Mole
—Não precisa agradecer. -ele respondeu, dando de ombros. —-Alguém tinha que calar a boca dela. Não entendo por que você ainda tenta argumentar com essa mulher. Ela não merece sua atenção.
Ele tinha razão, mas era difícil simplesmente ignorar. Entrei em casa e segurei a porta aberta para que ele me seguisse. Nicolas frequentava minha casa como se fosse a dele. Era um dos poucos lugares onde eu me sentia completamente à vontade.
—--Ela me tira do sério!-confessei, largando minha bolsa no sofá.--Acredita que ela fez eu me sentir m*l por ganhar uma sala?!
—Meus parabéns pela sala, mas ela te tira do sério porque você deixa. -ele retrucou, se jogando em uma das cadeiras. —-Escuta, Mole, você sabe que é boa no que faz. Essa sala é a prova disso. Não deixe a Mariana te fazer duvidar de quem você é, ok?
Assenti, mas não consegui responder. Por mais que ele tentasse me animar, as palavras de Mariana ainda ecoavam na minha cabeça.
Será que ela tinha razão? Será que o doutor Mário só me colocou na salinha para me esconder?
Eu não sabia, mas uma parte de mim temia que a resposta fosse algo que eu não queria ouvir.
Nicolas me observava, esperando que eu dissesse algo. Ele sempre sabia quando algo me incomodava, mesmo sem eu precisar abrir a boca.
Eu me sentei no sofá, abraçando uma almofada como se fosse um escudo contra meus pensamentos. A imagem de Mariana debochando de mim ainda estava fresca, mas eu decidi que não deixaria aquilo me abalar. Não completamente.
—Mesmo que o meu chefe tenha me colocado naquela sala só pra me esconder.-comecei, olhando para Nicolas, -eu não me importo. De verdade. É minha sala. Minhas responsabilidades. Algo que eu conquistei com o meu trabalho. E, sinceramente, isso já é mais do que eu esperava.
Nicolas arqueou uma sobrancelha e inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
—Você acha mesmo que ele fez isso pra te esconder?
Suspirei. —-Eu não sei. Talvez. É como Mariana disse, né? Não sou exatamente o tipo de pessoa que as pessoas querem exibir por aí. Não tenho um visual impressionante, nem sou do tipo que chama atenção numa sala cheia de gente.
Ele bufou, balançando a cabeça.
—-Você precisa parar de acreditar nessas besteiras que os outros falam, Mole. Mário te colocou lá porque confia em você. Isso é um fato. E se você não acredita em mim, pensa nisso: se ele quisesse alguém só pra enfeitar a sala dele, ele teria chamado a Ana Carla, não você.
Eu ri baixinho, mesmo com a leve pontada de culpa por achar graça da Ana Carla.
—Talvez. -admite. —Mas ainda assim... é difícil ignorar a possibilidade. De qualquer forma, eu estou feliz, Nick. Feliz de verdade. Mesmo que as intenções dele não sejam as melhores, eu vou provar que ele não cometeu um erro.
Ele sorriu, e o brilho de orgulho em seus olhos era impossível de ignorar.
—-Essa é a Mole que eu conheço. A mesma Mole que sempre dá um jeito, mesmo quando tudo parece estar contra ela. Sério, você precisa se dar mais crédito. Nem todo mundo teria chegado onde você chegou.
Era reconfortante ouvir isso. Nicolas sempre tinha uma maneira de me fazer enxergar o lado positivo, mesmo quando tudo parecia conspirar contra mim.
—-Obrigada, Nick. -murmurei, sorrindo para ele. —De verdade. Não sei o que faria sem você por perto.
Ele deu de ombros, mas seu sorriso era sincero.
—Provavelmente perderia mais tempo discutindo com a Mariana. -brincou, arrancando outra risada de mim.
—-Você tem razão.-concordei. —-Eu não devia gastar minha energia com ela.
Ele se levantou e esticou os braços acima da cabeça, como se fosse um atleta se preparando para uma corrida.
—-Isso aí. Agora, que tal a gente esquecer essa conversa chata e pedir uma pizza? Estou morrendo de fome.
—Você sempre está com fome.-provoquei, mas já me levantava para pegar o telefone.
Enquanto ele começava a discutir sobre qual sabor seria melhor, senti um peso saindo dos meus ombros. Nicolas tinha razão. Eu tinha que me concentrar no que realmente importava: o fato de que, pela primeira vez em anos, eu tinha conquistado algo significativo.
Minha própria sala, novas responsabilidades... talvez até novas oportunidades.
E, independentemente das intenções de Mário, eu sabia que essa era minha chance de mostrar o meu valor. E eu não ia desperdiçá-la.
—Você também acha que eu uso muito gel no cabelo? - perguntou Nicolas com um olhar sério que me fez rir.
—Então eu não devo ligar para o que ela diz, mas você liga?!
—Você não me respondeu…eu nunca tinha parado pra pensar nisso, quer dizer eu não tenho namorada, será que é o gel Mole? As garotas gostam de gel no cabelo? você é minha única amiga, tem que me contar.-Eu não consegui me segurar e acabei tendo uma crise de riso. passamos pelo menos meia hora conversando sobre gel de cabelo até que a pizza chegasse.