Christopher
Ver Dulce tratando uma criança com tanto carinho foi algo que me surpreendeu. E notar que ela estava mesmo se tornando alguém melhor me deixava ainda mais apaixonado por ela. Se a fúria em seus olhos já me atraía antes, a doçura que surgia me atraía ainda mais.
Depois do fim do evento no orfanato, eu voltei para casa e me retraí antes de abrir a porta. O silêncio lá dentro era gritante e eu não imaginava o que ou quem esperar.
Abri a porta devagar e entrei um pouco incerto. Christian estava no sofá e parecia concentrado em algum trabalho.
Comecei a andar em direção ao meu quarto sem dizer uma palavra.
— Não vai conversar comigo? — ele me encarou.
— Eu deveria? — perguntei sem jeito.
— Cara, eu sou o seu melhor amigo. Com quem mais você vai desabafar? — relaxei e sentei no sofá ao lado dele. — Como se sente?
— Eu não faço ideia... acho que estou preocupado com a May. Ela acordou bem?
— Um pouco melhor do que ontem, mas ainda tá bem chateada. Eu só quero ouvir o seu lado da história, porque na história dela você é um m*l caráter.
— Talvez ela não esteja errada. — dei de ombros. — Juro que eu só ia conversar com a Dulce.
— E a língua dela precisava estar colada na sua pra vocês conversarem? — zombou.
— Christian! — o repreendi.
— Qual é, eu não acredito! Dois dias atrás vocês se odiavam mais do que o coringa odeia o Batman e de repente, tudo muda de uma hora pra outra? — ele parecia inconformado.
— Christian, a Dulce tá tentando ser alguém melhor, você mesmo notou isso nessa última semana.
— E você tá acreditando nessa compaixão momentânea dela? — riu.
— Sabe onde eu estava hoje? — ele negou com a cabeça. — Naquele orfanato onde faço trabalho voluntário às vezes. E sabe quem estava lá? Sorrindo e abraçando as crianças? Dulce.
— Não acredito. — arqueou as sobrancelhas em sinal de surpresa.
— Nem eu acreditei quando vi. Eu acho que ela só precisava de alguém que não tivesse medo dela, que a visse como a mulher normal que ela é. Aí ela percebeu que não tem problema ser gentil ou mostrar que tem um coração.
— Você acha que pode ter tido um papel nisso?
— Não sei. Mas se for assim, fico feliz. — sorri de lado.
— E a May?
— Creio que ela não vai mais querer nada comigo e eu também acho que não vai dar certo.
— Não vai dar certo porque você gosta da Dulce. — me deu um soquinho no ombro.
— Essa mulher tem um efeito sobre mim que eu nunca pensei que teria... — suspirei.
— Vê futuro nisso? Porque você sabe, ela é super poderosa e é a sua chefe.
— Não me importo e espero que ela também não. Nós vamos jantar na casa dela hoje à noite. Eu vou cozinhar. — falei com orgulho.
— Boa sorte.
— Valeu. Acho melhor eu começar a pesquisar sobre pratos veganos. — eu disse ao levantar. — E as meninas?
— Foram passar o dia numa espécie de resort. Coisa de mulher.
— Ótimo.
Tomei um banho e depois de me vestir, fiz algumas pesquisas na internet. Decorei a receita de alguns pratos que eu esperava que Dulce fosse gostar. Logo depois, fui até um supermercado e comprei tudo o que iria precisar.
Quando fiquei pronto, às 18:00, peguei tudo o que havia comprado e fui até a porta. E antes que eu a abrisse, ela foi aberta pelo lado de fora e eu parei bem de frente com Maitê e Anahi.
O clima ficou tenso e nós três nos olhávamos sem dizer nenhuma palavra.
— Então... onde vai com essas compras? — Annie perguntou, quebrando o silêncio.
— Eu... Ah... — fiquei sem palavras. Annie enfiou a mão dentro de uma das sacolas e pegou uma caixa de macarrão.
— Isso é vegano? — arqueou a sobrancelha. — Você não é vegano. — ela disse desconfiada e depois de alguns segundos, pareceu entender.
— Não acredito! Você vai...
— Annie! — Maitê a interrompeu. — Será que dá pra me deixar sozinha com ele?
— Depois eu converso com você. — Annie me devolveu a caixa e saiu até seu quarto.
— Então... — comecei.
— No sofá, por favor. — me interrompeu. — A não ser que esteja com pressa. — falou com sarcasmo.
— Tudo bem. — deixei as compras no chão e sentei no sofá com ela. — Eu pretendia conversar com você, mas não estava em casa.
— Vai sair com ela? — perguntou ignorando as minhas explicações. Eu desviei o olhar e respirei fundo, não querendo responder àquilo.
— Christopher, eu não sou i****a. — seus olhos se encheram de lágrimas. — Está usando a sua melhor camisa, seu relógio mais caro e o perfume que mais gosta. Você com certeza vai para um encontro!
— Ok. — me dei por vencido. — Eu me encontrei com a Dulce pela manhã e propus que ela experimentasse um jantar feito por mim e ela disse que me esperaria na casa dela.
— Maitê fechou os olhos e uma lágrima correu por seu rosto. — May... — estendi minha mão para enxugar, mas ela se afastou bruscamente.
— Vocês estão juntos?? E não teve nem o caráter de vir me dizer "desculpe, May, mas eu não quero mais você". Simplesmente iria me descartar sem um aviso prévio!! Você não tem alma! — agora ela gritava e chorava ao mesmo tempo.
— Eu ia falar com você, mas esteve fora o dia inteiro e eu não queria falar por telefone! Isso é uma coisa séria!
— E aí você achou que era uma ótima ideia ir preparar um jantar vegano pra Dulce sem terminar comigo definitivamente?? — falou com indignação.
— Como "terminar"? Eu nunca pedi você em namoro. — eu disse por impulso, mas logo me arrependi ao ver o choque no rosto dela.
— Então é isso. Dane-se o que a Maitê vai sentir, dane-se todo e qualquer sentimento que ela tenha, dane-se o fato de que essa i****a passou anos da vida dela sonhando com o dia em que você a olharia da mesma maneira que ela te olha!! — me empurrou na última frase.
Eu fiquei em silêncio apenas a observando. — E agora? Não me diz mais nada?
— Sinto muito. Eu sei que fui um i****a.
— Sentir muito não vai apagar a minha mágoa! Por que ela, Christopher? Por que justo ela? É a última mulher que poderia te fazer feliz!
— Você não a conhece!
— Conheço o suficiente pra saber que é podre, que não tem um coração e que nunca será capaz de dar amor à alguém abaixo dela! É exatamente como a Catarina! Só quer te usar!
— Não! — fiquei de pé. — Não sabe o que está dizendo.
— Você ainda vai ver que eu tenho razão, Christopher. Vai ver que a Dulce não é o que você imagina.
— Se isso acontecer, será uma pena. E mesmo assim, eu não posso ficar com você porque eu não estou apaixonado por você. Estou apaixonado por ela e não quero mentir pra mim mesmo ou para as pessoas que estão ao meu redor! Dane-se o que a Dulce pode se tornar depois! Eu vou assumir esse risco porque eu não tenho nada a perder!
— Isso é o que você pensa! — ela ficou de pé e me encarou. — Enfim... tente ser feliz. Caia no joguinho dela como achar melhor.
Depois de dizer aquilo, ela deu as costas e se afastou.
Corri minhas mãos por meu cabelo, irritado com as coisas que ela disse. Eu não era i****a.
Sabia os riscos que estava correndo e também sabia que era forte o suficiente pra aguentar o que estivesse por vir. Nem Dulce, nem mulher alguma quebraria o meu coração.