Elisa
As palavras ríspidas e o sarcasmo começam a dominar nossas conversas.
Na saída do vestiário.
O cheiro de shampoo e desodorante masculino ainda pairava no ar quando empurrei a porta do corredor lateral.
Eu estava ali por acaso. Ou pelo menos queria acreditar nisso.
Mas o acaso tem nome.
Noah.
E ele estava lá, encostado na parede como se o mundo ao redor fosse pequeno demais para conter o seu ego.
Cabelo molhado, camiseta preta colada ao peito largo e aquele olhar...
Ah, aquele olhar que queimava antes mesmo de me tocar.
Ele me viu. Claro que viu.
E sorriu de canto.
Arrogante.
Delicioso.
Perigoso.
— Curioso você estar aqui agora — ele provocou, cruzando os braços com uma calma que me irritou.
— Curioso seria você ter humildade pra variar — rebati, sem parar de andar.
Mas ele se moveu.
Rápido.
Bloqueou a minha passagem com o corpo.
— Ainda com raiva de mim?
— Eu? — arqueei a sobrancelha. — Só estou vivendo minha vida. O mundo não gira ao seu redor, Noah.
Ele se inclinou, a boca perigosamente próxima do meu ouvido.
— Mas o seu gira. E você sabe disso.
Arfei. Ódio e desejo me queimando em igual medida.
Mas não recuei.
Eu não era mais aquela garota do primeiro semestre.
— Sabe o que mais gira ao meu redor? — sibilei, encostando minha mão em seu abdômen quente. — As oportunidades. E, até agora, você tem sido só uma distração.
Vi os olhos dele se estreitarem.
Vi o orgulho ferido se contorcer atrás da expressão de quem finge que não liga.
— Uma distração que te faz tremer com um olhar? — ele rebateu. — Jura?
O silêncio entre nós ficou espesso.
Quente.
Perigoso.
A tensão s****l era uma corda esticada entre nossos corpos. Bastava um sopro... e ela romperia.
— Você quer que eu trema? — perguntei, me aproximando ainda mais. — Então vai ter que fazer mais do que falar. Porque eu não sou mais fácil, Noah.
Ele se aproximou também. Os nossos narizes quase se tocando.
— Eu nunca disse que você era fácil. Eu disse que você era... minha.
Aquela frase caiu entre nós como um raio.
Meus olhos buscaram os dele.
Não havia deboche. Nem ironia.
Só desejo.
Cru. Quente. Impossível de fingir.
Dei um passo atrás, com o coração descompassado.
— Não diga isso. Você não sabe o que isso significa.
— Sei. Significa que eu não consigo te tirar da cabeça. Significa que seu toque ainda me queima. Que a sua boca é minha tortura favorita.
Engoli em seco.
— E isso te assusta?
— Isso me excita.
Fechei os olhos por um instante.
Minha pele ardia. Meu orgulho queria fugir.
Mas meu corpo...
Ah, meu corpo queria se perder naquele vestiário com ele.
Ainda assim, dei as costas. Antes que fosse tarde demais.
Mas antes de me afastar, joguei por cima do ombro:
— Então continue e******o, Noah. Porque o que você quer...
Vai ter que merecer.
E fui embora, deixando-o com o cheiro da minha pele... e a provocação ecoando no corredor.
O gosto amargo do ciúmes
O corredor lateral dava direto para o pátio onde os jogadores do time de futebol se reuniam após o treino.
Eu não estava procurando companhia.
Mas Caio sempre teve uma energia leve. Fácil de conversar.
E naquele momento, era exatamente isso que eu precisava. Leveza.
— Você vai na festa da Camila amanhã? — ele perguntou, sorrindo, os cabelos ainda molhados de suor.
— Não sei — respondi, rindo com a leveza da dúvida. — Talvez. Se prometer me proteger das más companhias...
— Eu sou a pior delas — ele piscou.
E foi aí que eu senti.
Não vi, mas senti.
A intensidade de um olhar que me atravessou a pele como uma lâmina quente.
Noah.
Ele estava do outro lado do pátio, parado, olhando fixamente para mim. Ou melhor... para nós.
O maxilar travado. Os punhos cerrados.
A respiração contida no peito largo.
Caio ainda falava, mas eu já não ouvia.
Meus olhos estavam presos naquele olhar que gritava.
Gritava ciúmes.
Gritava posse.
E, por dentro, confesso, um canto sombrio de mim amou ver aquilo.
Eu passei a mão nos cabelos, rindo de algo que nem lembro o que Caio disse.
Noah deu um passo. Depois outro.
Veio como uma tempestade.
Lento, ameaçador, controlado — o que tornava ainda mais perigoso.
Parou bem ao meu lado, como se a simples presença bastasse para apagar o mundo ao redor.
— Caio — ele disse, a voz baixa e fria como gelo.
— Noah — Caio respondeu, cauteloso, olhando para nós dois.
— A aula vai começar — ele falou olhando diretamente pra mim. — Não quer chegar comigo?
O convite era uma ordem disfarçada.
Mas eu sorri.
Porque o poder agora era meu.
— Estou terminando a conversa com o Caio. Você pode ir na frente.
Os olhos dele saiam faíscas.
— Posso esperar. Vai ser divertido.
Caio olhou para mim, desconfortável, e tocou meu ombro com leveza.
— Melhor eu ir — ele disse, com um sorriso gentil. — A gente se fala depois?
— Claro — respondi, sentindo Noah endurecer ao meu lado.
Assim que Caio se afastou, Noah se aproximou mais, invadindo meu espaço, o calor do corpo dele colidindo com o meu.
— O que foi aquilo? — ele perguntou, os olhos mergulhados nos meus.
— Uma conversa. Você deveria tentar às vezes. Sem destruir tudo ao redor.
— Ele estava te paquerando.
— E se estivesse?
Ele estreitou os olhos. Se aproximou ainda mais. A raiva e o desejo misturados.
— Você gosta de me provocar, não gosta?
— Eu gosto de viver. E de ver você sentir.
— Sentir o quê?
— O gosto amargo do que você me fez passar. Está sentindo agora? A incerteza? O medo de não ser o suficiente?
Ele mordeu o lábio inferior. O olhar vibrava entre orgulho ferido e excitação selvagem.
— Você quer me quebrar — ele disse, rouco.
— Não. Eu quero que você sinta. Como eu senti.
Ele me encurralou contra a parede do bloco B. O calor do corpo dele me incendiava.
— Parabéns — ele murmurou. — Está conseguindo.
Minha respiração era descompassada. Meu corpo gritava por ele. Mas eu não cederia. Ainda não.
— Vai ter que merecer — repeti, com a voz rouca.
Ele se afastou, finalmente, mas antes de ir, lançou a frase que gelou meu sangue.
— E eu vou. Nem que eu tenha que te fazer me odiar no processo.
Fiquei ali, parada, com o coração em colapso.
Odiá-lo?
Era tarde demais pra isso.