Ambas comeram frango grelhado com salada verde e arroz branco. O cardápio da Garden era sempre regrado de comidas saudáveis e leves para que os bailarinos mantivessem um corpo pro padrão da academia. Era a primeira vez que Laura viu tanta gente. Estavam todos os alunos de todos os graus ali, comendo. Havia quas cinquenta pessoas ali. O refeitório era bem espaçoso. Havia duas mesas longas de dois a três metros de comprimento. Bancos em sua extensão e mesa redondas distintas com quatro cadeiras no entorno. Quando Ally e Laura começaram a comer, três garotas caminharam se aproximando e uma delas apoiou ambas as mãos à mesa, bem à frente das duas colegas de quarto. Cada uma com sua beleza, uma era asiática, outra era loiríssima e a outra era morena com muitas curvas. .
— Olá novata! Gostando da Garden?
— Uhum! — Ally ficou desconfortável e Laura notou.
— Eu vim te dar as boas vindas e também um conselho. Se for esperta vai me agradecer depois.
— Pode falar!
— Saiba escolher suas amizades. Tem gente aqui que não merece nem ser chamada de bailarina, muito menos de amiga de alguém. Escolha com quem anda. Por exemplo, nós. — A loira encarou Ally e depois tornou a olhar para a Bediévre. — Sua vida pode ser bem mais fácil aqui. Depende de com quem você anda.
— Sai daqui antes que eu de na sua cara! — Ally se pôs de pé. Laura no mesmo instante se levantou e segurou o pulso da amiga. Ela temeu, pois agressões entre alunos não eram “aceitáveis” na Garden.
— Isso mesmo novata, controla seu cachorrinho raivoso.
— Garota eu vou quebrar essa sua cara.
— Eu agradeço o convite, mas eu posso escolher sozinha quem é meu amigo e pode deixar que você não está nessa lista. — Sorriu debochando.
— Achei que você fosse esperta, novata!
— Eu sou! Por isso sou amiga dela e não sua. — respondeu de imediato.
— Olha aqui!
— Olha eu tenho bastante paciência, sério. Mas não queira pagar pra ver.
— Depois não diaga que eu não avisei.
— Tchauzinho, Darth Vader de tutu! — Ally sorriu, abanou as mãos se despedindo. — Insuportáveis. Emma acha que pode mandar em todo mundo. Parece que tem prazer em tornar a minha vida um inferno.
— Calma, Ally! Não deixe isso te abalar não.
— Obrigado! Eu gostei muito de te conhecer, nós nos demos tão bem em tão pouco tempo. Mas é bom ficar esperta. Agora ela vai pegar no teu pé. Primeiro porque você anda comigo , e também porque afrontou ela. Educada e lindamente. — falou sorrindo largo.
— Mas ela implica, de graça, com você? — Questionou enquanto levavam seus pratos.
— Eu.. Não.. Quando..
— Se você não se sente confortável..
— Não, tudo bem! — interrompeu respondendo. — Você é minha amiga. — Disse envolvendo seu braço ao de Laura.
— Sabe Lala. — “ Eu ganhei um apelido.” — Eu já fiz parte delas. Eu já fui uma Darth Vader de tutu. — riu. — Até um dia, que elas implicaram com quem não devia. — ela abaixou seu olhar, como olhando para um vazio. — O nome dela era Allu. Minha mãe sempre gostou de nomes estranhos. Allyla, Allu.
— Como? Era sua irmã?
— Uhum! Emma e Cynder não sabiam. Ela era mais nova que eu 1 ano. Camille ainda não fazia parte da Garden. Eu briguei f**o com a Emma. Mas ela não parou. Continuou com suas piadas sobre o corpo dela, sua sexualidade, sua dificuldade nas aulas. Fez tanta coisa pra Allu. A última vez que a vi estava tão triste. Muito quieta. — Ambas sentaram no gramado perto da Roster, não havia quase ninguém por ali.
— Ally, não precisa. Não precisa contar. Eu não quero mais saber. — Ela estava prestes a chorar e Laura não queria fazê-la relembrar algo que parecia ser tão doloroso.
— Mas eu quero te contar. Você é minha amiga e quero que saiba, que entenda que a Garden não é esse “jardim”que aparenta. A alunos bons, como flores. Mas há muitos outros como espinhos.
— Uhum.
— Ano passado houve muitas mudanças, colocaram mais regras, mais câmeras, mudaram até a direção. Sabe, até o ano passado era muito mais livre, as duas academias viviam realmente em conjunto, não era proibido o acesso depois de determinado horário, não tinha toque de recolher. Tudo isso foi implantado depois que a minha irmã.. depois que.. — sua voz falhava e lágrimas começaram a descer. — Depois que a Allu morreu. Eles interditaram o lago e agora não tem mais livre acesso. O fato de eu andar com as meninas me fez ficar distante dela, que era uma primeiranista como você. Eu devia ter tomado conta dela, devia ter impedido os caras de tocarem nela, eu devia ter protegido ela. — seu choro não foi contido e começou a atrair poucos olhares das míseras pessoas que passavam por ali.
— Calma Ally. Oh minha amiga, não fica assim.
— Eles mataram ela. Mataram sua vontade de viver. Três caras idiotas que nunca pagaram pelo que fizeram, simplesmente porque não havia câmeras para comprovar. E a palavra acuada de uma bailarina não bastou para saber quem eram e muito menos que eles pagassem. Ela se afogou. Minha irmãzinha se afogou. — ficou em silêncio tentando parar as lágrimas e conter o soluço.
A revolta e a mágoa estavam no coração de Allyla, o luto e a dor eram companhias cruéis. Laura agora sentia que cada vez mais queria estar próxima dessa garota de cabelos rosados até a cintura. “ Como puderam? Há maldade no mundo inteiro. Não dá pra confiar em ninguém. ” Vários questionamentos passaram por sua mente enquanto consolava sua amiga que segurava ao máximo seu choro, mas que demonstrava que precisava desse carinho. Allyla não contou pra amiga, mas suas inimigas usavam desse luto como ferramenta para o bullying que cometiam. Ally perdeu as contas de quantas vezes perdeu aulas se escondendo no quarto pra chorar.
O alarme da Roster soou e Laura notou que o horário deles parece ser diferente do delas.
Começaram a sair os alunos de lá e então decidiu sair dali com a amiga. Ela estava chorando e não precisava de platéia. Se levantaram e retornaram para o quarto onde verdadeiramente Allyla chorou. Laura chorou. Ela adormeceu por volta das três e meia da tarde e a loira, em seu primeiro dia, havia perdido metade das aulas da tarde. Levantou e foi para a aula que restava com o coração doendo. Só de pensar no sofrimento de sua nova amiga lhe dava vontade de chorar, seu coração doía e sua mente enraivecia.
“Como sofreu a minha amiga. Sua mãe sozinha. Como enfrentou tudo. É nessas horas que me acho tão fraca. Não teria aguentado tudo, assim como a Ally aguentou.”