O celular de Ally despertou no mais alto possível e o som não era nada agradável. Era simplesmente a voz de Allyla gritando: Acorda bela adormecida! Isso fez com que as duas bailarinas se assustassem com o som tão alto que, provavelmente, os vizinhos também devem ter acordado junto. A de cabelos rosados caiu de joelhos no corredor, formado pelas camas, vestida de apenas uma camisa masculina e um short bem curto. Laura também saltou de sua cama, mas não chegou a cair.
— Eu sempre esqueço dessa desgraça! — embravecida se esticou até o telefone que ainda gritava incessante: acorda, acorda, acooooorda! Laura teve uma crise de risos e Allyla a encarou com os olhos semicerrados. Após desligar o telefone saltou sobre sua cama fazendo cosquinhas na loira. — Ah, então você achou graça do meu tombo, né!
— Ai meu Deus… ally! … assim.. se vai me m***r. Para sua doida!
Allyla se afastou sorrindo e correu direto para o banheiro.— Eu primeiro! — se adiantou fechando a porta rapidamente.
— Ah, não! Você é muito esperta, né?
— Mas é claro meu bem!
— Ah é mesmo! Então..cadê sua toalha? — Laura ficou de pé no corredor entre as camas segurando sua toalha e a dela enquanto exibia um sorriso maroto.
— Me da minha toalha, por favorzinho? — disse por uma fresta.
— Vem cá buscar.
— Por favor, Laurinha, Lala, meu amorzinho. — fez bico.
— Aí ai.. — Laura deixou a toalha preta sobre a cama e manteve a sua em suas mãos.
— Sua má! É, tão batendo na porta.
— Que mentira, vai pegar sua toalha logo.
— Não é sério! Olha lá. — Ally bateu duas vezes na porta do banheiro.
— Sai logo daí sua espertinha. Tá só atrapalhando. Bora Allyla!
— Sua chata. Pega minha toalha?
— Ah.. você é impossível, sabia? — pegou a toalha e deu a ela e ficou esperando recostada no móvel.
Elas se conheciam a menos de vinte e quatro horas e a conexão foi tão profunda que apreciam amigas de anos. Laura ficou feliz em encontrar uma amizade logo de início e ter se dado bem com sua colega de quarto.
Após quarenta minutos as duas saíram do quarto vestidas de um macacão preto próprio pra treinos e uma saia leve de mesma cor. Seus cabelos estavam presos em coques no alto da cabeça e Ally deixou duas mechas do cabelo rosado à frente de seu rosto. Elas caminharam para o refeitório com suas sapatilhas amarradas uma à outra e jogadas em seus ombros. No refeitório se alimentaram de vitamina de morango e cereais, torrada com geleia também de morango e saíram dali juntas, uma comendo maçã e a outra banana. Allyla odiava banana e as duas subiram para suas salas debatendo sobre suas frutas favoritas.
Ally seguiu para sua sala que era no final do corredor, ela estava no grau dois e Laura começaria no grau um. As séries eram divididas dessa forma e, do primeiro ao terceiro grau era possível chegar em um ano letivo que dura dez meses cada. As provas de adiantamento de grau, ou prova gradual, eram sempre de três em três meses. Então havia uma em abril, outra em julho, e outra em outubro e o final do ano letivo era sempre em novembro, no início do inverno.
Adiantar seus estudos não estava nos planos de Laura, mas gostaria de alcançar o nível de Ally pra que pudessem estudar juntas. Mas Ally havia comentado que era bem difícil passar em todas, mas a primeira, de Abril, era sempre a mais difícil.
Ela contou que eles exigem muita técnica nas apresentações e muito conhecimento teórico. Porque nem só de rodopios vive uma bailarina.
— Tchau Ally!
— Tchau amiga. — Despediu chorosa. Encenando uma despedida dolorosa. — Te vejo daqui três horas e meia. — disse entrando em sua sala.
Entrou na sala seis minutos antes do horário de início que é as oito da manhã. Era pra ser legal, mas para o tédio total a primeira aula, que iria durar simplesmente duas horas, era teórica, total e completamente teórica. Talvez ela estivesse em desvantagem já que não havia trago um caderno, mas a professora super gentil arrumou uma folha e um lápis e a loira teve que se virar com isso.
A mulher de quase sessenta anos e cabelos grisalhos falou tranquilamente por duas horas, explicando e explicando. As perguntas variavam de: Onde surgiu o ballet? Quando surgiu o Ballet? Quem dançou primeiro? Quais as regras, quem inventou tal passo, tal passada, certo giro. Coisas desse tipo.
— A dança surgiu no século XV, quinze, durante a Renascença, nas cortes italianas, embora o seu desenvolvimento tenha sido maior nas cortes francesas, no século XVII, dezessete, durante o reinado de Luís XIV, quatorze, fato que refletiu diretamente no vocabulário do balé. Apesar das grandes reformas de Noverre no século XVIII, dezoito, o balé entrou em declínio na França depois de 1830. Entretanto, ele continuou a ser aperfeiçoado na Dinamarca, Itália e Rússia. Anotem! — ditou com maestria. Ela caminhava de um lado ao outro enquanto contava de sua própria memória a criação dessa dança tão importante para Laura.
Apesar de as aulas teóricas serem bem chatas, normalmente, Laura estava tão empolgada com seu começo que duas horas passaram rapidamente e logo seguiu para a próxima aula segundo seu programa estudantil.
— Ballet Contemporâneo. Bom! Não é meu favorito, mas tem movimento.
Os bailarinos trocaram de sala e ao chegarem na próxima aula o professor já estava a postos. Eles se aqueceram por trinta minutos e depois ele ensinou aos iniciantes do que se tratava balé contemporâneo. Suas diferenças entre o balé Clássico e o Neoclássico. Laura já havia lido bastante sobre, mas o professor contou informações novas e seu gosto pelo estilo aumentou. O professor dividiu os alunos em duplas e um ajudava o outro, havia apenas sete bailarinos então uma das meninas teve que fazer algumas posturas com o professor. A aula seguiu tranquila e uma hora e meia se passaram em um piscar de olhos. Talvez fosse sua empolgação, mas se interessou mais ainda por esse estilo.
A campainha tocou indicando o fim do período diurno. Laura desceu a escadaria junto com vários outros alunos e foi direto para o refeitório ainda carregando sua sapatilha nos ombros. Item tão importante que não foi utilizado em nenhum momento essa manhã. Allyla estava na fila com duas bandejas vazias e acenou empolgada e sorridente para a colega de quarto.
— Ally eu te amo! Você guardou um lugar pra mim na fila. — deitou sobre o ombro da amiga agradecendo.
— Peguei pra tu também!
— Obrigado! — fez bico agradecendo.