Dulce
Não fazia ideia de que as coisas aconteceriam dessa forma esta noite. Imaginei diversas situações e em nenhuma delas eu estive aos beijos com Christopher na minha sala. De todo modo, confesso que adorei essa surpresa do destino.
É uma pena que ele tenha saído correndo atrás da Maitê. Esperei que mesmo com as minhas palavras o encorajando a ir, ele ficasse comigo.
Esperei que escolhesse à mim. Mas já que nem tudo seria como desejei, esperava que ele fosse feliz com ela se ao menos conseguisse o seu perdão.
No sábado pela manhã, eu saí bem cedo de casa e fui direto para o orfanato.
Vesti algo mais leve. Uma saia jeans, uma blusa branca com magas abertas e uma sandália bem simples. Esses eram os momentos em que eu me sentia muito mais eu mesma.
As portas do lugar estavam abertas e eu podia ver alguns voluntários brincando com as crianças. O orfanato estava bem decorado e os pequenos pareciam bem animados para o evento.
Entrei na casa procurando por algum rosto conhecido. E do outro lado da sala, Bernardo veio correndo e se atirou em meus braços.
O abracei forte e o ergui, o colocando no colo.
— Que bom que está aqui! — ele disse e depois depositou um beijo em minha bochecha.
— Como eu poderia não vir? Estava morrendo de vontade de te ver.
— Eu também, Dul. Senti sua falta. — sorri acariciando seu rostinho com uma de minhas mãos. — Vamos lá no campinho? Você tem que conhecer o tio Christopher, ele sempre vem aqui nos ensinar futebol. — pulou do meu colo, pegou em minha mão e começou a me arrastar até o lado de fora da casa.
— Espera, você disse "Christopher"? — quantos Christopher's existiam em L.A.?
— É, ele está bem ali!
Paramos no jardim, onde as crianças usavam um espaço para jogar. E de longe, na direção onde Bernardo apontava, lá estava ele. Com uma roupa de quem ia correr uma maratona, um apito no pescoço e uma bola debaixo do braço, enquanto dizia algo para as crianças.
Um sentimento de satisfação surgiu em mim ao vê-lo ali. Imaginava que ele fosse uma pessoa boa, mas não fazia ideia de que nossos caminhos fossem se cruzar dessa forma e nesse lugar. Além de tudo, fiquei nervosa com a ideia de falar com ele depois dos eventos da noite anterior, considerando que provavelmente ele havia feito as pazes com Maitê e eu seria jogada pra escanteio.
— Tio Christopher!! — Bernardo gritou, chamando a atenção dele.
Christopher olhou na minha direção e segurou uma expressão confusa ao me notar, mas logo abriu um sorriso sereno e gentil. Retribuí o sorriso e acenei de leve, ainda nervosa com sua presença.
— Muito bem, crianças. Que tal treinar um pouco antes do jogo começar? — ele disse, entregando a bola para os meninos. Depois, veio andando até mim, até parar na minha frente. — E então, Bernardo, não vai querer treinar também? — perguntou olhando para o garotinho que segurava minha mão.
— Sim, mas antes, eu quero te apresentar a Dul. — Bernardo falou me apresentando com maestria.
— "Dul"? — Christopher me olhou com um sorriso nos lábios. — Eu a conheço como senhorita Saviñon.
— Já se conhecem? — Bernardo perguntou olhando para mim.
— Eu sou chefe do Christopher.
— Ah, entendi. — pareceu pensar. — Vocês dois deviam conversar, se conhecer melhor. São pessoas muito legais, aposto que vão se dar bem. — depois de dizer isso, ele saiu saltitando.
Eu e Christopher nos entreolhamos e caímos na gargalhada.
— Se ele soubesse de todas as vezes em que a gente se deu mal... — falei.
— Mas isso acabou, não? Ontem serviu pra resolver as diferenças.
— E eu ainda estou tentando entender o que mudou.
— Dulce... eu nem conversei com a Maitê. — suspirou. — Ela foi embora da festa e quando cheguei em casa, já estava dormindo. Não conversei com ninguém de casa, na verdade. Saí antes de todos acordarem.
— E o que pretende dizer à ela? — mesmo temendo a resposta, eu precisava perguntar.
— Isso você decide. — se aproximou, ficando cara a cara comigo.
— Eu? — conseguia ouvir meus batimentos de tão altos que estavam agora.
— Eu gostei do que aconteceu ontem e não me arrependi nenhum pouco. Se você quiser que aquilo aconteça mais vezes, eu vou pedir desculpas à Maitê por ter a magoado e depois vou dizer que entre eu e ela já não dá mais.
— Você tem certeza disso?
— Sim. Eu quero estar com você, por mais doidinha que você seja. — sorrimos. Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. — O que me diz?
— Você entende que eu seja uma pessoa muito insegura? — desviei o olhar. — Todo mundo que eu pensava gostar de mim no final, me deixou sozinha. Eu tenho medo de que isso aconteça de novo. Não quero gostar de alguém e ser passada pra trás. Não outra vez.
— Não vou fazer isso com você, porque eu estou apaixonado por você.
— O que? — senti algo acender em meu peito.
— É isso. Eu admito estar apaixonado por você e se me der uma chance, prometo não te deixar sozinha nunca.
— Ai, meu Deus. — comecei a rir pelo nervosismo. — Isso é... uau...
— Acho que você precisa pensar. — sorriu. — Eu vou lá com as crianças, depois a gente conversa.
Ele segurou meu rosto, beijou minha testa e depois se afastou.
Assisti o jogo de futebol das crianças, onde Christopher foi o juiz. Era gratificante ver ele tão animado numa coisa não simplória como aquela.
Em um empasse entre três garotos, o pequeno Bernardo acabou se machucando e tendo um arranhão no joelho. Assim que o levaram para dentro da casa, eu segui junto e segurei sua mãozinha pra que ele parasse de chorar.
— Está tudo bem agora, logo vai parar de doer. — o confortei.
— Dul? Me abraça? — pediu melancólico.
Sentei no sofá o colocando no meu colo e o ninei, acariciando seu cabelo enquanto uma das cuidadoras do orfanato limpava o machucado.
Depois de limpar, ela saiu me deixando sozinha com Bernardo, que agora havia parado de chorar.
— Acha que eu joguei bem? — perguntou.
— Você foi incrível!
— Mesmo tendo caído?
— Querido, isso é super comum. Não vê na tv que os melhores jogadores se machucam o tempo todo? Isso não te faz menos bom. — ele olhou para mim e sorriu. — Está cansado?
— Um pouco.
— Pode descansar seus olhinhos. Vou ficar aqui o tempo todo.
Conversei com ele até que fosse tomado pelo cansaço e finalmente dormisse.
O meu apresso por esse menino estava crescendo e ficava mais evidente a cada vez que eu vinha vê-lo. Olhar para ele me acalmava, ouvir sua voz e as coisas gentis que me dizia me tranquilizavam mais do que qualquer coisa fosse capaz de fazer.
— Que cena... — ouvi alguém falar atrás de mim.
— Ah, oi, Christopher. — o cumprimentei.
Ele se aproximou e sentou no chão, de frente à mim, me observando com um brilho nos olhos.
— Nunca imaginei que te veria num orfanato e de uma forma tão amorosa com uma criança.
— Achou mesmo que eu não tinha um coração?
— franzi a testa.
— Você é... intensa. — respirou fundo. — Gosta do Bernardo?
— Ele é um menino muito doce, gostei dele desde o primeiro instante e claro, me tratou como se eu fosse uma pessoa completamente normal. Acho que isso fez com que eu me apegasse à ele.
— Nunca vi você com esse olhar.
— Que olhar?
— De paz. Você sempre carrega uma preocupação ou ansiedade no rosto, mas agora você só está... relaxada. E muito bonita.
— Christopher... — senti minhas bochechas corarem.
— É, você é linda. — falou sentando ao meu lado.
— Obrigada.
— O que vai fazer hoje à noite?
— Provavelmente, nada.
— Eu sei que você ainda não respondeu se quer algo comigo ou não, mas mesmo assim, que tal a gente jantar hoje? Eu posso cozinhar pra você. — sugeriu com animação.
— Você sabe cozinhar? — me mostrei interessada.
— Posso te surpreender.
— Será um desafio cozinhar pra mim, porque eu sou vegana. — falei com orgulho.
— Deveria ter percebido isso quando almoçamos juntos. — riu. — Eu aceito o desafio.
— Ótimo. Sendo assim, eu te espero na minha casa na hora do jantar.
— E aí você vai poder me dizer se me quer ou não. — fez bico e eu ri.
— Combinado.
— Agora, deixa eu levar esse garotão pro quarto.
Ele pegou Bernardo do meu colo e subiu as escadas.
Por algum motivo, a vida estava resolvendo me recompensar e talvez não fosse uma má ideia dar o braço a torcer para o amor. Entendo que eu e Christopher começamos com farpas, discussões e um ódio crescente entre nós, mas agora tudo parecia leve.