois, Ula tirou a chave do carro da bolsa. Estendeu para Dogão. — Dirige você. Ele pegou a chave. — Bora. Os três caminharam até o carro. Dona Gracinha entrou primeiro. Sentou confortavelmente no banco de trás. Ula ocupou o banco do passageiro. Dogão assumiu o volante. Assim que ligou o carro, cinco motos saíram logo atrás. Dois vapores em cada uma. Fazendo a escolta pelas ruas estreitas do morro. As motos abriram caminho enquanto a caminhonete seguia devagar. Dentro do carro, o silêncio era tranquilo. Dona Gracinha observava a rua pela janela. Depois sorriu baixinho. — Fazia muito tempo... Ula virou o rosto. — O quê, mãe? Ela respondeu emocionada. — Fazia muito tempo que eu não terminava uma noite tão feliz. Ula sorriu. Dogão olhou rapidamente pelo retrovisor. — A senhora merece viver muitas noites assim ainda. Dona Gracinha sorriu de volta. — Obrigada, meu filho. E a pequena escolta seguiu iluminando o caminho até a casa da família, enquanto, lá no alto do morro, o pagode continuava embalando a madrugada.
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