Dulce
As visitas dos Morgan's sempre eram desagradáveis, mas dessa vez, Allan veio até minha casa com boas ideias e soluções que poderiam ajudar na imagem de ambas as empresas. O problema era que isso envolvia o Christopher e eu não tinha certeza se ele iria concordar com isso, tendo em vista o histórico da relação dele com os Morgan's.
Allan propôs que um só funcionário representasse nossas duas empresas ao mesmo tempo. Mostraríamos ao público que a rivalidade acabou, trazendo holofotes e interesse comercial para o nosso negócio. E mesmo que isso fosse uma farsa, geraria lucro e boa imagem.
Jantei apenas com a minha mãe aquela noite, que reclamou o tempo inteiro do meu relacionamento, reafirmando que eu deveria apostar em um homem da classe alta.
Sabendo que não iria mudar as opiniões da Mary, eu apenas revirava os olhos e nada dizia, torcendo para que ela ficasse quieta sobre aquilo.
Adiantei um pouco do meu trabalho no escritório e já tarde da noite, eu fui até o meu quarto, onde encontrei Christopher dormindo de costas para a porta.
Sentei ao lado dele e acariciei seus cachos que começavam a se formar à medida que cresciam.
Curvei-me para próximo de seu rosto e depositei um leve beijo, seguido por um respirar fundo, trazendo o perfume dele para as minhas narinas.
— Eu te amo. — sussurrei, mesmo que ele não fosse escutar as minhas palavras. — Desculpe se te fiz sentir m*l. Você é a pessoa mais importante pra mim e eu detestaria que você se decepcionasse comigo. Prometo ser melhor, eu estou tentando... — depois de proferir aquelas palavras, eu me aconcheguei debaixo do cobertor e fechei os meus olhos.
Senti Christopher se mexer, confirmando que ainda estava acordado. Ele virou de frente para mim e depositou um beijo em minha testa. Logo depois, me trouxe para perto do seu peito, envolvendo seus braços em volta de mim, como um escudo protetor.
Ele não precisava me responder com palavras. Seus gestos já mostravam o que ele queria dizer e tudo aquilo era suficiente pra mim. Tudo nele me fazia feliz.
{...}
Manhã de domingo, dia de acordar um pouco mais tarde, mas não para mim. Minha mente se acostumou com os horários da empresa e eu sempre levantava antes das seis da manhã.
Deixei Christopher dormindo e fui fazer minhas higienes matinais. Como não tinha planos de sair ou receber visitas, eu vesti uma calça de moletom cinza, uma camiseta e calcei meus chinelos.
Desci até a cozinha para preparar o meu café da manhã e vi que minha mãe levantou antes de mim e estava lutando com a lata de lixo, tentando jogar um grande fichário já estragado dentro dele.
— O que está fazendo? — perguntei com estranheza.
— Essa coisa estava no meu quarto e eu só estou jogando fora.
— Espera, o que? — tirei rapidamente o fichário de suas mãos e coloquei sobre o balcão. — Mary! Isso é do Christopher!
— Bem, era. — deu de ombros.
— O que você fez? — as páginas estavam grudadas, e os textos borrados, praticamente ilegíveis.
— Eu posso ter derrubado na minha banheira sem querer.
— Certeza que foi sem querer? — perguntei desconfiada.
— Duvidando da sua mãe?
— Se você está pensando em inferniza-lo, pode ir tirando o seu cavalinho da chuva! — a repreendi.
— Eu já disse que foi sem querer!
— Bom dia. — Christopher apareceu na cozinha e eu me esquivei sobre o fichário, torcendo pra que ele não visse.
— Bom dia, meu amor. Como dormiu? — abri o meu mais largo sorriso.
— Bem. — ele se aproximou, focando seu olhar para o fichário abaixo de meus braços. — O que é isso? — ele tentou pegar, mas eu afastei. Christopher me olhou com estranheza. — Vai mesmo me esconder?
— Olha, antes você precisa entender que foi sem querer e... — antes que eu terminasse de falar, ele puxou o fichário e o abriu. — Então... é que a mamãe...
— Senhora Saviñon... — ele encarou a Mary com fúria. — Tem noção de quanto tempo eu demorei nesse projeto? Agora terei que recomeçar! — Christopher demonstrava um misto de raiva e desespero.
— Você não está preparado pra esse tipo de imprevisto? — deu um gole em seu café, totalmente despreocupada.
— Infelizmente, na faculdade não tinha a matéria "como lidar com a mãe da sua chefe/namorada". — ironizou. — Não acredito que tentou me sabotar. — tornou a analisar o fichário.
— Ela não tentou fazer isso. — tentei acalma-lo. — Foi um acidente.
— E você acredita nisso? Ontem mesmo ela disse que eu iria me arrepender de ter me apaixonado por você! Acho que ela seria bem capaz de tentar me irritar! — subiu o tom de voz.
— Você disse o que? — encarei Mary que apenas deu de ombros. — Christopher, posso resolver isso. Eu encaminho esse projeto pra outro funcionário e você foca na sua palestra, que é a coisa mais importante agora. — ele assentiu devagar. — Ok, agora nós podemos tomar café da manhã? — eu sorri, como se fingir que nada tivesse acontecido pudesse melhorar o clima r**m.
— Não posso ficar. — ele olhou o relógio de pulso. — Encontrei um apartamento interessante no site da imobiliária e eles vão fazer uma visitação agora pela manhã. Vai ter uma recepção com café da manhã, então eu como lá.
— Apartamento? Mas já encontrou? — me desanimei.
— Só vou visitar, mas quem sabe?
— Tá... — desviei o olhar.
— Volto antes do almoço. — ele me deu um selinho. — Até mais tarde, sogrinha. — sorriu para a Mary, que revirou os olhos instantaneamente, e logo depois se retirou.
— Pareceu triste por ele ter dito que achou um apartamento. — minha mãe não ia perder a chance de se meter.
— Talvez eu quisesse que ele ficasse aqui por mais tempo...
— Por mais tempo ou pra sempre? — riu. Eu suspirei e me encostei contra o balcão.
— É que sei lá... eu tô cansada de ficar nessa casa sozinha.
— Eu estou aqui agora.
— Por quanto tempo?
— Eu não vou mais embora, Dulce.
— Você disse que ficaria do meu lado o quanto eu precisasse e na primeira oportunidade, você fugiu pra Alemanha. Eu não confio na sua garantia em ficar aqui.
— E confiaria se ele garantisse? — arqueou a sobrancelha.
— Sinceramente? Confio mais nele do que em você e no Alfonso.
— Vejo o quanto você se perdeu... — balançou a cabeça negativamente. — A ralé está virando a sua mente.
— Que tal ir numa psicóloga, Mary? Conheço uma ótima. Talvez ela te deixe menos preconceituosa. — eu disse com sarcasmo. — Ela fez de mim uma pessoa melhor.
— Melhor pra quem? — ironizou.
— Pra mim mesma e só isso importa.
A convivência com a minha mãe já havia começado com dificuldade, quase como se a gente desejasse se estapear a qualquer momento. E sinceramente, se eu não me concentrasse, era bem capaz disso acontecer.
Desejei tanto que ela estivesse perto que agora que a tenho, repenso se não era melhor que ela continuasse em outro país, não se metendo na minha vida, preocupando-se apenas com os desfiles de moda fúteis que costumava acompanhar.
No meio do dia, ela se arrumou e avisou que almoçaria com uma amiga que desejava rever.
Senti alívio por não ter ela perto do Christopher no almoço.
Eu queria mesmo que ele preferisse morar comigo definitivamente, tentaria de forma indireta convencê-lo a ficar e temia que a minha mãe pudesse ser um obstáculo para o meu objetivo.