Capítulo 3 - Carmine

1271 Words
— Pra que comprar vestidos curtos se ainda posso usar os seus? — contrapus, vendo-a suspirar pesadamente. — Está bem, sorella. Você venceu. Vamos até meu quarto escolher um dos meus para você vestir essa noite, já que se depender de você comprar um novo, nunca irá! Ela puxou minha mão para me arrastar até seu quarto. Ambra só sossegou ao me ver experimentar cada vestido curto de seu closet. Para que ela escolhesse o que ficasse melhor em mim. Minha irmã e eu sempre fomos muito unidas, desde criança. Somos só em duas irmãs, então isso fez com que a gente não tivesse outra escolha, a não ser nos tornarmos melhores amigas. Eu a amava muito e tinha certeza de que era um amor recíproco. Tinha que confessar que, às vezes, sentia pena dela, por já estar com dezenove anos, linda e atraente, sem poder se casar por minha culpa. Olhei-me no espelho, fitando meu pé. Tinha certeza absoluta de que se não fosse por minha deficiência, certamente os homens me olhariam de outra forma, talvez, quem sabe, com olhar de admiração, assim como olham para minha irmã. Mesmo com a deficiência, nunca deixei de curtir minha vida e de ser feliz, principalmente não me deixei abalar por conta dos inúmeros olhares julgadores e preconceituosos à minha volta. Sempre vivi normalmente, nunca permiti que esses olhares e alguns comentários maldosos abalassem minha autoestima. No entanto, sempre que a noite caía e eu abria um livro de romance para ler, ficava imaginando, igual uma boba, em como seria viver um romance de verdade. Pensava em qual seria a sensação de ter um homem me olhando de maneira apaixonada e com desejo. De ser beijada com paixão e furor. Acho que nunca descobriria essas sensações. No evento, daquela noite eu aproveitei para dançar e beber muitos ponches. Adorava as bebidas que eram servidas nas festas, por isso muitas vezes acabava exagerando, o que sempre alterava meu estado. O bom era que fazia isso há um tempo, além de controlar bem o meu estado alcoólico, também sabia disfarçar quando passava do ponto. E convenhamos, disfarçar para mim era muito fácil, considerando que quase ninguém reparava em mim, nem meus pais reparavam, quem dirá as pessoas da sociedade. Só minha irmã que era a pessoa que me conhecia melhor no mundo reparava. — Você viu quem veio? — Estava tomando um gole do ponche quando Ambra se aproximou de mim a fim de conversarmos. — Não, quem? — questionei, curiosa, virando-me para olhá-la. Ela apontou discretamente com a cabeça, como sempre fazia, para a entrada do evento, nesse momento vi Nicolo Caccini e sua esposa Sienna juntos. Atrás deles, vinha Lorenzo Caccini, o consigliere de Tommasso. Meu estômago se contorceu de maneira violenta e meu corpo estremeceu por completo, ainda mais que nossos olhares de cruzaram. Algo em mim, ainda não descoberto, se aqueceu de maneira instantânea. Era incrível como meu corpo reagia de maneira estranha e intensa toda vez que eu o via. Dessa vez, foi um tanto pior, porque Lorenzo me olhou com intensidade, ato que não tinha costume de fazer e ainda demorou a retirar seu olhar sobre mim. Notei que o homem de um metro e noventa, postura intimidante e charme inegável, avaliou-me de cima a baixo, o que me fez sentir um frio gélido na barriga. Fiquei sem graça diante ao seu olhar curioso e intensificado, então desviei o olhar dele com pressa. Lorenzo nunca tinha me olhado antes da forma que olhou nessa noite, com misto de curiosidade e arrogância. Na verdade, nunca o tinha visto me olhando, nos eventos eram raras às vezes que nossos olhares se cruzavam por pouquíssimos segundos. E todas as vezes que olhava para Lorenzo, infelizmente notava que ele observava a minha irmã, e não a mim. A forma que ele olhava para ela era intensa, dava para notar de longe seu interesse por Ambra. No entanto, eu tentava dizer para mim mesma que ele só contemplava a beleza da minha sorella, igual aos demais homens presentes. — Você também viu isto? — sussurrei no ouvido de Ambra que me fitou confusa. — O quê? — Lorenzo me olhou... Não consegui esconder esse acontecimento inédito de Ambra, ela era minha confidente e, para mim, só o fato de Lorenzo ter me olhando nos olhos por mais de um minuto me dava certa esperança. Ele era um homem dos sonhos. Apesar de saber que Lorenzo era um mafioso, que cometia crimes hediondos e era um dos membros mais importantes da máfia Caccini, não me assustava nem um pouco, ao contrário, me sentia instigada. Ele tinha uma face de mau, um olhar penetrante e uma aparência que ousaria o comparar a um deus grego. Per Dio. Lorenzo Caccini era mais do que poderia sonhar em um dia ter. Um homem como ele nunca olharia com paixão e volúpia para uma mulher como eu. Estava sonhando alto demais, e sabia disso. — E qual o motivo do seu alarde? É normal que ele te olhe, Carmine, você ainda não percebeu o quão lindíssima está, irmã. — Ela sorriu, desdenhando de mim. Ambra sempre conseguia aumentar minha autoestima, ela era um amor, tinha sorte de tê-la como irmã. — Garanto a você que se eu fosse um homem e você não fosse minha irmã eu te pediria em casamento hoje mesmo, de tão linda que você está. — Ambra, acontece que Lorenzo Caccini nunca me olhou por mais de um segundo, por isso estou em surto — resmunguei, inclinando-me para dar continuidade em nossa conversa por conta do som alto. — Ele sempre olhava para você e não para mim, — Deixa de besteira, Car, tenho certeza de que por conta da sua baixa autoestima você nunca repara nos homens que te olham. — Eu não tenho baixa autoestima — retruquei, cruzando os braços. — Tem sim. E precisa urgentemente trabalhar nisso. Não gosto que se coloque para baixo — discordou. — Agora venha, pare de pensar em Lorenzo Caccini, vamos dançar! Ela entrelaçou o seu braço no meu e nos dirigimos à pista de dança. Era impossível não pensar em Lorenzo Caccini. Não estava ficando louca, ele tinha me olhado de uma forma diferente, de um jeito especulador. — Mas, Ambra, não tem quase ninguém usando a pista de dança! Olhei em volta um tanto tímida. Somente nós estávamos arriscando alguns passos. Ambra deu de ombros e jogou o cabelo para o lado. — E isso importa? — questionou, rindo, fazendo-me perder a timidez. Nós duas dançamos juntas sem nos importar com as pessoas à nossa volta. Depois de um tempo, decidi parar um pouco de dançar e fui tomar um ar no jardim, estava começando a suar por culpa da dança frenética. Andei pelos labirintos do jardim, sentindo o vento gelado, a brisa das árvores, balançarem meus cabelos e refrescarem meu corpo. Parei de andar e olhei para o céu estrelado. Fiquei o observando distraidamente. Às vezes gostava de contar estrelas para passar o tempo. Isso me relaxava e me deixava em paz. — Aproveitando o ar fresco? Levei um belo susto ao escutar a voz grossa, rouca e autoritária atrás de mim. Virei-me rapidamente na direção da voz, levei a mão ao peito, sentindo meus batimentos cardíacos dispararem loucamente. Meu coração quase saiu pela boca ao perceber que era Lorenzo Caccini o dono da tal voz que me surpreendeu. Ele estava parado diante de mim, olhando-me com atenção. Seus olhos estavam semicerrados e mais intensos que nunca a luz da noite. Per Dio. Foi por pouco que o italiano não me causou um infarto.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD