O pagode mudou para um samba ainda mais animado.
As palmas tomaram conta da roda.
Os vapores começaram a zoar.
— Vai, chefe!
— Entra na roda também!
— Para de pagar de marrento, p***a!
Dogão deu uma gargalhada.
— Claro que não, c*****o.
Negão gritou da churrasqueira.
— Tá com medo de passar vergonha?
Todo mundo caiu na risada.
— Medo é o c*****o!
— Então vai!
— Vai logo!
— Chama tua musa pra dançar!
Dogão passou a mão na nuca, rindo.
— Vocês são chatos pra p***a.
Orelha já estava sendo empurrado também.
— Vai tu também!
— Vai dançar com a Jéssica!
— Deixa de ser tímido!
Orelha levantou as mãos.
— Beleza, porra... eu vou.
Os dois se olharam.
Dogão respirou fundo.
— f**a-se.
Os dois caminharam até a roda de samba.
Ula percebeu Dogão se aproximando e abriu um sorriso.
— Ué... achei que você não dançava.
Ele deu de ombros.
— Os caras não param de encher meu saco.
Ela riu.
— Então vem.
Ao lado delas, Orelha parou na frente de Jéssica.
— Posso?
Jéssica sorriu.
— Claro.
Os quatro começaram a acompanhar o samba.
Ula e Jéssica sambavam com uma facilidade impressionante.
Já Dogão e Orelha faziam o básico, tentando acompanhar o ritmo.
Ula começou a rir.
— Tá durinho, hein?
Dogão olhou pra ela fingindo indignação.
— Respeita, pô.
Ela deu uma gargalhada.
— Parece um guarda-roupa tentando sambar.
Quem ouviu caiu na risada.
Até Dogão riu.
— s*******m.
Jéssica também provocou Orelha.
— Você tá indo bem...
Fez uma pausa de propósito.
— ...mais ou menos.
Orelha colocou a mão no peito.
— Caralho... até tu?
Ela riu.
— Tô brincando.
Então ela segurou de leve na mão dele.
— Relaxa.
— Escuta o ritmo.
— Não tenta pensar.
— Só acompanha.
Orelha fez exatamente como ela falou.
Aos poucos começou a pegar o tempo da música.
— Aí!
— Melhorou!
Ela sorriu satisfeita.
Mais afastada, dona Gracinha observava tudo.
As duas filhas rindo.
Felizes.
Leves.
Ela levou a latinha de cerveja à boca.
Os olhos marejaram discretamente.
Uma moradora sentou ao lado dela.
— Tá emocionada, dona Gracinha?
Ela sorriu.
— Tô.
Olhou novamente para Ula e Jéssica.
— Faz muito tempo que eu não via minhas meninas tão felizes assim.
Enquanto isso, na roda, Ula girou no ritmo do samba.
Os cabelos loiros acompanharam o movimento.
Dogão ficou olhando por um segundo.
Ela percebeu.
Parou na frente dele.
Sorriu.
— O que foi?
Ele balançou a cabeça devagar.
— Nada.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Tá mentindo.
Dogão sorriu de canto.
— Só tava pensando...
— Que tu realmente dá um show quando samba.
Ula abaixou a cabeça, sem esconder o sorriso.
— Assim eu fico sem graça.
Ele respondeu baixinho, só para ela ouvir.
— Bonita tu já é...
— Sambando então...
Ele deixou a frase no ar.
Ula sentiu o rosto esquentar.
Pela primeira vez desde que se conheceram, ela não encontrou nenhuma resposta rápida.
Apenas sorriu e continuou dançando, enquanto Dogão, agora mais relaxado, acompanhava o ritmo ao lado dela.
Depois de alguns sambas, dona Gracinha terminou a latinha de cerveja.
Olhou para as filhas dançando e sorriu.
— Acho que eu vou tentar dançar também, hein.
Ula abriu um sorriso enorme.
— Aí sim!
Jéssica estendeu a mão.
— Vem, mãe!
As duas puxaram dona Gracinha para o meio da roda.
No começo ela ficou um pouquinho tímida.
Mas bastaram alguns segundos.
Ela começou a acompanhar o ritmo do pagode.
Os pés marcavam o compasso com leveza.
Os ombros soltaram.
O sorriso apareceu de verdade.
Ula e Jéssica começaram a rir.
— Tá vendo?
Ula falou orgulhosa.
— O nosso molejo vem do sangue.
Jéssica concordou na hora.
— Tá explicado agora!
As três começaram a sambar juntas.
A roda inteira abriu espaço.
As pessoas batiam palma acompanhando o ritmo.
Algumas mulheres gritavam animadas.
— Aí, dona Gracinha!
— Dá show mesmo!
Até o grupo de pagode sorriu vendo a cena.
Dogão observava de longe, sorrindo.
Orelha deu uma risada.
— A sogra tá desenrolando mais que nós dois.
Dogão respondeu rindo.
— Bem mais.
Os dois voltaram a bater palma acompanhando a música.
Mais afastados, perto da churrasqueira, alguns vapores conversavam entre si em voz baixa.
Um deles balançou a cabeça.
— Caralho...
— A dona Gracinha ainda dá um caldo, hein.
Outro deu uma cotovelada nele.
— Dá mesmo, p***a.
— Quarenta e dois anos só.
— Bonita pra c*****o.
Um terceiro olhou discretamente para a roda.
— Mas esse papo morre aqui.
Os outros olharam para ele.
— Tá maluco?
Ele respondeu baixinho.
— Vai que o chefe ou o Orelha escutam uma p***a dessas.
— Capaz de achar que nós tamo desrespeitando a família delas.
Os outros concordaram na hora.
— Verdade.
Um deles completou:
— Além do mais... ela tá viúva tem dois anos.
Ficou um instante em silêncio antes de continuar.
— Mulher de respeito.
— Tá vivendo o luto dela.
Outro vapor assentiu.
— Se algum de vocês realmente tiver interesse um dia...
Deu de ombros.
— Dá tempo ao tempo.
— Primeiro ela precisa ser feliz de novo.
— Depois, se ela quiser seguir a vida, aí é outra história.
Os outros concordaram.
— É isso.
— Respeito acima de tudo.
Enquanto isso, no centro da roda, dona Gracinha ria como há muito tempo não ria.
Ula passou o braço pelos ombros da mãe.
Jéssica segurou a outra mão dela.
As três sambavam juntas, arrancando aplausos de toda a festa.
Dogão olhou a cena e comentou baixinho com Orelha:
— Faz tempo que eu não via a dona Gracinha sorrir desse jeito.
Orelha sorriu.
— As meninas conseguiram trazer a alegria dela de volta.
Dogão assentiu em silêncio, satisfeito por ver aquela família novamente feliz.
Já passava da uma da manhã.
E, ao contrário do que muitos imaginavam, a festa estava ainda mais animada.
O pagode seguia alto.
As churrasqueiras ainda estavam acesas.
Alguns moradores dançavam.
Outros conversavam espalhados pelas mesas.
Mais afastados da agitação, Jéssica e Orelha caminhavam devagar pela lateral da área da festa.
Os dois conversavam baixinho, riam de qualquer besteira e já estavam completamente à vontade um com o outro.
Enquanto isso, dona Gracinha bocejou discretamente.
Olhou para Ula.
— Filha...
— Oi, mãe?
— Eu vou pra casa.
— Já tô cansada.
Ula sorriu.
— Eu imaginei.
Levantou da cadeira.
— Vamos lá se despedir do Dogão.
— Eu levo a senhora e depois volto pra festa.
As duas caminharam até onde Dogão conversava com n***o e alguns vapores.
Assim que chegaram, ele abriu espaço.
— Já vai, dona Gracinha?
Ela sorriu.
— Vou, meu filho.
— Foi um prazer.
— Me diverti muito hoje.
— Mas o corpo já tá pedindo cama.
Dogão sorriu.
— Fico feliz que a senhora tenha gostado.
Ula olhou para ele.
— Eu vou levar ela em casa e já volto, tá?
Dogão respondeu na mesma hora.
— Sozinha não.
Ela olhou para ele.
— Eu vou com você.
— Levo vocês duas e volto.
Ula sorriu.
— Tá bom.
Ela assentiu.
Depois procurou Jéssica com o olhar.
Encontrou a irmã conversando com Orelha.
Foi até eles.
— Irmã...
Jéssica virou.
— Oi?
— Eu vou levar a mãe em casa.
Dona Gracinha olhou para Orelha com um sorriso carinhoso.
— Meu genro...
Orelha arregalou os olhos e começou a rir.
— Senhora...
Ela continuou brincando.
— Leva minha filha em casa depois, tá?
— Com cuidado.
Orelha colocou a mão no peito.
— Pode deixar, dona Gracinha.
— Eu levo ela direitinho.
Jéssica abaixou a cabeça, completamente sem graça.
— Mãe...
Todo mundo riu.
Os vapores que estavam por perto entraram na conversa.
— Dona Gracinha...
— Foi bom demais ver a senhora sambando hoje.
Ela sorriu.
— Ah, que isso, meus filhos.
— Fazia tempo que eu não dançava.
Depois apontou o dedo para eles.
— Agora amanhã vocês aparecem lá na pensão, hein.
— Quero todo mundo almoçando comigo.
Um deles respondeu na hora.
— Claro.
— Amanhã tamo lá.
Outro completou.
— A carne de panela já tá garantida.
Todos riram.
Enquanto ela conversava, um dos vapores mais novos acabou olhando para dona Gracinha por alguns segundos a mais.
Ela percebeu o olhar.
Apenas sorriu educadamente.
Não comentou nada.
Nem ele.
Dogão observou discretamente a cena, mas preferiu não dizer nada.
Logo depois, Ula tirou a chave do carro da bolsa.
Estendeu para Dogão.
— Dirige você.
Ele pegou a chave.
— Bora.
Os três caminharam até o carro.
Dona Gracinha entrou primeiro.
Sentou confortavelmente no banco de trás.
Ula ocupou o banco do passageiro.
Dogão assumiu o volante.
Assim que ligou o carro, cinco motos saíram logo atrás.
Dois vapores em cada uma.
Fazendo a escolta pelas ruas estreitas do morro.
As motos abriram caminho enquanto a caminhonete seguia devagar.
Dentro do carro, o silêncio era tranquilo.
Dona Gracinha observava a rua pela janela.
Depois sorriu baixinho.
— Fazia muito tempo...
Ula virou o rosto.
— O quê, mãe?
Ela respondeu emocionada.
— Fazia muito tempo que eu não terminava uma noite tão feliz.
Ula sorriu.
Dogão olhou rapidamente pelo retrovisor.
— A senhora merece viver muitas noites assim ainda.
Dona Gracinha sorriu de volta.
— Obrigada, meu filho.
E a pequena escolta seguiu iluminando o caminho até a casa da família, enquanto, lá no alto do morro, o pagode continuava embalando a madrugada.