Narrado por Noah
Ela entrou na sala e tudo parou.
Não foi a primeira vez que a vi desde aquele maldito dia, anos atrás, mas foi a primeira vez que meu peito apertou como se estivesse prestes a explodir. Elisa estava diferente. Não era mais a garota tímida de olhar assustado. Agora, ela andava com a cabeça erguida, os cabelos soltos roçando os ombros, e um brilho nos olhos que misturava força e desprezo.
Principalmente por mim.
E ela tinha motivos. Eu sabia disso. Não precisava de um espelho para lembrar quem eu fui naquele dia: um i****a. Um covarde. Alguém que usou o sarcasmo para esconder o desconforto que sentia toda vez que ela aparecia. E sim, eu provoquei. Ridicularizei. Fui c***l. Tudo porque... ela me desestabilizava.
Ainda desestabiliza.
— Senta logo, Noah — disse o professor. — Você e Elisa estão no mesmo grupo.
Meu coração deu um giro esquisito. Grupo. Juntos. Ótimo.
Fingi indiferença, como sempre faço. Mas cada vez que meus olhos cruzavam os dela, era como se algo queimasse dentro de mim. E quando ela abaixava o olhar, com aquele desprezo calculado, eu sentia vontade de puxá-la para mim. De forçá-la a me ver de verdade. A enxergar o que há anos eu tento negar: eu nunca esqueci ela.
Nunca quis.
Mas Elisa... Elisa agora é inacessível. Distante. Armadurada. E isso me enlouquece.
Provocá-la é meu jeito de entrar naquela armadura. De cutucar a parte dela que ainda me vê. Porque por mais que ela me odeie, ódio ainda é sentimento. E se ela sente, então ainda tenho chance.
— Está com medo de ficar sozinha comigo, Elisa? — perguntei, sabendo exatamente o que fazia.
Ela me lançou um olhar afiado, daqueles que arrancariam sangue se fossem armas.
— Medo? Não. Pena, talvez.
Senti o golpe. E sorri. Porque ela ainda sabia ferir com palavras. E eu... merecia cada uma delas.
Mas a verdade, que nunca admiti nem para mim mesmo, é que Elisa mexe com o que há de mais confuso em mim. Sempre mexeu. Desde a primeira vez que a vi, lendo sozinha no jardim da faculdade. Desde o momento em que percebi que ela não precisava de ninguém — e isso me assustou. Porque eu sempre estive cercado de pessoas, mas nunca me senti realmente visto.
Ela me viu. De verdade.
E isso... me apavorou.
Então eu reagi da forma mais estúpida possível: atacando. Criando distância. Me escondendo por trás da imagem de garoto popular e inatingível. Só que agora... agora ela é a mulher que ressurge como um vendaval na minha vida. E tudo que eu tentei controlar está prestes a desmoronar.
Porque não importa o quanto eu provoque. O quanto eu disfarce. A verdade é que eu quero ela.
Quero beijar aquele sarcasmo até ele virar gemido. Quero apagar cada palavra c***l que disse com toques. Com cuidado. Com tudo que não tive coragem de mostrar antes.
Mas antes... eu preciso consertar o que quebrei. E não sei se ela vai me deixar.
Porque o passado voltou. E ele veio cobrar caro.
Eu fico em chamas quando a vejo
Não sei o que é pior: o silêncio entre nós ou a tensão que ele carrega.
Cada vez que ela se move, cada vez que sua voz suave preenche o espaço, mesmo que com irritação, meu corpo reage. Como se minha pele tivesse memória. Como se minha alma reconhecesse algo que minha mente insiste em negar. Eu fico em chamas quando a vejo.
Elisa não faz ideia do efeito que tem sobre mim. Ou faz. E usa isso contra mim.
A forma como ela prende o cabelo, como seus dedos deslizam pelo papel enquanto anota algo com concentração... tudo nela é uma provocação. Um convite. Uma punição. E eu recebo cada estímulo como se fosse chicote e carícia ao mesmo tempo.
Ela é fogo, e eu sou o maldito combustível.
A garota que eu machuquei, agora é a mulher que me desarma. E isso me consome. Me arrebenta por dentro. Porque, droga, eu nunca quis magoá-la. Só não soube lidar com tudo o que ela despertava em mim. Elisa sempre teve esse poder: o de me fazer sentir pequeno e gigante ao mesmo tempo.
E agora... agora ela está ali, tão perto que eu posso ouvir sua respiração, mas tão distante que parece inalcançável.
Ela se inclina um pouco para frente, e o perfume dela invade meus sentidos. Não aquele perfume doce e suave. É o cheiro dela. Da pele. Da memória. E meu corpo responde — violento, urgente, faminto.
Pisco, tentando afastar a imagem dela na minha cama. Gritando meu nome. Me odiando e me amando ao mesmo tempo.
Mas não posso me permitir pensar nisso. Não ainda.
— Você não vai dizer nada? — ela pergunta, com a voz firme, cortante.
Quero dizer tudo. Que me arrependo. Que sonhei com ela mais vezes do que deveria. Que nenhum corpo, nenhum beijo, nenhum toque de outra mulher foi suficiente desde então.
Mas só consigo soltar um sorriso torto. Meu escudo. Minha prisão.
— Estou admirando a forma como você ainda finge que não sente nada.
Ela me fulmina com os olhos. E naquele segundo, vejo o que está por trás da máscara: dor. Magia. Raiva. Desejo.
Elisa sente. E isso me dá uma centelha de esperança. Ou talvez só mais combustível para essa fogueira que me consome por dentro.
Mas sei de uma coisa: essa guerra está longe de acabar. E eu estou disposto a perder tudo... menos ela.
As nossas feridas
"Talvez seja isso que nos conecta, Noah. As nossas feridas."
Ela disse isso como quem não tinha mais forças para fingir. Como quem havia tirado a última armadura. E eu… eu simplesmente parei. Respirei fundo, mas o ar não veio. O mundo ao redor desapareceu. Só restou a voz dela e aquela verdade crua que me desmontou por dentro.
Naquele instante, eu estava desarmado. Sem máscaras. Sem sarcasmo. Sem escudos.
Elisa me viu como ninguém mais jamais viu.
É engraçado… sempre gostei dela. Desde o começo. Desde antes de saber seu nome. Desde antes de saber que ela seria a minha perdição.
Havia algo nela — algo que me atraía de um jeito silencioso, mas violento. Um tipo de luz que não precisava brilhar para ser notada. Ela não tinha noção do quanto era linda. Linda sem esforço. Linda sem ser vaidosa. Linda no olhar sincero, na doçura contida, na coragem tímida.
E talvez isso tenha me assustado.
Porque ela era o oposto de tudo o que eu conhecia. Não jogava. Não se oferecia. Não precisava ser o centro para ser o universo inteiro.
E eu? Eu era um covarde.
Rejeitei ela porque era mais fácil afasta do que admitir que ela me atravessava. Porque, se ela chegasse perto demais… talvez eu não fosse capaz de suportar. Talvez eu me perdesse. Talvez eu me encontrasse — e isso sempre foi o meu maior medo.
Mas ali, depois daquela frase, não havia mais como fugir.
Ela me via. Me enxergava nas partes que ninguém tocava. Me reconhecia nos lugares que até eu evitava visitar.
E, p***a… como isso doía. Como isso me curava.
Elisa não era só uma garota bonita. Ela era verdade. Era profundidade. Era ferida e cura. E eu sabia — mesmo que demorasse uma vida inteira — que ela seria minha revolução.