Dulce
Desafiar os novos publicitários era o meu hobby favorito. O que posso fazer? Não há muito com o que se distrair em um empresa. Vê-los correndo de um lado para o outro como baratas tontas pra me satisfazer era gratificante.
Eu tinha um luxo muito maior do que qualquer riqueza desse mundo. As pessoas sempre faziam o que eu queria, seja por respeito ou medo, não tinha importância. Saber que eu tenho poder sobre tanta gente me deixava contente e de certo modo, suprimia o vazio que eu sentia desde que meu pai faleceu.
Aquele homem sempre me deu tudo o que eu queria, eu era a princesinha dele e ele era o meu herói. Depois que o meu pai se foi, toda a família se dispersou. Meu irmão e minha mãe resolveram seguir com suas vidas e colocar toda a administração da fortuna em minhas mãos.
Alfonso deveria se envergonhar por ser chamado de "vice-presidente". Tinha tanto tempo que ele não dava as caras que eu até disponibilizei a sala que era dele para um dos diretores da empresa.
Já a minha querida mãe, apesar de estar à quilômetros de distância de mim, fazia questão de me ligar regularmente pedindo que eu lhe enviasse quantias exageradas de dinheiro. Eu a amava, mas admitia que não era um ser humano tão admirável. O amor pelos filhos ficava abaixo das suas necessidades pessoais.
Estava distraída analisando alguns projetos importantes quando o telefone tocou.
— Sim, Annie?
— Senhoria Saviñon, sua mãe está na linha e deseja falar urgentemente com a senhorita. — revirei os olhos e soltei um suspiro tedioso. — Devo dizer que está ocupada?
— Não, pode passar.
— Só um minuto. — em poucos segundos a ligação foi passada.
— Meu amor! — senti meu ouvido latejar com tamanha animação do outro lado da linha.
— Bom dia pra você também, Mary.
— Não sabe o que aconteceu! Preciso urgentemente que me envie trinta mil dólares.
— O que foi agora? — provavelmente seria pra algum mimo pessoal.
— A minha estilista alemã preferida acaba de lançar uma nova coleção de casacos de pele e claro que eu não posso ficar sem ter um.
— É pele de verdade?
— Não seria bom se não fosse de verdade.
— Sabe o que penso sobre essas coisas, mamãe.
— Ai, que bobagem! Por que Deus criaria os animais se não fosse pra nos servir?
— Você não precisa de um casaco de pele verdadeira.
— Quem disse que não? Filha, eu tenho necessidades!
— E eu tenho princípios! — fui firme.
— Princípios? — riu. — É muito irônico que você se preocupe com o bem estar dos animais enquanto trata seres humanos como escravos.
— a essa altura, ela havia começado a me irritar. Fiquei em silêncio deixando que ela ouvisse apenas a minha respiração pesada. — Não adianta ficar bravinha, você sabe que é verdade.
— Seu conceito de escravidão está totalmente errado. Sugiro que pesquise antes de me ligar pra falar besteiras! E só por isso, pode esquecer o casaco de pele! E nem pense em tirar dinheiro do aluguel como você fez da última vez! Juro que te deixo ser despejada!
— Você não faria isso. Eu sou sua mãe. — falou despreocupada.
— Me testa, Mary.
— Você deveria ter mais respeito e fazer o que eu quero.
— E por que? Porque você é "minha mãe"? — gargalhei. — Quem te sustenta sou eu.
— Ok... então, me mande cinco mil pra que eu compre alguns sapatos. Juro que se fizer isso eu esqueço que está sendo grossa. — respirei fundo me dando por vencida.
— Mary, eu juro que se você der entrada na compra de algum casaco de pele, eu...
— Não se preocupe. — me interrompeu. — Não quero que a minha filha me coloque de "castigo". — ironizou.
— Ótimo. Hoje mesmo eu mando alguém depositar o dinheiro.
— Obrigada, mon amour! Eu te amo!
— Também te amo. Até mais. — desliguei e voltei aos meus afazeres.
Apesar de ser taxada de c***l, eu tinha as minhas preocupações com o mundo. Era totalmente contra a exploração de animais e nem ao menos me alimentava de produtos de origem animal. Era inadmissível que minha mãe julgasse como normal a necessidade humana de matar um bicho para estar na moda.
Analisando a bolsa de valores, notei que a minha empresa havia subido menos que o normal. Eram apenas alguns pontos de diferença, mas para o meio econômico aquilo significava ser passado para trás da concorrência.
A fúria subiu para o meu ser e eu só queria sair dali, achar o culpado por aquilo e fazê-lo pagar.
Levantei e saí andando até o exterior da minha sala. Sair da minha zona de conforto era algo que eu só fazia para ir embora da empresa, ou para fazer parte de alguma reunião de importância.
— Senhorita Saviñon? Precisa de alguma coisa?
— Annie ficou de pé rapidamente e sua expressão demonstrava a surpresa em me ver sair sem ter algo marcado.
— Preciso ir até o setor econômico. Será que você pode me acompanhar? — Annie era a única a ter o privilégio da minha gentileza. Afinal, era a única ali com quem eu simpatizava, a única que não me desagradava em nada.
— Não entendo, por que precisa ir lá? Não é algo que eu possa resolver para a senhorita?
— Apenas me acompanhe.
Tornei a andar e ela me acompanhou apressada. Assim que saí completamente da minha sala, os funcionários que trabalhavam nas cabines do salão principal começaram a me olhar com estranheza, com toda certeza perguntando-se o que diabos eu fazia fora da minha sala. Nem preciso dizer o silêncio que se instalou no local. É, eu tinha esse poder. O cheiro de temor impregnava o ar.
Cheguei até o setor de economia, onde a reação das pessoas não foi diferente. Fui até a sala do diretor econômico e entrei sem bater. Ele arqueou as sobrancelhas e ajeitou a gravata ao me ver.
— Senhorita Saviñon! Que prazer tê-la em minha sala! — ele levantou e manteve-se com uma postura ereta e um sorriso exagerado no rosto.
— Poupe-me do "puxa-saquismo". — falei áspera e o sorriso em seu rosto logo sumiu. — Quero saber quem foi o responsável pelas minhas ações não terem tido a alta de sempre. — coloquei as mãos na cintura e o desafiei com o olhar.
— Be-bem... algumas propagandas feitas por nossa empresa não tiveram o sucesso esperado esse mês, mas não deixaram de gerar lucro.
— Mas não geraram o lucro esperado! — aumentei o tom de voz. — Isso já é r**m! Qualquer mudança no lucro deve ser motivo de preocupação! E depois? Vai me dizer que não tem importância se eu perder alguns pontos?? Sabe quem deve estar muito feliz com a situação atual?? Allan Morgan! E eu não quero que esse desgraçado pense que irá me passar!
— ele já estava suando de nervoso e seu queixo tremia. — Me diga quem foram os responsáveis pelas propagandas que não lucraram.
— O produtor da maioria delas foi o Henri Cortez.
— Muito bem. Henri Cortez irá ouvir.
Dei as costas e segui até o setor de produção. Podia sentir a tensão de Annie atrás de mim. Ela sempre tinha compaixão por qualquer alma que fosse alvo das minhas reclamações.
Assim que entrei no setor de produção, as risadas dos artistas que trabalhavam animados cessaram e eu senti cada um daqueles olhares pesar em mim.
O único que parecia não se preocupar em me ver ali era o novo produtor, Christopher Uckermann, que estava na porta da cafeteria conversando com Christian Chavez. Em poucos minutos, Uckermann veria que eu devo ser temida.
Entrei na sala de Henri sem bater e ele rapidamente abriu um sorriso e ficou de pé.
— Senhorita Saviñon? Como vai? — era i****a a forma como ele estava realmente feliz em me ver.
— Annie, não fecha a porta. — falei quando vi que ela ia fechar. — Quero que todos ouçam. — lá fora, apenas o silêncio dos curiosos que lutavam para ouvir cada palavra dita por mim estava presente. E eles ouviriam. — Como eu estou? — gargalhei ironicamente e logo tornei a ficar séria. — Eu estou furiosa! — ele franziu a testa e me olhou temeroso. — Deu uma olhada na bolsa de valores hoje, Cortez?
— Não...
— Pois eu sim! E não gostei do que vi! O que diabos deu em você?? Não está se dedicando o suficiente em seu trabalho e me faz ganhar menos dinheiro! Que desculpa esfarrapada você tem pra me dar??
— Senhorita, eu sei que tenho dado uma baixa no meu trabalho, mas mesmo assim ainda gero lucro.
— Mas não o suficiente!
— Isso não vai lhe prejudicar. — suplicou.
— Ótimo! Então eu vou continuar te pagando regularmente, só que com uma baixa que condiz com a baixa que você deu para os meus lucros! Vai continuar recebendo, só que menos. Que m*l há, não é?? — falei com ironia.
— Mas... por favor, não pode fazer isso! — ele uniu as mãos como se fizesse uma oração.
— Por que continuar investindo o mesmo em um funcionário que não é mais tão eficiente??
— debochei me divertindo.
— Tenho tido alguns problemas em minha vida pessoal e isso pode ter me afetado profissionalmente, eu confesso... mas prometo que resolvo isso em pouco tempo. — ele já estava desesperado, os olhos marejados.
— Poupe-me!! Não me interessa o que droga acontece com você fora daqui!! Dentro da minha empresa você tem as suas obrigações!! E é bom que você as coloque acima de qualquer coisa. Sabe que não me preocupo nenhum pouco em ter que cortar alguém. Se sair um, tem mais cem na fila querendo entrar. Então, sugiro que você passe a valorizar o emprego que tem, ou... — fiz sinal de tesoura com os dedos.
Saí de lá e voltei para a minha sala. Odiava ter que me estressar, mas precisava mostrar quem manda. Todas essas ovelhinhas têm que andar conforme os meus comandos. Não era à toa que eu era chamada de a melhor publicitária do estado. Tudo tratava-se da minha firmeza.