03

1662 Words
Christopher    Todos do setor de produção escutaram calados enquanto Dulce surtava com um dos empregados por uma suposta baixa nos lucros da empresa.  Se eu já havia a visto com maus olhos, agora então havia descido ainda mais no meu conceito de bondade. Ela era desnecessariamente má com as pessoas.  Quando ela saiu da sala, pude ver um olhar de satisfação no rosto dela. Será que estava mesmo com raiva ou apenas queria reafirmar sua superioridade? Passou por mim me lançando um olhar desafiador que mesmo me fazendo estremecer, não deixou que eu me abatesse. A encarei de volta tão firme quanto ela.  Assim que ela finalmente desapareceu pelos corredores, os outros funcionários pareceram relaxar e começaram a cochichar sobre o ocorrido.  — Qual é a dessa mulher? E por que arrastar a Annie pra ouvir isso? — falei tornando a dar atenção ao Christian.  — Eu te disse que essa mulher era o próprio satanás, não disse? Sobre a Annie, ela adora fazer isso. Manda a Annie seguir ela por aí sempre que ela tem que fazer algo fora da sala dela. É como se quisesse mostrar para os outros que ela tem um cachorrinho adestrado pra exibir.  — Isso é horrível. — meu desgosto era aparente.  — Coitado do Henri. Teve problemas com a mãe doente e deixou o trabalho em segundo plano. E agora tem que ouvir dessa mulher venenosa que ele vai ganhar menos.  — Acha que ela seria capaz de diminuir o salário dele?  — Isso é o mínimo que ela faria. Seria capaz até de matar alguém se esse alguém prejudicasse os negócios dela. — sussurrou, temendo que outras pessoas ouvissem.  — Deveríamos ir falar com ele, não? Afinal, é nosso colega de trabalho e ele está na mesma área que eu. Merece um apoio emocional.  — Apoiar aquele ali? Nem tenta! — riu. — Se Dulce mandasse ele pular, ele perguntaria "de qual altura?". É apaixonado por ela e todos sabem.  — Mesmo que ele seja um coitado iludido, deve estar m*l agora. Vamos lá. — saí andando na frente e apenas pela curiosidade, Christian me seguiu. A porta da sala dele estava entre-aberta e eu dei dois toques.  — Pode entrar. — respondeu lá de dentro.  — Com licença. — entrei e Christian veio logo atrás. — Me chamo Christopher, sou o novo produtor. O Christian você já conhece.  — E aí, Henri. — acenou com a cabeça.  — Precisam de alguma coisa? — pra quem havia acabado de ser humilhado diante de toda a empresa, ele parecia muito calmo.  — Só saber se está bem, ou se precisa conversar. O assunto com a chefe foi tenso, não? — tentei ser o mais gentil possível. Ele me analisou por alguns instantes e soltou um longo suspiro.  — É novo aqui, logo vai acostumar. Nossa chefe é uma mulher intensa. — deu de ombros.  — E tudo bem pra você ser tratado dessa maneira? — franzi a testa. Eu não podia acreditar que alguém aceitasse aquilo.  — Não é a primeira vez que a senhorita Saviñon precisa dar um sermão em alguém. Além disso... Uckermann... — estreitou os olhos para ler o meu crachá. — Isso não é da sua conta.  — Só tentei ser gentil, Cortez, mas já que prefere aceitar as humilhações dela... — dei de ombros. — Não é da nossa conta, certo, Christian? — ironizei e Henri me fuzilou com os olhos.  — Acho melhor ir cuidar do desafio que lhe foi passado, Uckermann. Se ela surta com aqueles que não fazem um trabalho bem feito, imagine o que ela faz com os que não entregam no prazo. — sorriu de lado.  — Pelo menos, se ela surtar comigo eu não serei tão capacho a ponto de aceitar calado como um cachorro manso. — provoquei.  — Christopher... — Christian me repreendeu.  — Está pisando num terreno perigoso, Uckermann. — Henri parecia irritado. — Aquela mulher não é nada fácil de agradar.  — Não acho que seja. — sorri divertido. — O que eu acho é que vale muito mais à pena vê-la como uma pessoa normal do que ter medo dela.  — Ninguém aqui tem medo dela! — se defendeu.  — Ah... desculpa, Henri. — Christian riu. — Não ia me meter na conversa, mas você não pode dizer uma besteira dessas. Até eu que sou cara de p*u prefiro encarar uma alcateia de lobos ao invés de bater de frente com ela.  — Melhor a gente deixar o Cortez com as crenças dele, meu amigo. — coloquei a mão sobre o ombro de Christian. — Quando um homem admira uma mulher, ele não pensa em mais nada.  Ficamos em silêncio esperando uma resposta por parte de Henri, que não veio. Ele nos olhou como se aguardasse a nossa saída. E depois de um sorriso irônico da minha parte, eu e Christian saímos de lá em direção à minha sala.  — Que pessoa complicada. — Me joguei em minha cadeira.  — Christopher, você m*l chegou e já ganhou um inimigo dentro da sua área, aplausos. — fez graça batendo palmas.  — Aquele ali é peixe pequeno. Sabe com quem eu tenho que me preocupar?  — Dulce. — concordei rindo. — Já comecei montando o plano de produção que você me pediu. As ideias que você teve pro roteiro foram excelentes.  — Ótimo. Eu vou pesquisar mais sobre a proposta do produto e pensar em mais coisas.  — Em pouco tempo nós terminamos isso, sem estresse.  — Assim espero. — suspirei.  Todo o meu dia de trabalho se resumiu em pesquisas, planejamentos e longas conversas com Maitê e Christian que me ajudavam como podiam. Acreditava que esse projeto poderia sair bem rápido, se eu não parasse de trabalhar nele.  Na hora do almoço, Annie insistiu pra que eu comesse com ela no refeitório da empresa, enquanto os outros saíram pra outro lugar.  Enquanto ela falava sobre algum assunto feminino, eu dava atenção ao meu laptop, onde eu analisava o projeto. — Christopher, é hora do almoço! — ela fechou o laptop e me encarou.  — Eu preciso terminar isso no prazo. — tentei abrir novamente, mas ela o pegou e o colocou na cadeira ao seu lado.  — Você vai terminar isso a tempo se estiver com a cabeça relaxada. Agora, presta atenção no seu almoço.  — Chata. — reclamei. — Me diz, Dulce vai mesmo diminuir o salário do Cortez?  — "Cortez"? Achei que não gostasse de chamar as pessoas pelo sobrenome sem necessidade.  — Acontece que eu e o Cortez não tivemos um bom começo e chamar pelo primeiro nome é i********e demais.  — O Henri é bem competitivo mesmo, deve ter se sentido ameaçado.  — E com razão! — falei orgulhoso.  — Claro que sim! — riu. — Enfim, ela ia mesmo fazer isso, mas eu expliquei que a mãe do Henri não estava muito bem e que seria prejudicial se o salário dele diminuísse.  — E ela mudou de ideia só por isso? — estranhei.  — Não escute Maitê e Christian. A Dulce pode ser grossa com as pessoas, mas ela não faria m*l a ninguém. Bem... dependendo da situação. — sorriu sem jeito. — Mas isso é normal com pessoas tão poderosas.  — Pra mim ela é esquetadinha demais.  — Não é fácil administrar todo esse império sozinha, a pessoa acaba se estressando facilmente. — era incrível a necessidade que Annie sentia de defender a Dulce.  — E o vice-presidente da empresa?  — Alfonso? — gargalhou. — Trabalho aqui a três anos e nunca o vi na vida. Pelas reclamações da Dulce, ele se mandou pra alguma ilha paradisíaca depois que o pai morreu e não mandou mais notícias.  — Então, como ele ainda tem cargo aqui?  — Isso é fácil de entender. A empresa é da família, ele tem direito à uma parte da fortuna, incluindo a empresa. Apesar de Dulce ser a única a dar duro, metade disso tudo é legalmente do Alfonso.  — E tudo bem pra ela o irmão viver de sombra e água fresca enquanto ela se estressa?  — Ela não fala muito sobre o pai dela, mas pelo que eu já ouvi dos funcionários mais antigos, quando o senhor Saviñon estava vivo, Dulce vivia aqui na empresa pra ficar perto dele sempre. Ela o amava e o seguia de um lado para o outro. — Annie olhou em volta. — Esse lugar é fruto do suor dele e aquele homem amava essa empresa como se fizesse parte de sua alma. Seria um pecado pra Dulce se ela deixasse tudo isso à deriva, já que nem o irmão e nem a mãe se importaram e até tentaram vender as ações depois da morte do senhor Saviñon.  — E o Alfonso concordou em não vender a parte dele?  — Sim, com a condição de que Dulce administraria tudo e ele continuaria tendo metade dos lucros e por algum motivo, o cargo de vice-presidente. Acho que foi por pura vaidade. Deve ser um homem preguiçoso, ambicioso e egoísta. Esse tipo de gente me dá asco. — falou com desgosto.  — Então, no final a família é pior do que ela? Tem certas coisas que são difíceis de acreditar. — dei risada. — Você parece conhecer ela muito bem, são amiguinhas?  — Eu sou a secretária dela, obrigatoriamente eu a conheço bem. Além disso, ela confia em mim.  — Confia até demais.  — Qual o problema? Sou a pessoa que fica ao lado dela o dia inteiro, é natural que ela converse comigo. — disse despreocupada.  — Você tem um dom de fazer qualquer um gostar de você, não é?  — Pode-se dizer que sim. — sorriu.  Terminei de almoçar e logo voltei aos meus afazeres. Fui um dos últimos a ir embora da empresa e em casa, o trabalho não parou. Mesmo exaustos e sobrecarregados, ficamos os três acordados tentando fazer o possível pra criar a melhor propagando possível e estávamos indo muito bem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD