O Passado Escondido
Os dias após a descoberta do diário de sua avó foram marcados por uma sensação crescente de urgência e desespero. A presença da menina, a criança dos olhos vazios, parecia se intensificar a cada momento. Ela estava em todos os reflexos, nas sombras, nas superfícies brilhantes de vidro. Mas, embora as aparições se tornassem mais vívidas e perturbadoras, ninguém parecia entender o que Angelina estava passando.
Ela estava sozinha. Sozinha em sua dor e em sua busca desesperada por respostas. A verdade sobre a maldição da família, a figura da menina, o sangue... tudo isso parecia fora de alcance, como se estivesse em um lugar que ninguém mais pudesse ver, em um mundo à parte. Angelina sentia como se fosse a única capaz de ouvir os gritos silenciosos da menina, de entender a conexão entre ela e os espíritos que assombravam a casa. Mas ninguém mais acreditava nela.
Em casa, o comportamento de Angelina estava mudando. Seus pais começaram a perceber as sutis diferenças em sua atitude. Eles notaram como ela estava cada vez mais distraída, como se vivesse em um mundo paralelo. Seus olhos estavam cada vez mais cansados, seu sorriso, embora presente, parecia forçado. Ela não conseguia mais mentir para si mesma: o medo, as visões e a sensação de que estava sendo observada estavam se tornando uma parte inseparável de sua existência.
Na escola, a situação não era melhor. Seus amigos, antes tão próximos, começaram a olhar para ela com uma mistura de preocupação e desconfiança. Eles a viam cada vez mais retraída, perdida em pensamentos, com os olhos fixos nas sombras. Alguns começaram a cochichar por trás das portas, comentando sobre seu comportamento estranho, suas reações incomuns. A palavra "estranha" começou a ser sussurrada, e logo "louca" se seguiu.
Naquela manhã, a situação chegou a um ponto insustentável. Durante a aula de História, Angelina olhou para o quadro-n***o e viu a menina novamente. Ela estava parada no canto da sala, com o sangue escorrendo dos olhos, os mesmos olhos vazios que a perseguiam noite após noite. Mas ninguém mais a viu. Ninguém mais parecia perceber o que estava acontecendo. Ela piscou rapidamente, tentando afastar a visão, mas, ao olhar para o quadro novamente, tudo estava normal. As palavras de seu professor estavam ali, claras e visíveis. Mas a sensação de estar perdendo a realidade, de que o mundo estava se distorcendo, só aumentava.
Quando a aula terminou, seus colegas começaram a sair da sala, mas um deles ficou para trás, observando-a com um olhar preocupado. Lucas, seu amigo de longa data, aproximou-se com hesitação.
— Angelina, você tem certeza de que está bem? — perguntou ele, com a voz baixa. — Você… tem ficado muito estranha ultimamente. Isso não é você.
Ela o olhou, tentando esconder o medo que dominava sua mente. Queria falar, queria explicar o que estava acontecendo, mas as palavras falhavam. O que ela diria? Que estava sendo perseguida por uma figura que ninguém mais podia ver? Que a menina fantasma a observava o tempo todo, clamando por ajuda, mas sem explicar como?
— Eu estou bem, Lucas — disse ela, com um sorriso forçado, tentando manter a calma. — Eu só… só não tenho me sentido muito bem ultimamente.
Mas Lucas não parecia convencido. Ele olhou para ela com preocupação, os olhos cheios de dúvidas, antes de dar um passo para trás.
— Angelina, eu sei que você é forte, mas você não pode continuar assim. Você precisa falar com alguém. Isso não parece normal.
Ao ouvir essas palavras, algo dentro de Angelina quebrou. Ela tentou lutar contra o medo, contra a dor, mas já não conseguia. Sentiu as lágrimas se acumulando nos olhos, mas não conseguiu impedir que elas caíssem.
— Eu sei que não é normal, Lucas. — Sua voz estava trêmula. — Mas eu não sei o que fazer. Eu não sei o que está acontecendo comigo.
Naquela noite, as aparições se tornaram mais intensas. Quando Angelina entrou no quarto, a menina estava lá, mais próxima do que nunca. Ela estava parada no canto, o sangue escorrendo pelas bochechas e pescoço, os olhos vazios fixos em Angelina. A sensação de que a figura estava esperando por algo — ou alguém — se intensificou.
Angelina se aproximou lentamente, o medo apertando seu peito. Ela não sabia mais o que fazer. Como poderia continuar vivendo assim, com essa presença a assombrando todos os dias? Como explicar isso para os outros? Para sua mãe? Para seu pai?
Na manhã seguinte, o inevitável aconteceu.
Sua mãe, preocupada com o comportamento de Angelina, a levou para uma consulta com um psicólogo. Ela insistiu que fosse algo temporário, algo que poderia ser tratado, mas o olhar de sua mãe não mentia. A preocupação estava estampada em seu rosto.
No consultório, o psicólogo começou a fazer perguntas simples: sobre o comportamento de Angelina, sobre seu estado emocional, seus sentimentos. A menina tentou responder, mas sabia que a cada palavra que dizia, as chances de ser considerada "louca" aumentavam. Ela falava sobre as visões, sobre a menina fantasma, sobre o sangue e as sombras, mas sabia que as palavras não faziam sentido para o homem à sua frente. Ele não via o que ela via. Ele não ouvia o que ela ouvia.
Ao final da consulta, o psicólogo fez uma sugestão que fez o mundo de Angelina desabar.
— Acho que o melhor seria uma internação, Angelina. Você está passando por algo muito difícil, e isso parece estar afetando sua saúde mental. Vamos precisar de mais exames, mais avaliações.
Essas palavras a atingiram como uma faca. Ela não queria acreditar. Internada? Não, isso não era real. Ela não estava louca. Mas, no fundo, sabia que algo muito maior estava acontecendo, algo que ela não podia controlar. A menina estava em sua vida, e os fantasmas não a deixariam em paz.
Quando sua mãe a olhou com tristeza, seus olhos brilharam com uma dor silenciosa. Ela tentava convencer Angelina de que era para o bem dela, de que ela poderia ser ajudada. Mas, para Angelina, a ideia de ser internada era mais aterrorizante do que qualquer visão que ela tivesse. Isso significava que as pessoas iriam finalmente acreditar que ela estava fora de si, que ela estava louca. E ela não sabia se conseguia suportar isso.
Naquela noite, quando estava deitada em sua cama, as aparições começaram a se intensificar. A menina apareceu no espelho, mais uma vez, com os olhos vazios e o sangue escorrendo. Mas dessa vez, ela não estava apenas olhando. Ela apontou diretamente para Angelina, os dedos longos e pálidos esticados, como se estivesse chamando-a.
"Me ajude..." a voz ecoou, não em seus ouvidos, mas em sua mente, mais forte do que nunca.
Angelina não sabia como, mas ela estava começando a entender. A menina não estava apenas pedindo ajuda. Ela estava apontando para algo. Algo que estava fora do alcance de todos, mas que Angelina tinha que encontrar. Algo que estava relacionado a sua família, ao passado, e à própria maldição que ela carregava.
A sensação de estar perdendo o controle ficou mais forte. Ela sabia que se fosse internada, nunca mais teria a chance de descobrir a verdade. Mas havia algo mais. Algo que a menina queria, e apenas ela poderia entender.
Angelina sabia que sua vida estava prestes a mudar para sempre. Não era mais sobre o que as pessoas pensavam dela. Não era mais sobre ser vista como "normal" ou "louca". Era sobre salvar a si mesma — e talvez até a sua família.
---