Mole
A sala de reuniões estava lotada, e eu m*l conseguia encontrar um canto discreto para me esconder. Preferia ser invisível, como sempre, e hoje não era exceção.
Todos os olhares estavam voltados para o centro da sala, onde Mario e Tom estavam de pé, lado a lado, irradiando confiança.
Tom, com seu semblante tranquilo, parecia feliz com a notícia que iria dar.
—Boa tarde a todos.-começou Tom, todos estavam atentos a cada palavra do presidente. —Hoje é um dia de sentimentos mistos para mim. Após muitos anos à frente da Harris Corp, tomei a decisão de me aposentar.
o burburinho tomou conta da sala lotada. Tom levantou as mãos e fez um sinal para que deixassem ele continuar.
—-Quero dedicar mais tempo à minha família, aproveitar momentos preciosos que a intensidade da liderança me impediu de vivenciar plenamente... Essa empresa é como um filho para mim, e é por isso que essa decisão foi tomada com muito cuidado e reflexão. A Harris Corp. precisa de alguém que não apenas compreenda a nossa visão, mas que também tenha a energia, a competência e a paixão para levar nossa história adiante.
—É com grande orgulho que anuncio que Mário Drummond será o próximo presidente da Harris Corporação. Ele demonstrou, ao longo dos anos, não apenas ser um profissional extraordinário, mas também um líder nato, capaz de enfrentar os desafios do mercado e inspirar todos ao seu redor. Estou certo de que vocês continuarão a alcançar novos patamares sob sua liderança.Todos aplaudiram assim que ele concluiu o discurso, Tom abraçou Mário que parecia tentar conter a emoção do novo cargo.
Eu nunca tinha visto tanto entusiasmo em um único espaço. As pessoas cochichavam em tons animados, provavelmente comentando sobre o que essa transição significaria para a Harris Corporação.
Eu não sabia o que significava pra mim, agora com Mário na presidência eu não tinha certeza se iria continuar trabalhando como secretaria dele ou se acabaria trabalhando com quem ele nomeasse o novo vice presidente, respirei fundo tentando prestar atenção no discurso de Mário com medo de não poder mais trabalhar ao lado dele.
—Primeiramente eu queria pedir uma salva de palmas para o meu estimado ex -presidente e melhor amigo Tom Harris!!!-Disse Mário em um tom animado. Todos aplaudiram Tom com sorrisos emocionados já sabendo o quanto a presença dele faria falta. –Bom pessoal. -Mário continuou, e a sala se silenciou instantaneamente.
Eu me encolhi um pouco no meu canto. Era engraçado como ele tinha esse efeito nas pessoas. Mário não precisava gritar para ser ouvido. Sua presença preenchia o ambiente de um jeito que era difícil ignorar.
Ele agradeceu a Tom de novo e fez um pequeno discurso sobre como estava honrado em assumir a presidência, e o restante da sala respondeu com aplausos calorosos.
Eu bati palmas também, mas de forma automática, com o olhar fixo em algum ponto do chão.
Enquanto ele falava sobre os desafios e as oportunidades que a nova posição traria, não pude evitar de pensar em como tudo isso só o tornava mais inalcançável. Se antes ele já parecia uma estrela distante, agora ele era praticamente um planeta inteiro em outra galáxia.
—Agora, sobre algumas mudanças.-disse ele, sorrindo. —Quero começar ajustando a estrutura do nosso time, eu quero que os nossos visitantes sejam recebidos de forma mais humanizada então o andar de reunião vai mudar. Precisamos de eficiência e organização para garantir que possamos atender às demandas desse novo capítulo.
Foi quando senti os olhos dele voltados para mim.
— Por exemplo…Mole!
Eu quase pulei ao som do meu nome. Levantei os olhos devagar, percebendo que toda a sala também estava olhando na minha direção.
—Você vai continuar sendo minha secretária e agora como secretária da presidência. -ele disse, com a voz firme, mas com um sorriso casual. —Você vai trabalhar na sua própria sala ao meu lado. Vai ser mais fácil para a gente se comunicar e agilizar os processos. Considero você uma das peças-chave do meu time.
Eu pisquei algumas vezes, tentando processar o que ele acabara de dizer. Meu coração batia tão forte que parecia que todos podiam ouvir. Eu? Trabalhar na salinha ao lado da presidência?
—Isso significa que Ana Carla será realocada para a recepção da presidência até eu nomear o próximo vice-presidente, aí ela vai voltar ao posto de assistente da vice -presidência.-ele continuou, como se fosse algo completamente normal. —Ela vai assumir uma posição estratégica para lidar com as demandas externas e garantir que nossos visitantes sejam recebidos com a atenção que merecem.
Olhei de relance para Ana Carla, que estava sentada na frente. Ela forçou um sorriso, mas era óbvio que não estava nada feliz com a mudança. Suas mãos estavam apertadas sobre a mesa, os nós dos dedos brancos.
Mário continuou explicando outras mudanças, mas eu estava ocupada demais tentando entender o que aquilo significava para mim. Trabalhar tão perto dele... na sala ao lado... seria insuportável. Como eu esconderia meu nervosismo, minha paixão secreta, sabendo que ele estaria ali, a poucos metros de distância?
—-E, claro, essas mudanças entram em vigor na próxima semana. Espero que todos estejam prontos para essa nova fase. Conto com o empenho de todos vocês. -ele finalizou, sorrindo para a sala antes de se sentar.
As pessoas começaram a aplaudir novamente, mas eu não conseguia me juntar a elas. Meu corpo estava rígido, e minhas mãos suavam.
Ele falou que eu era uma peça-chave. Uma peça-chave. As palavras ecoavam na minha mente, mas eu sabia que ele não tinha ideia do impacto que causava em mim. Para ele, isso era só trabalho. Para mim, era uma tortura silenciosa.
Quando a reunião terminou, todos começaram a se levantar e conversar animadamente. Alguns foram parabenizar Mário pessoalmente, enquanto outros já estavam especulando sobre as mudanças. Eu permaneci no meu canto, esperando o fluxo de pessoas diminuir.
—-Ei, Mole. -A voz dele me tirou do meu transe.
Levantei os olhos e vi que ele estava bem na minha frente. Meu coração deu um salto.
—Está tudo bem?- ele perguntou, com aquele sorriso despretensioso que fazia minhas pernas fraquejarem.
—Ah, sim, claro. Só estou... processando tudo, estou muito feliz pelo senhor, doutor.-respondi, forçando um sorriso.
—Obrigado. Vai ser uma fase nova para todos nós, mas tenho certeza de que você vai se sair muito bem. Confio em você.- Ele me deu um tapinha no ombro antes de se afastar para falar com outra pessoa.
Confio em você.
Essas palavras, tão simples, deveriam ser apenas uma formalidade. Mas, para mim, eram como um raio. Não sabia como me sentir. Orgulhosa? Assustada? Um pouco dos dois?
Saí da sala com passos rápidos, ignorando os olhares curiosos de alguns colegas. Precisava de ar, precisava pensar. Como eu sobreviveria tão perto dele sem que ele percebesse o que eu realmente sentia?