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1535 Words
Dulce Tudo o que eu queria agora era chegar em casa e descansar a minha cabeça. De fato eu trabalhava por vontade própria, mas isso me custava a minha disposição mental.  Abri a porta de casa e quando cheguei à sala, um alguém desagradável estava sentando em meu sofá. Ele sorriu ao me ver, ficou ligeiramente de pé e se aproximou pronto pra tocar em mim como forma de cumprimento.  Dei dois passos para trás me certificando de que ele ficasse longe.  — Morgan. — falei.  — Saviñon. — ele me olhou com um sorriso irônico nos lábios.  — O que faz aqui, Allan?  — Soube que não obteve o lucro esperado esse mês... — olhou as próprias unhas tentando fingir desentendimento.  — Ah, você "soube"? — fiz sinal de aspas com os dedos. — Primeiramente, isso não é da sua conta, segundamente, quem deixou você entrar na minha casa?  — Os empregados me conhecem como seu "colega de profissão". — riu pelo nariz. — Pobrezinhos, morrem de medo de levar um dos famosos sermões da chefe.  — Lembre-me de avisa-los pra não deixar você passar do portão da frente. — cruzei os braços.  — Por que sempre tão estressada, Dulce? Lembro bem daquela menina doce que você era... — ele estendeu a mão para tocar o meu rosto.  — Nem pense nisso. — disse rápida e ele logo abaixou sua mão. — Não sei qual é o seu joguinho vindo aqui falar besteiras pra mim, mas fique ciente de que suas provocações não me afetam. — falei de cabeça erguida.  — Só queria te lembrar de que nesse final de semana haverá um baile beneficente da alta sociedade. Seria muito feio se a dona de uma das maiores empresas do país não comparecesse. — insinuou. —Sei que você não é muito familiarizada com esse tipo de evento, afinal, você nunca aceita os convites que recebe. Por isso, estou disposto a ser o seu acompanhante.  — Você? Meu acompanhante? — gargalhei alto, fazendo minha risada ecoar pela sala. — A única vantagem de ter que aguentar a sua presença é rir das coisas idiotas que você diz.  — Dulce, estou falando sério. Nós já fomos amigos um dia, podemos suportar a presença um do outro em prol de uma boa imagem social. Não pega bem se as empresas continuarem nos vendo como rivais.  — A questão é que nós somos rivais e eu não pretendo mudar esse status.  — Por que tanto ódio de mim, princesa? — colocou as mãos no bolso e se aproximou mais do que deveria.  — Ainda pergunta? Você passou a perna em mim e isso me custou uma dor de cabeça enorme! Eu confiava em você e o que você fez com a minha confiança? Jogou fora como se não fosse nada! Agora vem até a minha casa tentando me convencer a fazer a sua imagem melhorar diante da mídia? — ri. — Não vou deixar você me usar de novo, Morgan. E se me chamar de princesa outra vez, eu te mando direto pra vala dos menos favorecidos socialmente.  — O problema é que você é má. — cerrou os dentes.  — Algumas pessoas me obrigam a ser. — coloquei as mãos na cintura e o encarei.  — Você ainda vai precisar de mim, Saviñon. E no dia que vier rastejando, eu vou pisar em você muito mais do que você já pisou em qualquer um antes. — declarou enquanto se aproximava da saída.  Eu apenas ri alto, me certificando de que ele ouviria a minha risada.  Depois que ele se foi, o meu sorriso se desfez em uma expressão carrancuda, pela raiva acumulada que eu tinha daquele homem.  No início da minha carreira publicitária, eu e Allan éramos sócios e ele era meu grande amigo. O conheci ainda no colégio e nós nos tornamos inseparáveis. Por ele eu era capaz até de suportar a presença de Catarina, sua "adorável" irmã que nunca foi com a minha cara e eu, em reciprocidade, vivia a alfinetando.  Quando tomei posse da empresa, Allan já possuía mais experiência do que eu e prometeu me ajudar e me apoiar no que eu precisasse. O que eu poderia temer? Ele era o meu melhor amigo. O que eu não podia imaginar era que a ganância de Allan era maior do que seu caráter.  Sabotou vários de meus projetos, resultando numa queda na bolsa de valores que manchou o meu nome diante dos investidores e claro, fez o nome da empresa dele subir. Depois de descobrir os planos de Allan, prometi à mim mesma jamais confiar a administração da minha empresa nas mãos de outra pessoa.  De forma dura, firme e tendo que renunciar a qualquer doçura e compaixão que existia em meu ser, eu consegui me reerguer com muito suor e trabalho. Hoje, sou a melhor do meu campo e até o Allan tenta vez ou outra me alfinetar, seja por inveja, ou pura canalhice.  Era inaceitável pra ele estar abaixo de uma mulher.  {...}  Dois dias se passaram desde a visita desagradável do Morgan, pela manhã bem cedo cheguei à empresa e fui direto para a minha sala. A rotina era pesada, porém necessária.  — Senhorita Saviñon? — Annie me chamou ao me ver passar.  — Sim?  — Christopher Uckermann já terminou o projeto e deseja apresentá-lo.  — O que? — impossível! Fazia menos de três dias desde que eu havia o desafiado. — Mas isso é impossível! — falei incrédula.  — Pois bem, mas está feito. — sorriu sem graça.  — Vou deixar minha bolsa na minha sala e você já pode mandar ele e a equipe dele irem até a sala de reuniões.  — Sim, senhorita.  Fui para a sala de reuniões onde Christopher, Christian e Maitê esperavam ansiosos.  Sentei numa das cadeiras os olhando de forma desafiadora, enquanto eles se mantinham de pé em frente à alguns banners.  — Muito bem, Uckermann. Mostre-me o que você tem.  — Ok. Nós temos uma garota, que está apaixonada por alguém que não a corresponde.  — ele revelou o primeiro banner que continha a imagem de uma mulher olhando para um homem que parecia não a notar. — Decidida a fazer de tudo para conquista-lo, ela sai à procura da vida dele na internet e descobre que ele é um homem que aprecia tecnologia e sofisticação. — mais um banner foi revelado ilustrando tudo o que ele disse. — Então, ela resolve usar a tecnologia pra criar o perfume J'adore, que possui partículas de ouro que revolucionam o mundo da perfumaria. — ele estava animado em apresentar aquilo e eu, observava séria. — Ela usa o perfume, volta a encontrá-lo e então, ele respira fundo sentindo o aroma do perfume que ela usa e automaticamente se sente atraído por ela. Ele a convida pra jantar e no final da noite quando ele a deixa em casa, ela olha para a câmera e diz "o futuro é de ouro". — ele sorriu satisfeito aguardando que eu desse as minhas opiniões. Olhei para cada um dos banners um por um antes de falar qualquer coisa.  — É isso? Uma mulher correndo atrás de um homem? — o sorriso que estava em seu rosto morreu e ele ficou tão sério quanto eu estava.  — Já não estamos cansados dessas propagandas que colocam a mulher numa posição de necessidade masculina? Devo usar o perfume porque estou procurando um homem? Ou devo usar porque gosto do cheiro?  — Falando dessa forma, parece superficial. — desviou o olhar.  — Não parece superficial, isso é extremamente superficial e previsível. — fiquei de pé. — Você tem mais quatro dias pra fazer tudo de novo.  — Fazer de novo? Isso me custou noites m*l dormidas e a senhorita simplesmente me diz pra "fazer de novo"? — o tom usando em sua voz indicava que ele estava irritado. — E o que eu faço com o projeto que eu fiz?  — Jogue fora!  — Nós dois somos publicitários e sabemos que o gosto pessoal deve ficar em segundo plano! O público pode muito bem gostar dessa propaganda! — a forma como ele me confrontava estava me surpreendendo e ao mesmo tempo, me irritando.  — Tem formas melhores de se vender esse produto. E colocar uma mulher correndo atrás de um homem não é uma delas! Temos que atingir o público feminino e eu tenho certeza que nenhuma mulher tem como objetivo principal agarrar um homem! — ele assentiu rindo pelo nariz. — Tem mais alguma coisa a dizer, Uckermann?  — Não. A senhorita está coberta de razão.  — Vou tentar fingir que não percebi a ironia na sua frase, Uckermann. — comecei a caminhar em direção à porta. — Sugiro que recomece logo e entregue antes do fim do prazo. — disse antes de sair.  A forma como ele me olhava me incomodava. Ninguém tinha a audácia de me contrariar ou me olhar daquela forma tão firme. Se Uckermann não segurasse suas rédeas dentro da empresa, a vida dele aqui seria bem dificultada.  Eu simplesmente odiava ter que lidar com pessoas que eu não consigo controlar emocionalmente e ele, parecia que seria um dos responsáveis por aumentar o meu estresse mental.
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