Christopher
— Primeiramente, eu gostaria de parabenizar todos os meus colegas de trabalho pelas excelentes apresentações. — os ouvintes me olharam com estranheza por essa ser a primeira frase da minha palestra, mas aplaudiram mesmo assim. — Conseguiram idealizar muito bem todas as partes técnicas e peças necessárias que fazem uma propaganda ser uma boa propaganda. Confesso que acho tudo isso muito admirável. — eu tentava ser o mais claro possível e mantinha a minha dicção concentrada. — Nós todos estudamos muito pra estarmos em nossas atuais posições, pra conseguirmos mostrar o que há de melhor na nossa criatividade. Porém, meus amigos, esse não é o ingrediente principal na publicidade. Não estou dizendo que não devem treinar o cérebro de vocês, pelo contrário, os estudos sobre a sociedade e tudo o que a envolve devem ser constantes. Mas essa não é a chave.
— Está dizendo que não devemos passar nossas noites em claro, nos dedicando à um projeto, Uckermann? — Henri gritou em meio a todos, olhando em direção à Dulce, que franziu a testa como se não entendesse suas intenções.
— Se está falando sobre a política da nossa empresa, Cortez, pode ter certeza que para a Saviñon's Publicity, o bem estar dos de dentro é tão importante quanto a aprovação dos de fora. — dei uma piscadela em direção à Dulce e ela sorriu satisfeita. — Mas essa não é a questão. De que adiantaria virar noites em claro montando um projeto sem amar tudo aquilo? Como conseguir dar magia e vida a algo que não se ama? E essa é a chave. A chave em todas as carreiras, eu diria. Olhar para o mundo com mais amor é também entender as necessidades dele de forma mais clara, tornando-as reais em publicidades que fazem o público sentir a essência do que está sendo apresentado, surgindo dentro de si a vontade de possuir o que se vê.
Continuei com slides, falando e mostrando todas as melhores propagandas que pude selecionar, usando-as como exemplo de minhas palavras.
Muitas de décadas diferentes, pra que eu pudesse mostrar como a publicidade se adequava às novas eras, exaltando a necessidade do publicitário de se reinventar e se adequar às novas gerações.
Pela expressão atenta de todos, eu diria que estava me saindo melhor do que a maioria e tinha grandes chances de ser escolhido como o favorito para representar a empresa.
— Creio que o ramo da publicidade seja aquele que mais liga o profissional ao cliente. Foi nessa área que eu aprendi a olhar melhor para as pessoas, entender as suas necessidades e enxergar além das aparências. — na última frase, olhei em direção da Dulce. — Esse é um trabalho feito para pessoas que possuem humanidade, que possuem empatia... e amor.
Todos ficaram de pé e aplaudiram animadamente após a minha finalização.
Suspirei aliviado por ter conseguido ser firme até a minha última palavra.
Depois de agradecer pela atenção, eu saí do palco e fui em direção à Dulce, mas antes que me aproximasse, Bernardo correu até mim e me abraçou muito apertado.
— Você foi demais! — ele disse.
— Obrigado, garotão! — afaguei seus cabelos.
— Acho que quando eu crescer vou querer fazer o que você faz. — sorriu.
— É muito bom ouvir isso. — me agachei para ficar da mesma altura que ele. — Eu tenho certeza que você vai se sair bem e que vai amar tudo isso.
Distanciei um pouco o meu olhar e vi Dulce conversando com Allan Morgan. Tinha certeza que ele não havia sido convidado e que sua presença irritou a Dulce.
Quando pensei em ir até lá para afastá-lo, os dois começaram a caminhar até a casa e não pareciam discutir, ao contrário, era como se tivessem saído para conversar melhor.
— Creio que deva conhecer o Allan. — ouvi a voz da mãe de Dulce atrás de mim e fiquei de pé.
— Sim. — respondi apenas.
— Ele e Dulce sempre foram muito grudados quando jovens e é uma pena que não seja mais assim. — impressão minha, ou ela estava tentando me alfinetar? — Ele seria um ótimo partido pra ela.
— Ah, é mesmo? — cruzei os braços e a encarei.
— Sim. Estão no mesmo nível.
— Olha, senhora Saviñon, eu sinto muito por quebrar as suas expectativas e desejos, mas eu não vou sair de perto da Dulce tão cedo. — falei com convicção.
— Acredita mesmo nisso? — riu. — Se apaixonou pela pessoa errada e logo verá isso.
— deu uma piscadela e se afastou.
— Tio Christopher, o que ela quis dizer com isso? — Bernardo perguntou.
— Nada, ela só é muito ciumenta com a Dulce. Coisa de mãe. — sorri tentando acalma-lo.
— Pode me levar pra casa? Mas antes eu quero me despedir da tia Dul.
— Ok. Vamos lá.
Segurei sua mão e nós fomos até a casa.
Chegando na sala, eu parei um pouco antes para não atrapalhar qualquer que fosse o assunto tratado entre ela e Morgan. Acabei escutando parte da conversa.
— Essa é uma coisa muito importante para nós dois e espero que possamos manter as coisas apaziguadas. — ele disse.
— Eu sou civilizada, Allan. Você deve se preocupar é com a Catarina. Aposto que ela vai detestar saber desse acordo.
— Ela vai ter que crescer e entender que esse evento é mais importante do que qualquer birra que ela tenha com você.
— Ou que você tenha comigo. — Dulce completou.
— Dulce, minha querida. — ele se aproximou e tocou o rosto dela e para o meu desconforto, ela não se afastou. — Sabe que eu não a odeio. Isso são águas passadas. O meu maior desejo é que nós voltemos a ser amigos, ou até mais...
— Com licença. — entrei na sala antes que Dulce respondesse. Ela se afastou rapidamente de Allan e me olhou. — Eu vou levar o Bernardo pra casa e ele quer se despedir.
— Ah, claro. — Dulce sorriu e abriu os braços que serviram de aconchego para o Bernardo. — Obrigada por ter vindo, meu bem.
— Obrigada pelos doces. — falou ele com graça.
— Vamos, Bê? — o chamei.
Dei as costas sem nem sequer cumprimentar o Allan. Não gostava dele e não faria questão de forçar simpatia.
O que me incomodava agora era saber que Dulce faria algum tipo de acordo com ele, mesmo com o fato de que no passado ele a passou pra trás. O porquê dessa confiança de uma hora para outra?
Acabei ficando no orfanato mais tempo do que o esperado, conversando com Bernardo e com as outras crianças.
Voltei para a casa de Dulce já pela noite, quando todos já haviam ido embora.
Assim que abri a porta, a vi sentada no sofá, usando seus óculos, vestindo uma camisola de seda e lendo um livro enquanto bebia uma xícara de café.
— Olá. — eu disse me sentando ao seu lado.
— Você não voltou a tempo do resultado. Você venceu, vai representar a nossa empresa! — ela disse animada.
— Ótimo. — não mostrei tanta animação quanto queria.
— Qual o problema? — franziu a testa.
— Que tipo de acordo você fez com o Allan?
— É isso o que te preocupa? Eu acabei de dizer que você deu um salto na sua carreira e você está pensando sobre os acordos que a sua chefe faz?
— Foi só uma pergunta, não precisa se sentir acusada e nem precisa responder se não quiser. — fiquei de pé fazendo menção de sair.
— Espera, foi m*l. É que eu nunca tive que dar satisfação sobre os meus assuntos profissionais.
— E você não tem. O que a minha 'chefe' faz não é da minha conta. — falei dando ênfase na palavra "chefe", fazendo com que ficasse claro o meu incômodo.
— Christopher... desculpa, eu não queria que você tivesse me levado à m*l. — ela ficou de pé e segurou minhas mãos.
— Tudo bem. Não tem problema que você se sinta mais minha chefe do que minha namorada. O que eu poderia esperar? — deslizei minhas mãos para longe das dela.
— Eu não penso assim. — ela disse com um semblante sério.
— Você não tem que se explicar. Eu tô muito cansado, preciso dormir. — dei as costas e comecei a andar em direção à escada.
— Nós mudamos de quarto por causa da minha mãe. É o primeiro à direita agora.
— Ok. — respondi sem olhar para trás.
Entrei no quarto, sentei na cama e juntei minhas mãos tentando descarregar a minha mente depois de um dia cheio.
Era fato que havia ficado chateado por ela ter me avaliado como minha chefe antes mesmo de lembrar que nós namorávamos.
Não que eu quisesse ter um tratamento diferencial, mas fora da empresa ela era só a minha Dulce, uma mulher normal e nada desafiadora. Me incomodava saber que ela não separava as coisas como eu.