Olivia
Cinco Anos Depois...
E mais uma vez estou olhando para a porta verde com o número 26 acima do olho mágico o número seis pendendo para baixo como prova do tempo que está lá, não esperaria menos de um apartamento em um prédio caindo aos pedaços, mas toda a minha esperança está lá dentro, provavelmente caído no sofá de couro rasgado se curando de mais uma ressaca com whisky velho barato.
Detetive Daniel Lenox, eu o conheci em um bar há quase dois anos atrás, retirado do seu posto na policia por uma lesão grave na perna direita passa seus dias perseguindo maridos infiéis e tirando fotos de seus encontros para esposas terem provas de seus adultérios e conseguirem tirar até o último centavo de seus bolsos, não parecia muito promissor para mim quando ele me deu seu cartão de visita em um bar de beira de estrada cheirando a cigarro, álcool e suor, mas para ser sincera eu também não parecia ser uma pessoa promissora, com algumas notas no bolso e sem qualquer perspectiva de vida além do trabalho de transcrição que pagava minhas contas. Ele seria o melhor que conseguiria na época e para ser honesta agora também, minha vida financeira não mudou muito nos últimos dois anos, não quando quase todo o meu dinheiro vai para as viagens e pesquisas de Daniel atrás da minha filha.
Sim, passaram cinco anos, ela tem agora essa idade, deve está indo para a pré-escola e conhecendo o mundo além de sua casa, assim espero ao menos. É assim que sonho que ela esteja: Com uma família que a ama, que a protege e que a direcione a ser um ser humano incrível, às vezes um lado sombrio meu pensa que ela pode estar nas ruas ou em um orfanato abandonado ou ate mesmo com uma família que só pensa no dinheiro que ela trará pra eles ou o pior das possibilidades que meu pequeno amendoim esteja morta, mas esse são poucos os dias, na maioria me mantenho positiva esse é o único caminho que posso seguir para que eu consiga continuar, mesmo que agora admita com mais frequência que cada ano que passa, cada mês e cada dia se torna muito mais difícil de suportar esse buraco n***o no meu coração onde minha filha deveria estar.
— Lenox — Bato com o punho fechado na porta o mais alto que posso. O homem não se mantém sóbrio um dia para manter sua vida — Levante a b***a desse sofá e abra a porta
— A porta está aberta Liv, entre! — A voz limpa é o primeiro indicio que algo muito errado está acontecendo por aqui
— Você não está sem suas calças de novo, não é? — Respondo de volta ainda sem me mover — Eu não me responsabilizo pelos meus atos se eu entrar e você estiver apenas de samba canção de oncinha Lenox, eu ainda me sinto traumatizada com a última vez
Ouço uma gargalhada rouca e então passos ficando mais alto até a porta ser aberta e a figura alta, morena e forte com um sorriso fácil aparece na minha frente. Lenox é um homem muito bonito, músculos definidos em um corpo atlético e um rosto de tirar o fôlego com maxilar quadrado coberto com uma barba que incrivelmente sempre está bem aparada, cabelos de um loiro tão escuro que às vezes parece castanho, chegando à casa dos 40 me pergunto por que ele ainda não sossegou, encontrou uma boa garota e construiu uma família, tenho quase certeza que pretendentes é que não faltam.
— Com calças minha senhora — Ele aponta para o óbvio — E grandes novidades também
— Novidades? — Meu coração dar um pequeno salto enquanto eu passo pela porta indo em direção à mesa cheia de papéis e copos sujos — Você tomou banho? — Franzo o nariz enquanto Daniel passa por mim para ir atrás de sua mesa e sentar na cadeira que range de encontro ao seu peso
— Não aja com tanta surpresa, eu tomo banho — Seu rosto é pura indignação, mas sua voz é leve como sempre.
Em dois anos nunca peguei Daniel em um dia r**m, ele sempre está com seu sorriso fácil e suas piadas ruins, mesmo eu tendo certeza que ele odeia suas perseguições a maridos traidores e odeia ainda mais sua deficiência que o tirou do trabalho que tanto amava. Minha aposta que todas as bebidas são para entorpecer essa raiva dentro de si, também gosto de pensar que o meu caso é algum tipo de balsamo em sua carreira como detetive por isso ele tem tanto empenho nele desde quando lhe contei toda a minha história. Nunca admitirei em voz alta, mas eu tenho adquirido certo apreço pelo homem.
— Não que eu já tenha testemunhado — Resmungo com um sorriso contorcido, olhando de relance para ele que me estuda com sua expressão relaxada — Você disse que tem novidades?
— Demorou um pouco, alguns para não dizer muitos becos sem saída, mas eu conseguir encontrar o internato e com um pouco de persuasão e charme conseguir o detalhes sobre a madre que trabalhava na época em que você esteve lá, ela não estava mais no lugar, o que precisei de mais algum tempo pra encontrar o endereço...
— Porque você tá me contando esses fatos que eu já sei? Eu estive bem aqui com você nesses últimos dois anos Lanox e todo o meu dinheiro também. — Falo sem paciência
— Você está estragando meu monólogo — Ele rebate — Sente-se e escute o que tenho a dizer sua estraga prazeres
Respiro fundo tentando encontrar algum tipo de paciência em mim e me sento o encarando dando a deixa para que ele continue
— Tínhamos entrado no beco sem saída porque a velha tinha morrido não é mesmo? — Balanço a cabeça em concordância, até penso em pedir para ele ter mais respeito com os mortos ou idosos ou até mesmo freiras, mas então lembro que a velha tinha tirado minha filha de mim, então f**a-se ela.
— Então você encontrou a ajudante que nos deu o nome da enfermeira que estava comigo no dia e fez meu parto, mas não levou a lugar nenhum porque não existe nenhuma Lydia Alvarez...
— Aí que entra as novidades veio á mim em uma epifania que pessoas mudam seus sobrenomes quando casam o que poderia ser o caso dessa Lydia então com alguma ajuda cibernética que pode ou não ter infringido algumas leis
— Que tipo de leis Lenox? — Não que isso importe agora.
— Algumas de — Em um sopro ele desvia o olhar do meu ao falar — Privacidade... Mas nada disso importa agora, o que importa é que eu estava absolutamente certo, Lydia Alvarez agora é Lydia Briantine ainda enfermeira só que em outra cidade diferente da que residia cinco anos atrás.
Meus olhos se enchem de lagrimas, mas evito que elas caíam, farei isso mais tarde no banho ou em minha cama quando ninguém puder presenciar. Solto um suspiro enquanto pressiono minhas mãos trêmulas juntas.
— Como... — Um nó de dor e medo tranca minha garganta por um momento, eu tenho que limpa-la duas vezes antes de continuar. O olhar de Daniel em mim se mescla entre a pena e o entendimento — Como você tem certeza que é ela?
— Meu amigo procurou em hospitais de cidades próximas ao internato a ficha de funcionários, tinha algumas Lydias, mas nenhuma Alvarez como ela tinha dito. O sobrenome Briantine me soou familiar em outra pesquisa minha... A Irmã Cora já foi uma Briantine antes de ser só irmã Cora devota a Deus, mas que aceita dinheiro para construir uma capela em troca de arrancar bebês de suas mães, o marido da enfermeira era sobrinho da velha morta.
— Oh Deus! — O som sai feio e estrangulado da minha garganta. Em dois anos de busca essa é a pista mais quente que nós conseguimos
— Eu fui atrás da Lydia ela não quis falar logo de cara, mas nada que uma ameaça sobre denuncia de sequestro de menor não faça enfermeiras pilantras falarem... Ela me deu o endereço de onde sua filha foi deixada Olivia. Um hospital. Foi lá de onde levaram ela para o sistema. — Ele sorri para mim e pela primeira vez desde que nos conhecemos não é um sorriso de deboche ou fachada, é um sorriso genuíno e honesto.
Eu pensei muitas vezes nesse momento, no momento que eu saberia exatamente onde minha filha está, que eu poderia finalmente alcança-la, vê-la, provavelmente toca-la. Pensei em todas as reações e sentimentos que teria até as palavras que iria falar, mas nesse momento eu congelo com todas as possibilidades, com todos os medos e acima de tudo com o raio de esperança que há muito tempo não passava pelo meu coração.
— Olivia? Você está me ouvindo?
O punho fechado vai até meu peito e eu sinto o peso de todos os sentimentos em turbilhoes então um nó fecha minhas vias respiratórias e o mundo fica preto por um instante e novamente volta todas as suas cores. Eu não desmaiarei agora, ou terei algum tipo de crise, eu preciso ser forte um pouquinho mais porque eu estou tão perto... Tão perto que se fechar os olhos e acalmar todas as minhas terminações nervosas eu poderia facilmente senti-la.
— Estou... — Tento recuperar minha voz com uma respiração funda — Você sabe onde ela está agora?
Daniel sorri novamente com olhos mais complacentes que eu já vi e que acho possível de ele conseguir me dar.
— Eu sei. Não foi tão difícil depois do hospital... O processo aconteceu na mesma cidade então...
Eu solto a respiração que nem sabia que estava prendendo, uma respiração presa há anos.
— Ela... Ela está viva? — Minha visão já embaçada piora até que a primeira lágrima desce livremente pelo meu rosto
— É claro que ela está viva Olivia — Daniel fala com uma voz firme, mas agradável — Que tipo de pergunta é essa? Você nunca duvidou em nenhum momento disso, quis quebrar um jarro na minha cabeça quando questionei isso assim que nos conhecemos.
— Eu não sei... Eu só... — Minhas mãos tremem sem parar, agarro o braço da cadeira tentando estabiliza-las — Me conte...
— Ela está viva. É uma garotinha muito fofa, com seus lindos olhos verdes e seu cabelo ruivo, ela mora em um cidade não muito longe daqui com o pai... Adotivo que daria o mundo se ela pedisse, ela vive muito bem, é amada...
— S-Seu nom-e?
Daniel puxa a gaveta de sua mesa e procura algo por um momento embaixo de todos os papéis lá dentro, então pega um envelope azul dobrado e estende em minha direção, demoro alguns segundos para ter alguma reação. Solto minha mão devagar do braço da cadeira e então o estendo em direção à dele e enfim pego o envelope, olho para ele como se fosse algo de outro mundo em minhas mãos depois encaro Daniel novamente esperando-o me dizer o que fazer com aquilo, como se eu não tivesse a habilidade de saber isso.
— Abra — Ele me ordena e eu o obedeço no automático — O nome dela é Amanda Maddox — Há uma pequena foto de uma garotinha sorridente com cabelos quase da cor dos meus e olhos vibrantes e verdes, ela falta um dente na parte inferior da frente de sua boca o que a deixa mais adorável ainda e ela está abraçada a uma mulher tão sorridente quanto ela.
Minha filha, minha doce filha... Depois de cinco anos, ainda não parece real que eu possa ver seu lindo rosto. Lágrimas descem pelo meu rosto e eu as deixo, finalmente me sentindo feliz pela primeira vez em muito tempo.