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1461 Words
Dulce  Meu coração batia apressadamente dentro do meu peito. As mãos suavam como se aquele fosse um grande acontecimento. Mas de fato, era.  A última vez que me lembro de ter tido um encontro com alguém eu ainda estava na faculdade. Talvez tivesse perdido o jeito e estragasse tudo, ou talvez eu só estivesse me alto sabotando com esses pensamentos negativos.  Como o jantar ia ser em casa, eu vesti algo que vestia no meu dia a dia, deixei meu rosto sem nenhuma maquiagem e não me preocupei muito com meu cabelo. Apenas o lavei, penteei e deixei secar naturalmente.  Dispensei meus empregados pelo resto do fim de semana, assim me sentiria mais à vontade em casa.  Sentei no sofá enquanto aguardava a chegada dele. E como sempre muito pontual, a campainha tocou às 19:00 em ponto.  Dei uma olhada no espelho antes de ir abrir a porta e depois de respirar fundo, eu destranquei e lá estava ele, com algumas sacolas de compras, um buquê de rosas e um sorriso singelo no rosto.  — Olá. — eu disse sorrindo.  — Olá.  — Pode entrar. — dei espaço e ele entrou na sala. — Vamos até a cozinha colocar essas coisas lá. E aí você vai poder começar a cozinhar, porque eu tô faminta! — cantarolei.  — Também tô. — riu. — Vai ser a primeira vez que eu vou experimentar um prato totalmente vegano.  — Não vou prometer nada, afinal, quem vai cozinhar é você. — deixamos as coisas sobre o balcão.  — E isso é pra você. — ele me entregou o buquê.  — Obrigada. — respirei fundo com as flores contra o meu nariz. — Eu adorei.  — Ótimo. Estava com medo que você pudesse ser alérgica.  — Não tenho nenhuma alergia. Bom, que eu saiba. — ri. — E então, o que você vai preparar?  — Isso, minha cara, é uma supresa. Onde você deixa as panelas?  — Não faço ideia.  — Como não? — ele riu.  — Christopher, eu não sei nem fritar um ovo!  — meio dramático, mas era verdade.  — Sendo assim, hoje você me ajudará e aprenderá como sobreviver sozinha. — brincou.  — Isso vai ser desastroso.  — Bom... — ele ficou atrás de mim, abraçou minha cintura e aproximou seus lábios da minha orelha. — Desastroso, mas muito divertido. — sussurrou me causando arrepios.  — Então me ensine. — fiquei de frente pra ele e enlacei meus braços em seu pescoço.  — Mãos à obra, senhorita Saviñon! — me deu um selinho rápido e logo se afastou até os armários.  Fiquei ali em pé, o observando enquanto ele pegava as panelas que iria precisar e depois desembrulhava os ingredientes. Cada gesto dele prendia a minha atenção e eu não conseguia desviar o olhar nem pensar em mais nada. Era quase angelical.  Me libertei dos meus pensamentos quando ele me ofereceu algumas verduras e uma faca, para que eu picasse tudo.  Desengonçada e sentindo uma dificuldade tremenda, eu consegui, mesmo que devagar, cortar as verduras em cubinhos.  Enquanto cozinhávamos, a gente conversava sobre os hobby's que tínhamos, incluindo o único em comum, o videogame. Foi a conversa mais leve e mais sincera que eu já tive com alguém e eu simplesmente não queria parar de falar sobre como eu adorava o fato de não precisar ser tão formal com ele.  Ver ele cozinhar era algo um tanto quanto charmoso e me deixava arrepiada ver aquele homem de aparência bruta fazendo uma coisa tão delicada como aquela. Me peguei distraída o olhando em diversos momentos.  Finalmente a comida ficou pronta e nós organizamos a sala de jantar. Ele fez uma macarronada vegana, acompanhada com carne de caju que foi devidamente temperada por mim, sob a supervisão dele.  — Ok, vamos ver. — falei antes de garfar um pouco de comida. — Hum... — murmurei sentindo minhas papilas gustativas dançarem com o sabor. — Divino!  — Minha vez. — ele provou e pela expressão, havia ficado tão maravilhado quanto eu. — Comida vegana até que é legal.  — Não imagina o quanto. — falei convencida.  — Por que você se tornou vegana?  — Seres humanos não precisam explorar animais pra sobreviver. O único motivo pelo qual fazemos isso é o prazer. Mas, há como provar uma boa comida sem precisar matar um animal. As pessoas só precisam se desconstruir e claro, serem mais empáticas com os animais.  — Não sei se eu conseguiria, eu adoro carne.  — Eu também adorava. E aí eu descobri que podia substituir por carne de soja, ou de caju.  — falei apontando para o prato.  — Não é a mesma coisa. — Claro que não, mas quem se importa? Não sou vegana pelo sabor e sim pela causa.  — Admiro isso, de verdade. Mas... — ele desviou o olhar.  — O que?  — A empresa cria propagandas pra diversas outras empresas que usam produtos de origem animal. E tá tudo bem pra você?  — Esse tipo de política está na empresa desde a época do meu pai e bem, meu pai não era vegano, nem os diretores que estão na empresa bem antes de mim. Sou responsável pelo sustento de muitas pessoas e extinguir marcas que exploram animais prejudicaria não só à mim, mas as pessoas que trabalham pra mim. Seria como ter que escolher entre pessoas inocentes e animais inocentes.  — Você tem mais coração do que eu pensei. — sorriu.  — Ninguém disse pra me subestimar. — falei orgulhosa. — Me fala sobre você. Sei que você sabe tudo sobre mim, mas eu não sei nada de você.  — Cresci no estado do Maine com a minha avó. Depois que ela faleceu, terminei meus estudos aqui em Los Angeles e comecei a morar com o pessoal.  — Como os conheceu?  — Annie também morava no Maine e a gente meio que cresceu juntos, ela veio pra cá com a família antes de mim. Quando precisei me mudar ela me deu uma força. Christian e Maitê já moravam com ela na época.  — E os seus pais? — ele ficou alguns segundos em silêncio.  — Morreram. — foi a única coisa que ele disse.  — Posso perguntar como aconteceu? — Sim, claro. Eles precisaram fazer uma viagem à negócios e aconteceu um acidente. Eu tinha uns 10 anos.  — Deve ter sido muito difícil pra você. — coloquei minha mão sobre a sua. Ele ergueu minha mão e depositou um beijo. — O passado deve ficar no passado. Estou muito bem agora, gosto da vida que tenho e das pessoas que conheço. — ele parecia animado.  — Isso é ótimo. — suspirei. — Já eu gostaria de viver o meu passado de novo. Sinto falta de me sentir completa, sinto falta dessa casa cheia e principalmente, sinto falta do meu pai.  — Faz muito tempo que ele se foi?  — Assim que eu terminei a faculdade, à seis anos atrás. Foi uma barra ter que assumir a empresa sem tanta experiência e com todo mundo desacreditando da minha capacidade.  — Mas você mostrou pra eles quem é a melhor. — me encorajou e eu sorri.  — A que preço?  — Manter o legado do seu pai. Isso não é importante pra você?  — Por um bom tempo essa foi a coisa mais importante. E agora eu vejo que por causa disso eu perdi a minha vida toda. Depois que meu pai morreu, a minha vida só foi ladeira abaixo. Tem dias que eu só quero sumir. — fitei o chão.  — Ei. — ele levantou meu queixo. — Você é uma pessoa maravilhosa e talvez todos esses problemas tenham servido pra te tornar mais forte e mostrar que não precisa mudar pra ser boa no que faz, ou pra ser respeitada. E eu vejo a sua mudança, todo mundo vê. É uma mulher incrível, Dulce. — Olha, você já me disse muitas coisas e essa foi a mais gentil de todas. — rimos.  — Deve ser porque agora eu tô louquinho por você. — deu de ombros. O analisei enquanto ele continuava comendo, como se sua fala fosse totalmente natural. — O que?  — Está mesmo apaixonado por mim?  — Sim. — disse com convicção.  — E a Maitê? — Se quer saber, tive uma boa discussão com ela antes de vir pra cá. Me disse coisas horríveis, mas pelo menos colocamos um ponto final.  — Ok... — tornei a comer.  — Não tem nada pra me dizer? — arqueou a sobrancelha.  — Tenho. Depois do jantar.  — Isso é tortura. — reclamou. Dei de ombros e ri.  Eu estaria louca se não o aceitasse na minha vida. Claro que também estava apaixonada e logo ele saberia disso, mas eu não perderia a chance de vê-lo ansiar por isso.
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